Caros, leitores! Vamos começar essa resenha de um jeito um pouco diferente, porque este livro merece. Hoje quero conversar com você leitor, que olha para um livro e enxerga nele muito mais do que apenas um objeto, que consegue entender que livros e leitura são como um abrigo, que consolam, ensinam, emocionam, são cheios de possibilidade e muitas vezes até um incentivo para que viremos a chave e mudemos a nossa vida. E A LIVRARIA PERDIDA, entrega justamente isso, misturando realismo mágico, ficção histórica, mistério, drama e romance, a obra é uma declaração de amor aos livros, e mais do que isso, ao poder que eles podem exercer.

Visualize o seguinte cenário, em uma rua aparentemente comum de Dublin, cercada por névoa, existe uma livraria misteriosa, que nem sempre pode ser encontrada ou vista, que parece escolher a dedo seus leitores, surgindo apenas quando alguém precisa dela, existindo entre o acaso e o destino. Como se fosse um personagem vivo e pulsante na história, capaz de interferir nas vidas que cruzam o seu caminho.
É ao seu redor que conhecemos três figuras intrigantes, protagonistas desta história, em linhas temporais e momentos de vida diferentes, mas com um ponto em comum, todos os três são pessoas quebradas, tentando reencontrar um local ao qual possam pertencer, e principalmente, uma versão de si mesmas que se perdeu ao longo do caminho.
“— Eu preciso ser dona da minha história. Para recuperar o meu poder.”
Opaline, vivendo nos anos 1920, é uma mulher inteligente, apaixonada por literatura e sufocada por uma sociedade que deseja decidir sua vida. Fugindo de um futuro imposto e de um irmão controlador, encontra nos livros não apenas refúgio, mas também sua identidade, uma porta para sua liberdade. Sua trajetória é marcada por lutas, silenciamento, busca por autonomia feminina, mas também um retrato doloroso da solidão, do medo e da coragem necessária para romper padrões. Opaline não é perfeita e é justamente isso que a torna tão memorável. Ela erra, ama, idealiza e sofre, é humana, cheia de sonhos e vulnerabilidades. É impossível não se sentir conectada a ela, ter empatia por tudo que ela passa, especialmente quando para sobreviver, ela precisa desaparecer.
“(…) Apenas sentir o livro na ponta dos dedos já me acalmava. Não conseguia explicar, nem para mim mesma, mas os livros me davam uma sensação inabalável de estabilidade e firmeza. Porque as palavras sobreviveram, então de alguma forma eu também sobreviveria.”
Martha, está emocionalmente devastada, fugindo da violência, do abuso, sem dinheiro, sem nenhum apoio, perdida em um mundo que parece gigante demais para ela, insegura, receosa, porém disposta a encontrar um espaço que lhe caiba, sem que precise pedir desculpa. E é lindo ver o seu desabrochar, suas pequenas vitórias, aprendendo a voltar a confiar, percebendo seu próprio valor, construindo pequenos afetos sem medo, mostrando que a cura raramente acontece de forma linear, mas que sim, ela é feita de hesitações, altos e baixos e coragem diária para seguir, mesmo quando tudo te diz que não.
“(…) Eu não sabia o que proteger. Ele foi muito mais rápido. E, quando encontrou o atiçador, tudo desapareceu de mim. Tudo. Toda a esperança que eu tinha. Cada esperança ingênua e estúpida. Aprendi algo naquele momento: você está sozinha neste mundo. Ninguém vai vir para salvá-la. As pessoas não mudam de repente, pedem desculpas e começam a tratá-la com respeito. Elas são uma confusão de mágoa e dor e vão descontar em quem puderem. Eu tinha que salvar a mim mesma.”
Henry, é um apaixonado por livros, principalmente os raros, pesquisador acadêmico, chega em Dublin, investigando a existência de um manuscrito perdido, e buscando pela livraria perdida, a qual ele tem o endereço, mas que não está onde aparentemente deveria estar. Um homem sem muito traquejo social, rígido, intelectualmente brilhante, mas socialmente deslocado. Apesar de sua presença não ter o mesmo impacto que das outras duas protagonistas – Opaline e Martha -, Henry é um bom contraponto, ele não rouba a cena, mas a complementa, e aos poucos vemos sua evolução, conforme ele vai aprendendo a abandonar as teorias, deixando sua obsessão e estudos um pouco de lado, para viver a sua própria vida.
“(…) Toda a minha vida até agora tinha sido fugindo de alguma coisa, me perdendo em livros e esperando que ninguém notasse o grande buraco dentro de mim em que algo vital deveria estar.”

O que mais amei no enredo, é que o verdadeiro romance não está ligado a um casal, e sim entre pessoas e livros. O romance romântico não é um ponto central na história, por isso não espere por algo arrebatador e intenso, muito pelo contrário, realinhe suas expectativas para encontrar algo lento, tímido, uma relação que nasce aos poucos, através do cuidado, da confiança, da convivência e principalmente pelas fraquezas compartilhadas.
São poucos os livros que conseguem transmitir tão bem a sensação de pertencimento, de acolhimento encontrada na literatura, ao poder transformador das palavras. E A LIVRARIA PERDIDA, faz isso com maestria, é como uma linda carta de amor as histórias, ao conforto das bibliotecas, ao cheiro do livro, e a magia invisível de um livro certo no momento certo.
“— Ler um livro é só o começo. Eu quero saber tudo sobre ele. Quero saber quem escreveu, quando, onde, como e por quê. Quem o imprimiu, quanto custou, como sobreviveu, onde tem estado desde estão, quando foi vendido, por que e por quem, como chegou aqui… Não há limite para o que eu quero saber sobre um livro.”
E é importante ainda dizer que temos aqui uma história construída em camadas, com personagens emocionalmente feridos, uma livraria que parece existir fora do tempo e uma narrativa que fala sobre pertencimento, liberdade e a força silenciosa da literatura. A cada virar de páginas nos vemos presos em segredos familiares, manuscritos perdidos, dores silenciadas e escolhas capazes de alterar gerações inteiras. A história ainda flerta com o universo das irmãs Brontë e a obsessão literária em torno de um manuscrito desaparecido.
Dito tudo isto, preciso dizer que não acho que este livro vá funcionar para todos os leitores. O inicio da história requer paciência, o ritmo é um pouco mais lento, principalmente até que algumas conexões sejam feitas e despertem uma curiosidade mais voraz. Alguns elementos são mais sugeridos do que explicados, então fica a nosso próprio cargo desvendar o que a autora está querendo nos entregar. E ainda tem algumas coincidências que parecem ser excessivas… enfim pequenos detalhes que podem impactar nos leitores de maneiras diferentes conforme nossas expectativas, bagagem e busca durante a leitura.
“— A questão com os livros — disse ela — é que eles ajudam você a imaginar uma vida maior e melhor do que jamais poderia sonhar.”
Acho que ficou bem claro, que eu AMEI a leitura, mesmo não a achando perfeita. Porque o livro tem em sua essência algo que eu amo, SENTIR, e eu senti muitas emoções ao longo de toda a leitura. Porque algumas histórias não apenas nos entretêm, elas nos lembram que ainda existe beleza em recomeçar, e que também merecemos protagonizar nossa própria história.
Até a próxima! Bye.

- The Lost Bookshop
- Autor: Evie Woods
- Tradução: Guilherme Kroll Domingues
- Ano: 2025
- Editora: Livros da Alice
- Páginas: 376
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