A Tática da Amizade, por Stephanie Archer

23 jun, 2026 Por Mariana Iazzetti

Eu tinha uma curiosidade quase acadêmica de entender porque todo mundo anda tão apaixonado pelos tais romances de hóquei. Então eu prometo, de verdade, que fui de coração completamente aberto para A Tática da Amizade. Infelizmente, a decepção veio com muita força.

No livro acompanhamos Darcy e Hayden, melhores amigos que estão morando juntos após Darcy terminar um relacionamento. Depois de anos perdida na vida do ex, a jovem agora quer se reencontrar e recuperar o tempo perdido – então quem melhor que Hayden, o cara mais gente boa e pegador que ela conhece, para ensiná-la a paquerar? Ela só não contava que os sentimentos do jogador estrela do Vancouver Storm por ela passassem muito longe da amizade, nem que ela própria poderia se ver desejando algo mais entre eles.

O livro não é um slow burn como o marketing promete, mas vou ser a primeira a admitir que o friends to lovers desenvolvido aqui é bem divertido. Gostei muito da forma como os dois se apoiam, se conhecem, se divertem juntos com piadas internas e confiam um no outro. Minha parte favorita de um romance assim é quando ambos ficam no dilema entre arriscar a amizade em nome do sentimento novo que se forma, e para isso A Tática da Amizade é um prato cheio.

O casal é envolvente o suficiente para segurar o livro, o desenvolvimento pessoal dos protagonistas é bem-feito (mesmo que o conflito interno de Hayden de não desejar ser visto como só um pegador seja no mínimo bobo) e os diálogos são bem escritos. Achei que tinha algo promissor nas mãos.

Mas os pontos positivos acabam por aí. A verdade é que A Tática da Amizade é simplesmente heterossexual demais para o meu gosto. Perdi as contas de quantas vezes as palavras “másculo”, “masculino”, “cheiro” (sério mesmo, qual a pira em falar sobre o cheiro um do outro?) e outras nessa linha meio animalesca de atração sexual foram usadas. Fora um fato muito simples: o livro carece completamente de uma linha condutora. Não há conflito na história, é só ir acompanhando o desenvolvimento do casal. O que estaria tudo bem – como disse, a química dos dois seguraria essa barra – mas em um romance de esportes, achei que teríamos algo como “O Grande Jogo” ao final, algum marco para termos como referência.

Ao invés disso, o hóquei, os personagens secundários e eventos são mencionados apenas para serem esquecidos. E poderia ser qualquer outro esporte aqui; entendi rapidamente que o hóquei foi escolhido só por ser um jogo mais brutal, com contato físico e jogadores grandes. Grande, inclusive, foi uma palavra muito usada, bem mais do que precisava.

Até mais ou menos os últimos 30% o livro se sustentava como uma farofa esquecível, mesmo que relativamente cômica de forma não proposital. Só que no final o arco narrativo de ciúme foge completamente ao racional e fica insuportável de controlador e possessivo. Cheio de “quando outro homem está na cena eu não consigo me controlar”, o livro começou a me perder de vez.

E lembra que disse que a trama não tinha conflito? Bom, a autora decidiu que criaria um. Ou achou que tinha criado. Em um (1!) único capítulo, foi criado um problema fraquíssimo, sem pé nem cabeça, com uma solução ainda mais tosca e que me ofendeu pessoalmente como relações públicas. Queria eu que toda crise de imprensa fosse criada com uma frase sem nexo e depois resolvida com uma nota de posicionamento vazia e uma doação para uma instituição que nem estava envolvida na briga…

E assim, um livro que começou aceitável terminou com nota dó. A linguagem se tornou forçada, os pensamentos dos protagonistas, repetitivos, as cenas de sexo ficaram muito excessivas e tivemos um final totalmente anticlimático. Encarei a leitura como um experimento e o resultado foi claro: nem os clichês que eu mais gosto conseguem sustentar uma história fraca. Só recomendaria a leitura se você já gostou dos anteriores da série – aí, quem sabe, o estilo da autora realmente funcione.

Porque sim, é uma série! E os outros casais ocupam um espaço desnecessário nessa história; os personagens não assumem de fato papéis, mas a autora faz questão de mencionar toda hora o quão felizes os casais estão, de uma maneira forçadíssima. Enfim, peço desculpas aos fãs da autora, pois infelizmente A Tática da Amizade não foi apenas um livro de que não gostei, mas um daqueles que nem entendi como outros poderiam gostar.

  • The Wingman
  • Autor: Stephanie Archer
  • Tradução: Guilherme Miranda
  • Ano: 2025
  • Editora: Paralela
  • Páginas: 396
  • Amazon

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