Quando voltamos os olhos para o início da trajetória dos super-heróis pertencentes ao universo Marvel, no contexto das grandes produções cinematográficas que tanto amamos acompanhar, seria possível ressaltar que seus primeiros passos foram cautelosos, sempre direcionados aos personagens de maior popularidade ou, possivelmente, considerados investimentos seguros para garantir o sucesso de seus filmes. Diversas adaptações foram produzidas e uma quantidade considerável de filmes foi consumida pelos apaixonados por super-heróis, contudo, o que recebíamos eram personagens masculinos, brancos, que na grande maioria dos casos trabalhavam sozinhos para salvar o mundo, o dia, a vizinhança ou o destino da humanidade.
Foi somente em 2018 que a Marvel Studios arriscou uma quebra no padrão, no modelo que vinha sendo produzido e reproduzido ao longo de sua jornada de sucesso. A mudança não se delineou apenas no tom de pele de seu personagem principal, na ambientação de sua história, na forma como enxergamos um país comumente delimitado por palavras preconceituosas e degradantes, mas se estendeu para a própria dinâmica do personagem principal, este, não sendo mais o único responsável por salvar o dia, o mundo ou o destino da humanidade, mas um líder capaz de trabalhar em grupo, de ouvir conselhos e admitir que as falhas que possuí podem ser sanadas por aqueles que estão verdadeiramente dispostos a enfrentar cada batalha ao seu lado.
É por meio destes direcionamentos que Pantera Negra se constrói. É em meio a estes princípios que o filme se fundamenta e, não é à toa que as mudanças, sendo estas drásticas ou singelas, conquistaram o imaginário e coração dos apaixonados por super-heróis transformando-o num dos filmes mais comentados do ano de 2018.

Embora a clássica jornada do herói direcione grande parte dos eventos deste filme – uma vez que se trata da introdução de um novo personagem ao universo Marvel, bem como da tentativa bem-sucedida de validar sua contextualização e princípios – o filme também será responsável por interligar eventos pertencentes a outros filmes do universo Marvel, dando continuidade, portanto, a trama maior que se desenvolve em paralelo a todos os filmes lançados. Todavia, os maiores trunfos de Pantera Negra encontram-se em detalhes, em escolhas conscientes de produtores, diretores e todos os responsáveis pela criação do filme de lançar uma nova visão acerca do continente africano, visão repleta de cores, carinho, tradições, cultura e críticas para com elementos de sua história e a forma como, ao longo de tantos anos, aqueles cuja cor da pele se destacava pela tonalidade escura eram segregados, torturados e tratados com desprezo.
T’Challa, nosso personagem principal, apresenta-se incumbido de assumir o trono de Wakanda, os desafios e responsabilidades de governar de maneira justa uma comunidade próspera e  enfrentar o surgimento de um novo candidato ao trono, este, por sua vez, carregado de mágoas e traumas do passado. Da mesma forma, T’Challa percebe a importância de interligar sua comunidade aos eventos e desafios que permeiam a realidade mundial, reflete sobre quais as melhores estratégias para abrir as portas de seu reino, de mostrar-se ao mundo e, na mesma medida em que auxilia a comunidade humana global, pode vir a ser auxiliado por ela. A narrativa não é absurdamente complexa, não trabalha com mensagens intrincadas e reflexões difíceis de serem assimiladas pelo espectador, ela explora a contexto e desafios de um príncipe ao assumir o trono; ressalta a insegurança e coragem de um indivíduo percebendo-se herói; caracteriza um personagem baseado em histórias em quadrinhos que possuí muito mais para mostrar do que uma mera jornada do herói. Assim como seus precedentes, este filme segue o ritmo dos filmes de super-heróis, constrói-se de forma semelhante, avança pelas etapas características da jornada do herói sem grandes inovações, baliza-se em cenas de ação e confronto da mesma maneira com que seus irmãos e irmãs, contudo, são os detalhes que o tornam especial.

Ao realizar tomadas belíssimas do continente africano este filme demonstra a riqueza inegável da natureza, por muito explorada e sacrificada do território. Ao edificar um reino próspero e destacar os detalhes curiosos, instigantes e diversificados de suas construções, este filme demonstra o orgulho de um povo e uma cultura tão profundamente consumida e torturada pelo imperialismo europeu. Ao empregar elementos característicos da cultura africana, seja em seus figurinos, ambientação, cenário, trilha sonora ou adereços, este filme demonstra ao mundo um novo olhar, um olhar orgulhoso de pertencer à cultura africana, crítico por reconhecer os pontos sombrios e duros de sua trajetória, mas, acima de tudo, pronto para posicionar-se em favor de si mesmo e ressaltar seu valor.
Quando pensamos nos aspectos que tornam Pantera Negra tão especial é importante destacar, ainda, as críticas e comentários sociais, históricos e culturais efetivados em diversos momentos ao longo de todo o filme. Embora a cena de maior repercussão em meio as análises e críticas redigidas por fãs e comentaristas de cinema interligue-se ao triste (possível) fim daquele que muitos viriam a classificar como o vilão do longa. Cena onde observamos reverberações acerca de um dos pontos mais tristes da história do povo africano e, com apenas uma frase – “jogue-me no oceano com meus antepassados que pularam dos navios, porque sabiam que a morte era melhor do que a escravidão” – lança-nos por reflexões e debates importantíssimos para a construção de sociedades melhores. É inegável o cunho crítico, delineado por meio de situações, comentários ou contextos que poderíamos classificar como sutis, que permeiam cada aspecto do filme.
Pensando em tudo o que foi dito até o momento e, refletindo sobre a indicação de Pantera Negra para o Oscar de Melhor Filme, percebemos um lento alinhamento da Academia com filmes comerciais, mas também um esforço maior no sentido de diversificar suas escolhas e inserir algo pertencente aos mais diversos públicos. Trata-se de diversidade sim, mas também de transformar a premiação em algo muito mais atrativo para o grande público, mostrando que a Academia também pode apreciar outros formatos, bem como outros públicos podem apreciar sua importante premiação. Contudo, Pantera Negra trata-se sim de um filme de super-heróis. Ele segue a mesma linha, atinge o grande público e se aproveita das mesmas estratégias que tantos filmes comerciais utilizam, portanto, a menos que a Academia esteja realmente disposta a surpreender este ano, não vejo o filme levando o prêmio de Melhor Filme.
Uma vez que o Oscar valoriza tanto a arte impecável por trás da construção de narrativas visuais, os aspectos técnicos por trás da elaboração de uma cena, figurino ou atuação, mas também os elementos que transformam e elevam a experiência de assistir um longa-metragem em algo único e expressivo, é maravilhoso e ao mesmo tempo intrigante que a Academia tenha selecionado Pantera Negra para a categoria de Melhor Filme. No fim, só nos resta esperar para ver quais surpresas nos aguardam no Oscar deste ano.

Black Panther

Lançamento: 15 de fevereiro de 2018
Com: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira
Gênero: Ação; Aventura; Fantasia
Direção: Ryan Coogler

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