Menos de um mês após ser lançado nos Estados Unidos, estamos finalmente recebendo Belas Adormecidas, a nova novela de King e seu filho mais novo. Stephen King é o mestre do terror e continuará sendo por muitos anos, todos também conhecemos a capacidade do seu filho Joe Hill para a literatura e na sucessão do seu pai no gênero, mas em Belas Adormecidas somos apresentados a Owen King, que já lançou outros livros, mas nada tão expressivo como este que faz junto com seu pai. Nenhuma outra publicação fora traduzida para o português ainda e eu mesmo nem tinha conhecimento de que outro filho de King era escritor, saber deste lançamento, sem dúvidas, foi uma surpresa.
Belas Adormecidas falará sobre a Epidemia Aurora, uma doença inexplicável que faz mulheres adormecerem para sempre dentro de casulos. Os primeiros capítulos serão narrados intercalando o passado e o presente, ora entre as detentas do sistema prisional feminino de Dooling conversando, ora entre as cenas de um assassinato praticado por Evie Black.Na prisão, Evie se mostra uma detenta especial, ela consegue dormir e acordar, sem ser presa pelo sono profundo que faz as outras mulheres do mundo usarem todos os tipos de substância, legal ou proibida, para que não fechem os olhos eternamente.

Clinton Norcross, psiquiatra da cadeia, é chamado pelo chefe da prisão para analisar o caso de Evie e descobrir se ela pode ou não, ser uma das principais chaves desta trama. Enquanto isso as pessoas estão completamente foras de si e o caos fora instalado, mulheres usando drogas para não adormecerem e homens apavorados vendo suas esposas, filhas e mães sendo tomadas por uma membrana desconhecida, sem a menor ideia de se um dia poderão toca-las novamente.

Com o desespero vários boatos surgem, dentre eles, algumas pessoas acreditam que caso queimem as mulheres adormecidas o vírus não seria propagado para as demais e assim começam a assassinar mulheres e diversos incêndios começam a acontecer pelo mundo. O conflito entre aqueles que desejam proteger suas mulheres contra a Brigada do Maçarico está quase iniciando uma guerra.

Além de lidar com a detenta que possui superpoderes, usando-os para ameaçar pessoas ou controlar a mente daqueles que estão acordados, Norcross precisa mediar o conflito da população enfurecida, que tenta descobrir o que existe de tão importante dentro da cadeia da pequena cidade de West Virginia.O que essas mulheres sentem enquanto dormem? Estariam elas adormecidas para sempre? Elas morreram? Será que um dia elas irão acordar novamente? O que é preciso fazer para que isso aconteça? O que provoca o sono delas? O que fez com que as mulheres de todo o mundo adormecessem eternamente? Queimar essas mulheres realmente resolverá o problema? Essas são as perguntas que ditam o ritmo do livro e por onde caminha o mistério existente nele.

Belas Adormecidas é um livro grande, com mais de 700 páginas e logo nas primeiras, antes de ingressar no prólogo, os autores incluem algumas páginas dizendo quem serão os mais de 30 personagens da obra. A primeira metade trata da introdução da problemática do livro e de como cada personagem será inserido nela, o que deixa a narrativa bem arrastada no seu começo, o que provoca o maior problema da obra na minha opinião. Em diversas partes em que a história está em um ponto alto, ela é esfriada por uma troca de capítulo e o início da história de um outro personagem, porém, após a metade, o livro entra em uma parte mais fluída e com cenas mais objetivas.É interessante o quanto o enredo não esconde nada em nenhum momento, King e Owen não se preocupam em criar um assassino misterioso ou uma cena com algo obscuro, tudo é muito transparente e o mistério gira exclusivamente em torno da doença, que é o problema central do livro. Saber como ela será resolvida e o que ocorrerá em cada uma das relações interpessoais é o enredo de Belas Adormecidas, o que eu acho sensacional. Dois escritores que não precisam criar alguma morte, mistério ou utilizar de um clichê literário para prender seu leitor é realmente genial.

