Myriam foi uma dedicada e promissora estudante de direito. Como grande parte da comunidade feminina, ela tinha sonhos, esperanças e planos. Quando conheceu seu esposo, Paul, a emoção do romance e as expectativas para o futuro fizeram seu coração vibrar, porém, com a chegada da primeira filha, a carreira de Myriam sofreu uma pausa brusca e a relação com Paul viu-se permeada por frustrações e mágoas. O processo de gestação, parto e puerpério deixaram suas marcas em Myriam … quando o segundo filho chegou, o cansaço constante, apego emocional aos filhos, distanciamento da família e antigo círculo de amigos, carência por uma rede de apoio e mesmo seu relacionamento com Paul sofreram outro drástico baque, direcionando o casal para o ponto inicial, ou final, de sua história como pais.

Após discussões e estratagemas, eles decidem contratar uma babá, alguém para dividir o fardo, contribuir com o cuidado das crianças e, consequentemente, possibilitar a Myriam a retomada de uma vida que não dependa total e constantemente da existência, e sobrevivência, dos filhos. É assim que Myriam conhece e contrata Louise, uma babá perfeccionista, extremamente polida e encantadoramente dedicada às crianças.

“Há jovens com véu preto, que têm que ser ainda mais pontuais, mais gentis, mais limpas que as outras. Há aquelas que mudam de emprego toda semana. As filipinas que imploram, em inglês, para que as crianças não pulem nas poças. Há as mais antigas, que conhecem o bairro há anos, que são intimas da diretora da escola, aquelas que, na rua, encontram adolescentes que elas um dia criaram e se convencem de que eles as reconheceram, que não as cumprimentaram por timidez.”

Com a presença de Louise, a vida da família se transforma pouco a pouco. Agora, as crianças estão aprendendo responsabilidade e respeito, Myriam encontra o tempo que faltava para dedicar-se a carreira e assumir o cargo oferecido por um antigo colega que sempre viu potencial em sua maneira de conduzir processos e conciliações, enquanto Paul, após anos vivendo na margem da produção musical, recebe a oferta dos sonhos e a agarra como todo e qualquer homem faria.

Um dia de cada vez, por meio de cada conquista e felicidade dos pais, e, principalmente, através de ações que reafirmam sua posição essencial na vida da família, Louise permanece e se estabelece. A babá, contratada para cuidar das crianças, leva-las e busca-las da escola, agora limpa e organiza a casa, prepara os mais saborosos jantares, conhece a localização exata de cada elemento doméstico e, com o cuidado e atenção de um general ou espião, modifica o universo de maneira imperceptível, criando um mundo em que a família não possa mais existir sem sua presença.

Ao permitir que a babá assuma todos os aspectos da vida familiar e doméstica, contudo, Myriam e Paul, acomodados no frenesi de suas carreiras, deixam passar despercebidos os olhares, breves comentários, comportamentos destoantes, devoção absurda das crianças, pequenos segredos que apenas Louise conhece e esconde… em sua pequena culpa compartilhada, os pais criam o ambiente perfeito para que a tão dedicada e educada babá destrua suas vidas da maneira mais dilacerante possível. Em uma tarde normal, ela retira do mundo a vida das duas crianças e busca aniquilar sua existência logo em seguida.

Vencedor de prêmios e best-seller internacional, Canção de Ninar é um marco para a literatura francesa. Escrito por uma francesa estrangeira, Leïla Slimani nasceu no Marrocos, a narrativa ecoa Albert Camus, trabalhando com o absurdo da vida humana da maneira mais cotidiana e próxima possível. Como Camus, a autora não se importa em oferecer respostas existenciais ou demonstrar as nuances e profundezas do psicológico humano, finalizando o livro da mesma maneira como o começamos: conhecendo os eventos e linha geral que fundamenta a história, mas pouco sabendo sobre suas motivações, justificativas, consequências … nesse aspecto, o livro é fenomenal e impactante para aqueles que nunca entraram em contato com o absurdo da existência e sobrevivência, porém, contrastado com posicionamentos e linhas narrativas iniciadas de maneira rasa e abandonadas ao longo do caminho, Canção de Ninar também é uma oportunidade desperdiçada, uma história que segue por vários rumos e, por falta de arremate, desfalece sem propósito, deixando que a razão de sua existência seja a mesma que a razão dos atos de sua personagem.

Leïla Slimani possuí uma escrita instigante. Por tratar-se de um livro curto e de uma história envolvente, é difícil largar o livro, sair do mundo encantadoramente assombrado dessa família imperfeita. Por meio dos breves comentários, falas de personagem e interferências perceptíveis da narradora, também encontramos uma série de apontamentos sócio culturais. O livro trata da questão dos emigrantes ilegais, do preconceito aos estrangeiros, da pressão materna, do julgamento da sociedade perante mães que buscam mais do que serem “apenas mães”, da ausência sistemática dos pais na vida dos filhos, da (des)confiança em terceiros para divisão de fardos da mesma maneira como tratou a vida de suas crianças: brevemente, as descartando no momento em que a linha narrativa avança.

Isso, somado às perspectivas que se conectam sem conectar-se, aos personagens testemunha que surgem pela necessidade do enredo, pela cena final que atira outra personagem feminina a pouca desimportância que o mundo lhe dá, demonstram falta de arremate e, por mais que tente defender a produção literária de uma mulher que por si só já é minoria no palco do mundo, percebo que as inspirações e potencialidades da história atrapalharam sua própria construção.

No fim, Canção de Ninar é uma interessante opção de contato com a literatura contemporânea francesa. Em seu recorte atual, o livro também demonstra inspirar-se nos clássicos de Albert Camus, onde as ações humanas não possuem respostas, a existência não possuí motivos e tudo aquilo que não compreendemos seguirá nos afetando de maneiras subjetivas, passando da desimportância ao dilaceramento.

Meu desejo por uma narrativa melhor costurada, por uma certeza do caminho pelo qual a escritora buscava seguir, contudo, não diminuem a relevância da obra. Em seus defeitos, ela demonstra o que ainda pode-se trabalhar, em seus pontos mais fortes, ela demonstra como é possível integrar o novo ao “velho”, a crítica ao enredo instigante e, assim, conquista leitores para além do cânone majoritariamente masculino, abre portas para novas vozes, permite que leitores como eu, que tanto buscam retomar o ritmo e paixão pela literatura, encontrem o fôlego que precisam para seguir persistindo.

  • Chanson douce
  • Autor: Leïla Slimani
  • Tradução: Sandra Stroparo
  • Ano: 2026
  • Editora: Planeta
  • Páginas: 192
  • Amazon

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