É muito difícil e complicado para mim destrinchar e analisar todos os detalhes presentes em um musical. Na maior parte do tempo eu não sou uma pessoa de musicais, não sou fanática, mas confesso que tenho um certo carinho estranho pelo gênero.  Assisti poucos durante minha vida e gostei de uma parcela extremamente reduzida desse pouco. Eu não sei dizer o que isso revela sobre mim, mas até hoje, meus musicais preferidos são Mamma Mia! e Sweeney Todd. Para aqueles que devem estar se perguntando, sim, eu já assisti Os Miseráveis, mas por incrível que pareça, apesar das maravilhosas atuações, de meu amor pela música “Do You Hear The People Sing” e da minha afeição pela história, eu não gostei do musical. Porém, um certo filme surgiu para entrar na minha lista de favoritos, e, apesar de possuir alguns pontos fracos, eu devo dizer que é um filme que vale a pena ser visto.

Caminhos da Floresta foi mais uma jogada arriscada da nossa querida máquina de dinheiro Disney. O musical em si é uma adaptação cinematográfica de um musical da Broadway. A trama é razoavelmente simples, mas por trás de toda sua simplicidade residem questões complexas e extremamente interessantes, ela foi capaz de unir de maneira brilhante e original diversos contos criados pelos Irmãos Grimm, como João e o Pé de Feijão; Chapeuzinho Vermelho; Rapunzel e Cinderela, porém o que torna o filme belíssimo ou um tremendo desastre, são diversos aspectos relacionados, desde a atuação do elenco escolhido, até a forma como a adaptação foi produzida.
Tudo se inicia em uma pequena vila de um próspero reino… bem, esse detalhe não fica explícito durante o filme, mas, se tratando de uma história onde os contos de fadas se unem para formar um novo conto de fadas, acredito que não estou cometendo nenhum delito ao acreditar que o reino era próspero, rsrsrs. Durante um dia comum, em uma manhã ensolarada, diversos personagens (criados pelos Grimm ou pelos próprios criadores do musical) fazem desejos. Um destes desejos vêm de um Padeiro (James Corden) e sua mulher (Emily Blunt), que sonham em ter um filho. Em meio a cantoria e apresentação dos principais personagens da nossa trama, surge a bela, encantada e maravilhosa Meryl Streep, em seu papel de bruxa. A bruxa aparece para o Padeiro e sua mulher e propõem uma troca, caso os dois conseguissem todos os ingredientes para uma poção que quebraria sua maldição, ela daria um filho ao Padeiro e sua mulher.
É na busca pelos ingredientes para a poção, e na ligação que a floresta tem com todos os personagens da história, que reside a graça do musical. Nesse novo conto de fadas tudo está intimamente conectado, as histórias de cada personagem se cruzam com a trama principal vivida pelo Padeiro, sua mulher e a bruxa, as atitudes de um personagem, ou as escolhas do Padeiro e sua mulher, indicam o rumo que a história irá seguir, e indicam também como a história dos demais personagens irá se desenrolar.Todos se encontram na floresta, todos buscam algo na floresta e ela, até certo ponto, atende seus pedidos, mas também faz com que reflitam, faz com que entendam mais de si mesmos e dos outros. Quando João (Daniel Huttlestone) precisa vender a sua vaca, é o Padeiro que possuí os feijões mágicos que servirão de troca pela vaca que não dá leite. Quando Cinderela (Anna Kendrick) foge do palácio e “acidentalmente” perde um de seus sapatinhos, é a mulher do padeiro que a convence a lhe entregar o outro sapato. E assim, cada personagem têm suas vidas tocadas pelo casal principal dessa história.

Existem ainda dois elementos que me fizeram amar esse filme, além da forma como a história é contada. Um deles, as músicas cantadas ao longo do filme. Sei que muitos não se encantaram por certas músicas, e sei também que muitos sentiram pavor de que a música Into The Woods é, no mínimo, comprida demais, porém eu, como a não expert em musicais que sou, me encantei com todas as músicas. Essas músicas possuem muito mais do que uma simples ligação com a história, guardam muito mais do que os diálogos do filme, são elas que guardam e nos mostram o grande trunfo do musical.

