A carreira de Karl Schwind, pintor talentoso em busca de fama e reconhecimento, sofre sua primeira reviravolta quando, ao ser contratado para produzir a imagem de uma mulher descendo a escada de um ambiente requintado – sua primeira grande obra – acaba por apaixonar-se por Irene, esposa de Gundlach, aquele que lhe encomendou a amaldiçoada obra.
O quadro permanece nos domínios da residência de um marido abandonado enquanto Irene segue caminho nos braços de um pintor apaixonado, porém, Gundlach, em toda sua indignação, corrompe a bela e misteriosa obra. Assim inicia-se o conflito de interesses que, entre o orgulho ferido de dois homens respeitáveis, a personalidade forte de uma mulher e um quadro único, transformará a vida de cada personagem para sempre.
Em meio as discussões, a turbulência gerada por um pintor, sua musa, uma esposa e seu marido, um advogado é contratado para resolver, de uma vez por todas, o problema do quadro maculado, evitando futuros danos a sua aparência, bem como, em meio a uma proposta questionável, encontrar uma solução para o problema de Irene. Esta, por sua vez, ao permitir que cada um dos três homens ligados ao problema em questão, desaparece juntamente ao quadro que deu origem a tudo. Décadas após seu desaparecimento, o quadro surge em uma exposição de um dos mais importantes museus de Sidney, resultando na busca por respostas por parte de cada um dos homens que, no passado, teve sua vida tocada pela figura de Irene.

As grandes e antigas derrotas levam nossa vida para uma nova direção. As pequenas não nos modificam, mas nos acompanham e nos atormentam, um pequeno espinho permanente na carne.

A Mulher na Escada não apresenta a pretensão de desenvolver-se como um mistério em que leitor e personagens são lançados em meio a buscas por respostas para os eventos sombrios de um passado distante. Com a delicadeza de uma escrita leve e acessível, esta obra não passa de uma grande reflexão sobre os caminhos pelos quais nos leva a vida, sobre todas as expectativas que depositamos nos ombros daqueles que, durante longos ou breve períodos de tempo, compartilham os caminhos que delimitam nossa jornada.
Todo o contexto do desaparecimento da mulher e seu retrato não passa de um pretexto para despertar no leitor a percepção de que, em meio às certezas que possuímos com relação a todos aqueles que nos cercam, existem também dúvidas, inconsistências e nuances que, em meio a nosso olhar cansado, egoísta ou transbordando de amor, nunca poderíamos imaginar.
Partindo de um conflito de interesses, da ignorância de todos os envolvidos com relação aos sonhos, desejos, ambições e vontades de uma mulher, Bernhard Schlink remete a vida com graça, encantamento e uma narrativa curiosa, que, embora cuidadosa e leve, esconde em si a beleza das trajetórias humanas. Uma vez que passamos a vida em busca do equilíbrio entre os sonhos daqueles que nos cercam e nossos próprios objetivos e ambições, além de depositarmos nos outros, da mesma forma que depositam em nós, as dores e alegrias de viver, torna-se fácil compreender as verdadeiras mensagens desta obra.
Não passamos de uma construção, da união, conexão única e preciosa de todos os eventos que enfrentamos, da cultura que moldou nossa essência, da família que nos deu amor e carinho, das tristezas e planos nunca concretizados e, em meio a complexidade de quem somos, aprendemos a lidar com a complexidade daqueles que trilham, à sua própria maneira, os mesmo caminhos. São esses caminhos, as relações entre cada indivíduo e suas expectativas perante outros que transformam nossas vidas. São os sonhos, os fantasmas, as pessoas que amamos e aquelas que deixamos para trás a força capaz de construir nossa narrativa e, de forma clara, leve e delicada, o autor expressa todas e cada uma destas nuances em sua história.
A Mulher na Escada é uma obra única em sua simplicidade, porém, não se trata de algo nunca antes visto, de uma narrativa excepcional, de um mistério sombrio e intrincado, mas sim de uma reflexão sobre nossos caminhos enquanto indivíduos.  
É por este mesmo motivo que a obra transporta o leitor para a vida, o faz perceber-se nas páginas do livro, nos personagens da história, nas dores e desafios aqui apresentados. Com sua escrita leve, acessível e suas mensagens adoráveis, o autor ocupa-se da vida em um sentido muito mais essencial e, ao trazer a vida e as mensagens que não conseguimos enxergar para os domínios de uma obra de ficção, esse pequeno grande livro ressalta o poder que muitos ainda não reconheceram na literatura contemporânea.

  • Die Frau auf der Treppe
  • Autor: Bernhard Schlink
  • Tradução: Lya Luft
  • Ano: 2018
  • Editora: Record
  • Páginas: 210
  • Amazon

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