Ji-an passa muito tempo dentro de uma cabine telefônica perto de sua casa esperando seu pai voltar do trabalho. Mas uma noite ele não volta. Após viver esse trauma, ela transforma sua dor em propósito: investigar as razões que levam tantas pessoas ao suicídio e oferecer algum tipo de conforto às famílias enlutadas. A história se desenvolve por meio de diferentes casos, que Ji-an aceita através de sua agência, o Centro de Autópsia Psicológica, nos quais a cabine funciona como um elo entre as pessoas que se foram e aqueles que ficaram.

Créditos: Editora Rocco

Esse livro faz parte do “gênero” literatura de conforto, que ganhou espaço no Brasil em 2024 e continua a dominar as prateleiras das livrarias. Mesmo com o tema “pesado” do suícidio, a ideia aqui é apresentar conforto, pois a intenção da protagonista é dar apoio aos familiares de quem se foi.  A narrativa combina elementos realistas com um toque fantástico, representado pela cabine telefônica. Esse recurso não é explorado como mistério ou suspense, mas como ferramenta simbólica para aprofundar a dimensão emocional. Por isso, há uma naturalidade nas pessoas em aceitar o fato da cabine telefônica funcionar da maneira que funciona.

A narrativa é dividida em capítulos e cada um deles tem um caso diferente. Há uma progressão linear na história da protagonista, que também precisa lidar com seus próprios sentimentos e com toda a bagagem de dor que ela possui. Assim, as pessoas que ajuda acabam também ajudando ela de alguma forma. Como ela investiga e possui uma agência, há outros recursos na narrativa como relatórios e entrevistas. 

“O trauma é uma dor que transcende o tempo”

A autora tem histórico pessoal ligado à saúde mental, e por isso tenta apresentar autenticidade às reflexões. Contudo, por ser um livro pesado, eu senti um pouco de superficialidade nas abordagens e nos “motivos” que levaram algumas pessoas a buscarem o fim. Sei bem que cada pessoa reage de um jeito diferente às problemáticas da vida, mas mesmo assim eu vi algumas falas, de personagens que tiraram a própria vida, “problemáticas”. 

Os clientes de Ji-an são muitos e aparecem em diferentes episódios, geralmente ligados a histórias de perda. Não são profundamente desenvolvidos individualmente, mas cumprem um papel coletivo, compondo um mosaico de experiências humanas diante da morte. Assim, os mortos, cujas vozes ecoam pela cabine, funcionam quase como personagens indiretos, ampliando a dimensão emocional da narrativa. Essa escolha narrativa pode ser vista de duas formas: por um lado, amplia o alcance temático; por outro, pode limitar a complexidade psicológica de personagens individuais.

Créditos: Editora Rocco

Para cada cliente, há um tema. Temos um homem que perdeu o emprego, um namorado tóxico, uma menina que sofria bullying, entre outros assuntos atuais e que tem forte impacto na vida das pessoas. Com isso, essa configuração revela uma escolha estética: mais do que individualizar personagens, o livro privilegia experiências compartilhadas. O que faz a empatia do leitor falar mais alto, pois conseguimos nos identificar com pelo menos uma situação entre as várias apresentadas. 

Ji-an é uma protagonista empática, construída como mediadora entre vida e morte. Sua trajetória não é apenas funcional à trama, mas também simbólica, representando a possibilidade de ressignificação da dor. A partir dela, a autora trabalha um espaço de escuta simbólica, pois muitas vezes só queremos ser escutados. 

“Num mundo onde todos morrem, não há próxima vez. Não sabemos quando vamos morrer. Então, pense de novo. O momento de estarmos juntos é agora.”

O livro se destaca pela sua capacidade de tratar temas delicados com respeito e humanidade. A metáfora da cabine telefônica é eficaz e acessível, funcionando como um dispositivo narrativo que aproxima o leitor de questões difíceis. Aqui, encontraremos: Luto e perda, como eixos centrais da obra; saúde mental e suicídio, que apresentados de forma direta e sem sensacionalismo, mas com forte impacto emocional; culpa e perdão, já que muitos personagens buscam respostas para sentimentos não resolvidos; memória e vínculo, através da cabine que simboliza a permanência dos laços afetivos mesmo após a morte; esperança, apesar do peso temático. O livro sustenta uma perspectiva de cura e acolhimento. 

A Garota da Cabine Telefônica cumpre seu propósito: provocar reflexão e oferecer algum conforto diante de experiências universais como a perda e o sofrimento. Mas eu confesso que terminei essa leitura um pouco preocupada. Mesmo entendendo o objetivo do livro e as questões apresentadas nele, a falta de profundidade e o modo como os motivos dos personagens suicidas são apresentados me causou estranhamento. O que me fez pensar bastante, que acredito que seja um dos objetivos da leitura.

  • Autor: Lee Su-Yeon
  • Tradução: Jae Hyung Woo
  • Ano: 2025
  • Editora: Rocco
  • Páginas: 286
  • Amazon

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