Também me surpreendi com o talento da bela Emily Blunt e me apaixonei ainda mais pela Meryl Streep, que não é uma bruxa simplesmente má, bem como não é totalmente boa, mas sim humana como qualquer um de nós, que comete erros, faz escolhas erradas, mas que, dentro da história, possuí algumas mensagens muito importantes para passar. Também me encantei com o talento e a atuação de Lilla Crawford e Daniel Huttlestone, as duas crianças do filme. Esses dois mereciam mais destaque, são pequenos prodígios não apenas no quesito musical, mas no quesito atuação.

O último ponto positivo que gostaria de destacar está ligado as mensagens que o musical quer nos passar, está ligado ao que sustenta o musical, e que, pelo que pude perceber, poucas pessoas foram capazes de compreender. Toda a história do filme está baseada na humanidade dos personagens, em suas escolhas, nas consequências de suas escolhas. A história foi inspirada pelos contos de fadas, sim, com toda a certeza, mas o que prevalece aqui são personagens humanos, que erram, que fazem escolhas erradas, que buscam consertar seus erros, ou que simplesmente voltam a agir de maneira errada de novo e de novo.

A complexidade da história está ligada com as questões éticas que os criadores quiseram nos passar, está ligada as metáforas, aos simbolismos, a tudo que está por trás daquilo que podemos ver e observar. Aqui a floresta simboliza o desconhecido, significa o mundo que temos de encarar todos os dias, cheio de possibilidades, mas também cheio de perigos. Aqui nem tudo é preto no branco, assim como no mundo em que vivemos, podemos encontrar felicidade, amor e alegria no mundo vasto e desconhecido que está a nossa volta, mas também podemos encontrar tristeza, solidão e morte. O mais importante nesse musical não é, necessariamente, as músicas, os figurinos e os personagens em si, mas o que cada um quer nos mostrar, quais são as mensagens que estão sendo apresentadas.

Mesmo com todos os pontos positivos, e com as maravilhosas mensagens da história, o musical peca no quesito direção e produção. Uma das coisas que prejudicaram o filme (pelo menos, de acordo com o meu ponto de vista), foi o tempo e a falta de planejamento, ou talvez tenha sido o planejamento equivocado do tempo que estaria disponível para o filme. Infelizmente, diversas cenas e acontecimentos passaram rápido demais, se apresentaram demasiadamente enxugados, e isso prejudica, ou melhor, prejudicou o entendimento do telespectador, em muitos casos, esses detalhes impedem que a pessoa compreenda o que está sendo passado, entenda o que está nas entrelinhas.

Outra coisa que me frustrou foi o fato de que, em determinados momentos, possuímos cenas belíssimas, muito bem montadas, com a paisagem se integrando perfeitamente à atuação dos personagens e tudo formando algo de encher os olhos, porém, em outros casos, nós temos cenas simplórias, que não fazem justiça aquela beleza que observamos em determinadas partes do filme. O que senti foi uma certa onda de altos e baixos, quando, o filme poderia conter apenas altos.

Por fim, faço um pedido sincero, peço que assistam ao filme, peço que prestem atenção nas músicas, não a melodia, mas nas mensagens que elas tentam nos passar, peço que entendam esse musical como algo muito maior do que um simples conto de fadas, ele não se trata disso. Caminhos da Floresta tenta nos mostrar, tenta nos chamar a atenção para os ritos de passagem. É um filme cheio de mensagens importantes, que se aproveita dos contos de fada para nos ensinar algo, da forma como todo conto de fadas deve fazer!

  • Into The Woods
  • Lançamento: 2015
  • Com: Meryl Streep; James Corden; Emily Blunt; Anna Kendrick
  • Gênero: Musical
  • Direção: Rob Marshall

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