O livro tem diversos assassinatos e partes de alta tensão, mas não é como aqueles livros extremamente sangrentos que King faz. Ele está perto de obras como Insônia e Sob a Redoma, inclusive com easter eggs desses inseridos nessa nova obra. Quem gosta desses dois livros sem dúvida vai adorar Belas Adormecidas. Para o meu gosto literário, que prefiro uma pegada diferente, achei que faltou algo a mais.Acredito que poderia ter mais sangue, mais mistério, mais terror, mas como disse, isto é algo do meu gosto. Acho que a estrutura criada para ele foi muito interessante, mas monótona e acabou prejudicando muito o andamento da leitura, os autores poderiam ter sido mais diretos e economizado umas belas 200 páginas.

Ao mesmo tempo, entendo que a principal ideia era inserir o leitor nesse mundo de doenças estranhas e lutas entre sexos, e que para tudo ser bem explicado eram necessárias todas essas introduções e quebras de ritmo que o livro possuí. Por este lado, é inegável que King é o melhor em criar novos mundos, pessoas e epidemias, tornando-as completamente plausíveis. Ele, em parceria com o filho, não deixa nenhuma falha naquilo que se propõe, revela muito bem o problema e a solução do enredo, como por exemplo as últimas páginas do livro, que são dedicadas a uma explicação de o que aconteceu com cada um dos personagens e como eles ficaram após o final.
Temas atuais também são abordados no livro, tornando-o bastante propicio em alguns aspectos. Um exemplo disso é o feminismo, o que torna a obra dos Kings uma bela crítica social contra a sociedade machista. Na história as mulheres são o único alvo da doença e em certo momento passam a ser alvo dos homens diretamente. Evie tem uma fala muito boa onde comenta isso, ela diz: os homens nos mataram durante a vida toda, agora eles pelo menos têm um porquê para fazer isso. Em outra parte, Evie fala para Norcross algo muito verdadeiro e que pouco pensamos, ela diz que se fossem os homens os adormecidos, as mulheres poderiam usar sêmen de bancos para engravidarem e dar continuidade à humanidade, mas os homens não poderiam fazer nada, o mundo apenas acabaria. Evie que faz o papel de militante do assunto, mas não fica claro o que a sociedade de Dooling e o mundo, pensam sobre o ataque contra mulheres.
Belas Adormecidas não correspondeu totalmente as minhas expectativas de um belo livro de terror, em contrapartida, é uma ótima trama de ficção, inclusive faz muito bem o papel de distopia. É um subgênero do horror que mexe com nossos medos e com as inseguranças de um futuro incerto. Sempre vale a pena ler livros que levem o nome de Stephen King e esse não é diferente, mas se serve como dica, ajustem suas esperanças. Vários livros de King já tiveram adaptações tanto para televisão como para o cinema e a impressão que eu fiquei deste livro foi que daria um magnifico seriado de TV e para a minha surpresa, será. A Anonymous Content já adquiriu os direitos para a adaptação antes mesmo do lançamento do livro, o que é ótimo, pois o enredo tem informações demais para serem resumidas em apenas 2 horas, como normalmente se faz em um filme, nós como fãs ganharíamos demais com essa produção.
Como eu li o livro em inglês, pelo Kindle, para aproveitar o lançamento americano e tê-lo antes, não consigo fazer a comparação de tradução com a edição brasileira ainda não lançada, nem falar sobre como ficou a edição e capa do livro, o que posso dizer é que dessa vez o nome ficou bastante coerente. Você poderá conferir melhor as minhas impressões sobre a leitura através deste vídeo. O livro chegou a nossas livrarias no dia 16 de outubro, para abrilhantar ainda mais o mês do terror.


Título Original: Sleeping Beauties
Autores: Stephen King, Owen King
Ano: 2017
Editora: Suma
Páginas: 728
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