Imagine-se em um futuro não tão distante, um ponto específico no espaço-tempo, na trajetória vacilante da humanidade, onde o estágio atual da tecnologia encontra terreno fértil para progredir, avançar, desenvolver-se em aparatos, máquinas e conceitos que, hoje, ousam avançar em breves e pequenos passos.
Imagine uma sociedade absurdamente conectada, onde o acesso ao meio virtual é regra e o mercado cria, a todo o momento, novas necessidades tecnológicas, novos aparatos cujas funções facilitaram sua vida, permitindo maior conexão com o ambiente virtual, maiores possibilidades de contato. Agora, imagine que, na busca por estabelecer conexões e necessidades, o mercado lhe ofereça um dispositivo capaz de elevar a empatia entre casais, permitir que você, ser apaixonado, sinta as emoções de seu parceiro, elevando, portanto, a conexão entre si.
É em meio a esse contexto de absurda conexão, comunicação constante proporcionada pelo milagre da internet, que conhecemos Briddey, funcionária de destaque em uma empresa de dispositivos móveis, smartphones, aparelhos eletrônicos que, provavelmente, você não precisa em sua vida. A bela, ruiva, cem por cento irlandesa e nada esperta Briddey, é convidada por Trent, seu namorado e chefe, para instalar um EED, aquele dispositivo bacana que eleva a empatia entre casais, permitindo o estabelecimento de uma conexão ainda maior entre os apaixonados de plantão.
A cirurgia é realizada, Briddey aguarda na sala de recuperação – mas estamos falando de uma obra cujo pano de fundo interliga-se aos domínios da ficção científica, portanto, não demora muito para que a adorável e estritamente confiável tecnologia apresente seu princípio de imprevisibilidade, resultando em uma Briddey assustada, confusa, andando pelos corredores do hospital e, como se não bastasse, ouvindo a voz de um colega de trabalho em sua mente. 
Apesar da contextualização tecnológica, das breves e superficiais críticas sociais, Interferências trata-se de uma comédia romântica. O livro é extremamente fiel a clássica fórmula estabelecida pelo gênero – que, infelizmente, não posso explorar ao longo desta resenha por conter em sua essência diversos spoilers da obra – apresentando um enredo previsível, clímax estável e desfecho fofinho que, embora estivesse escancarado nas primeiras vinto e cinco páginas, ainda é capaz de te tirar um sorriso bobo ao finalizar a leitura.
A personagem principal fundamenta-se nas bases da antiga, polêmica e, fortemente debatida, donzela em perigo. Desconfiada, boba e constantemente cometendo erros, a personagem ignora o namorado relapso e oportunista; defende os moldes de uma sociedade falha, onde mais vale atualizar-se tecnologicamente, vindo a sofrer com a constante conexão virtual, do que partilhar da realidade mágica de uma vida onde o verdadeiro contato humano prevalece. Briddey, na provável necessidade de agradar, de não contradizer, não entrar em conflito, prefere ignorar
chamadas, produzir desculpas ou fugir de colegas e familiares intrometidos, da mesma forma, desmerece e desacredita o único que lhe estende a mão e propõem-se a ajudar.
Não se trata, porém, de criticar a personalidade de uma personagem feminina, uma vez que esta segue, claramente, os moldes da donzela indefesa, além das regras estabelecidas pela própria comédia romântica. Mas sim, perceber as nuances entre ações e consequências; entre a opressão de uma sociedade fortemente baseada no avanço e crença na tecnologia e a liberdade de desconectar-se. Trata-se de reconhecer a linha tênue entre abuso e intromissão, de admitir que nossa sociedade, assim como grande parte dos personagens deste livro, incluindo a própria Briddey, não refletem e não são capazes de formular um pensamento crítico para com os mais diversos aspectos e, isso, embora não seja explorado, é verdadeiramente assustador.
Connie Willis constrói uma comédia romântica impecavelmente estruturada, clássica em sua essência, previsível, adorável e fofa, como toda história do gênero deve ser. A obra peca, porém, ao desvincular-se das fortes críticas sociais, características de uma boa ficção científica. Decepciona quando retira do contexto tecnológico qualquer culpa, falha, dívida ou ideologia que impregna todo e qualquer aparato produzido. 
A ambiguidade de interpretações, porém, ressalta a maior falha desta obra, uma vez que se perdem debates importantíssimos em meio à confusão perante nuances entre intromissão e abuso; passividade e características de personalidade, bem como, a propagação da neutralidade tecnológica. Entre erros e acertos, Interferências destaca-se pela tentativa de unir ficção científica e informações históricas ao enredo de chick lit, apresentando as falhas comuns de uma autora que pretende carregar mais do que pode suportar, demonstrando que autores consagrados também podem errar.

  • Crosstalk
  • Autor: Connie Willis
  • Tradução: Viviane Diniz
  • Ano: 2018
  • Editora: Suma
  • Páginas: 463
  • Amazon

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