Trilogia Os Lobos Dourados, por Roshani Chokshi

07 ago, 2026 Por Mariana Iazzetti

A trilogia Os Lobos Dourados existe em algum lugar da mistura de Six of Crows (Leigh Bardugo) com Babel (R.F. Kuang), só que muito mais existencialista. Confuso? Bom, a história também é. Pelo menos um pouco.

O primeiro livro, que leva o nome da série, nos apresenta um grupo de ladrões de itens mágicos raríssimos e carregados de história. Em plena Béle Epóque, no coração de Paris, Séverin e seu bando têm como principal objetivo desestabilizar a todo-poderosa Ordem de Babel, que domina a arte da Forja – magia que, junto da tecnologia, basicamente sustenta o mundo moderno, mas às custas de inúmeras culturas e povos. Às portas da “aquisição” mais importante que já fizeram, Séverin, Tristan, Laila, Enrique e Zofia terão seu passado e seus sonhos postos à prova, quando se veem envolvidos em uma conspiração que poderia acabar com tudo que conhecem.

A série encontra seu charme nas ambientações que transitam entre o real e o etéreo, entre a História factual e um universo mágico tão encantador quanto assustador. E, no entanto, a bela escrita de Roshani Chokshi não se empresta tão bem ao português quanto poderia. Tendo lido somente a tradução, fiquei infelizmente desejando conhecer o texto original – era possível ver que havia uma intenção poética, mas que não foi completamente transmitida na escolha de palavras no novo idioma.

Inclusive, não consegui determinar se era somente a questão da tradução, ou se o livro simplesmente era muito confuso nas cenas de ação. O sistema de magia proposto é profundamente abstrato, e mesmo que trouxesse um toque de maravilhoso ao mundo construído, na hora dos conflitos para mim ele recaiu no terreno do ininteligível. Eu simplesmente não conseguia visualizar o que estava sendo descrito nas páginas.

Por outro lado, o que de longe me manteve mais envolvida na trilogia foram os personagens secundários. Enrique e Zofia carregaram a história praticamente sozinhos para mim, fosse individualmente ou juntos, e, em meio aos múltiplos pontos de vista, se tornaram o motivo de eu continuar avançando.

Isso porque o romance entre Séverin e Laila falhou para mim a partir do segundo livro. A mudança drástica de papéis dos dois no segundo e terceiro volumes me distanciou muito da história, e o desenvolvimento “sombrio” de Séverin por pouco não me fez desistir. Ambos se tornam repetitivos e entediantes, e a dinâmica divertida entre todos os personagens presente no primeiro livro desaparece completamente depois da reviravolta ao final.

Assim, fico triste em dizer que eu preferiria infinitamente que Os Lobos Dourados se fechasse em si. Os outros livros, embora com seus pontos altos que já mencionei, se arrastaram demais. Mesmo assim não deixaria de recomendar a leitura. A crítica ao colonialismo e ao imperialismo, junto dos cenários e dos mistérios têm seu peso e conseguem manter a trama intrigante o bastante. Só acabou passando longe de ser uma série favorita, mesmo com o primeiro livro prometendo muito.

  • The Gilded Wolves
  • Autor: Roshani Chokshi
  • Tradução: Marcia Blasques
  • Ano: 2023
  • Editora: Astral Cultural
  • Páginas: 440
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