O que são os Flagelos? E porque isso devasta toda uma civilização enquanto, do outro lado de um domo, uma população vive soberana em suas crenças e magia? Até onde a magia é algo vindo dos deuses, até onde a linha tênue entre o certo e o errado é capaz de se esticar para melhor caber os desejos daqueles que estão com o poder? Essa é a história de Sciona Freynan; a primeira mulher Alta Maga de Tirania. Ambiciosa, estudiosa e que dedicou toda sua vida até então para os estudos, para ser lembrada, para ser vista como mais que apenas uma mulher para cuidar de um lar que ela sequer tem de verdade. Vista como inferior por seus colegas de trabalho, Sciona se vê atada a um faxineiro, um Kwen; povo oriundo das terras dos Flagelos.

Lado a lado, constroem uma base de respeito, ensinos e confiança quando Sciona tem um tempo limitado para atingir as metas impostas para as melhorias da cidade onde vivem. Um tempo ainda mais limitado quando ela nota que a melhor companhia que poderiam lhe designar é Thomil, o Kwen sem lar que a ouve e vê como nenhum homem na vida fora capaz de fazer.
“Sciona tinha passado todos esses anos lamentando a maneira como os homens pisavam nas mulheres para chegar aonde queriam. Ao se recusar a ser um degrau, ela tinha se transformado em uma bota.”
Envoltos em mentiras, segredos e um clima entre o cinza de uma cidade industrial, a pobreza dos refugiados e a magia quase sedutora demais nos corredores da Universidade de Magia e Indústria, Sciona e Thomil percebem que, talvez a união forjada por uma tentativa de vergonha e humilhação, tenha sido o maior erro daqueles que os subestimaram. Afinal, quando duas realidades se chocam, aquilo que se mantém às sombras finalmente toma forma como verdade, e no mundo do conhecimento, saber é poder.
“Essa é a diferença em nossa moralidade. Os Caldoneus e a maioria dos povos além da barreira avaliam uma pessoa por suas ações e pelo efeito que elas têm no mundo. Não basta ter a intenção de fazer o bem; se você não fizer o bem de fato.”
Mesclando uma vibe dark academia, esse livro é a recomendação certeira para aqueles que buscam uma boa fantasia em volume único, onde o foco seja realmente o sistema de magia, revolução, aquele misticismo atrelado à religião, e claro, personagens que cativam; seja por sua postura invejável perante as diretrizes que os moldam, ou justamente por ignorar as normas e lutarem com unhas e dentes para serem aquilo que se destinam a ser. Trazendo debates interessantes sobre religião, o foco e a cegueira que cada uma prega, cegando ou trazendo clareza àqueles que a seguem.
“Se você consegue mentir para si mesma dizendo que é uma boa pessoa, apesar de todas as evidências contrárias, então de repente isso se torna verdade? Então, dentro desse sistema, qualquer um com autoilusão suficiente pode admitir sua entrada no céu.”
Com suas discussões políticas, sociais e religiosas, ouso dizer que essa fantasia de volume único figura meu top queridinhos desse ano; trazendo para nós, leitores, tudo aquilo que mais gostamos em uma boa fantasia, em uma boa história. Um viés que o torne crível, algo real em meio à poderes mágicos, discussões pertinentes que conseguem permanecer com o leitor mesmo depois que ele fecha o livro e o devolve para a estante. Sem dúvidas uma indicação mais que forte para você que já adora esse tipo de gênero, mas também uma indicação para quem deseja se aventurar nessas águas mágicas sem se lançar num mergulho de cabeça em águas profundas.
E você… seria uma pessoa boa por suas crenças ou deixaria um legado ao mundo através de suas ações?

- Blood Over Bright Haven
- Autor: M. L. Wang
- Tradução: Jacqueline Damásio Valpassos
- Ano: 2026
- Editora: Jangada
- Páginas: 456
- Amazon


