Após o lançamento do seu primeiro mangá e da primeira graphic novel pelo selo Darkside Graphic Novel, a Darkside Books conta com Wytches para integrar o time como a primeira HQ da editora.

A primeira coisa que você precisa fazer antes de ler Wytches é esquecer completamente tudo que sabe sobre bruxas. Aqui elas são criaturas muito mais vis e de aparência ainda mais horripilante das que já conhecemos. Elas também não conhecem benevolência e poucos sobreviveram para confirmar a veracidade de sua existência. Talvez seja por este motivo que a definição de bruxa, existente logo na primeira página da HQ, esteja rasurada. Agora você vai conhecer como realmente é uma bruxa.
Família Rook é nova em Lichfield. Eles tentam recomeçar do zero após um episódio bastante traumatizante na vida de Sailor Rook, filha do casal Rook. Só que eles não imaginam que a floresta que cerca sua nova cidade é moradia para algo realmente terrível, algo que está sempre à espreita, prestes a dar o bote na oportunidade certa. Há anos a cidade de Lichfield é cenário para histórias antigas, que envolvem o desconhecido. Algo capaz de proporcionar dadivas e destruição, mas para isso há sempre um preço a pagar. É enfrentando este perigo que Sailor e seu pai Charlie acabam descobrindo a verdade obscura que envolve sua família e no passado que os assombra.

Jura é jura

Foi a primeira vez que li uma HQ de terror e só depois de finalizar a leitura percebi o quanto é difícil criar histórias assim sem todos os recursos que normalmente encontramos em demasia no cinema. Sem jumpscares e sem uma trilha sonora certa, tomando a frente sempre nos momentos de maior tensão, livros e quadrinhos parecem em desvantagem quando o assunto é assustar. Imagine minha satisfação ao me dar conta que Wytches conseguiu causar espanto e pavor como nenhum outro livro antes fizera.

É incrível o quanto Wytches conversa entre si para contar uma história tão incrível e chocante aos olhos de qualquer um. O roteiro de Scott Snyder (Vampiro Americano) ganha a arte de Jock (The Losers), que por sua vez recebe mais vida através das cores de Matt Hollingsworth. Clem Robins arremata tudo com a edição das letras, que contribui igualmente para toda a atmosfera da HQ. Dentre toda esta combinação, o que realmente me chama a atenção e vidra estes olhinhos de leitora são as paletas utilizadas.

A verdade não é jogada logo de cara para o leitor, demora para que conheçamos as bruxas desta história e assim, percorrendo o presente e o passado, vamos tecendo a verdade desses personagens até atingirmos o ápice da história e de toda sua revelação. A ferramenta de cor contribui e muito para que a imaginação do leitor ganhe asas. Eu não sou nenhuma especialista em quadrinhos, mas conforme o próprio Scott, a edição ganhou borrões feito a mão em aquarela e tinta acrílica, quando combinado com o Photoshop, a arte ganha outras camadas de cores sobrepostas, o que resulta numa arte final incrível.

Ao fim de Wytches também é possível conferir, como foi o processo criativo de Scott e de onde surgiu a ideia de escrever esta história. Neste texto ele compartilha fotos da floresta que o inspirou e como ele e seu amigo de infância enfrentaram seus primeiros medos, jurando terem visto um certo ser misterioso e aterrorizante entre aquelas árvores. Dentre estes materiais extras, que podem ser encontramos ao final desta edição, concepts das primeiras imagens das bruxas também vão aparecer, juntamente com o material de divulgação utilizada na época do seu lançamento.

Eu gostei muito desta nova perspectiva em relação as bruxas. Em Wytches estes seres abusam do pior do ser humano e utilizam disso ao seu bel prazer, aliás, para se alimentarem como querem. Apesar de serem criaturas famintas, que se alimentam da fraqueza e do egoísmo humano é interessante o contraponto que encontramos aqui. As bruxas atuam conforme quem as procuram, conforme a jura feita, e quem é jurado deve morrer. Gosto também da ambiguidade de todos os personagens, todos demonstram suas facetas e todos cortejam o bem e o mal, este último principalmente quando desejam muito alguma coisa. Pontos para as ótimas críticas de Scott faz em relação a natureza humana.

Wytches é uma bela HQ, que transmite medo e choca com todas as reviravoltas que podemos encontrar. Finalmente temos a oportunidade de conhecer uma boa história sobre bruxas, daquelas que realmente causarão um certo receio sempre que passarmos por uma floresta ou bosque. É uma ótima oportunidade para quando nos permitirmos se aventurar pelo gênero, encarar o medo e apreciar cada traço desta história.

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