A primeira vez que ouvi falar em Donnie Darko foi quando já estava na faculdade. Se ouvisse o nome, caso descobrisse o filme antes dessa época, tenho certeza (se é que se pode ter certeza de algo nesse mundo) de que minha experiência, e toda a aura que o filme criou em minha mente, seriam totalmente diferentes, ou, no pior dos cenários, nunca me interessasse pelo filme. Seu título surgiu como um mistério. E muitos dizem que Donnie Darko não passa de um enorme mistério que deve ser desvendado aos poucos, assim a cada vez descobre-se ou percebe-se algo novo ao  assistir ao filme.
Por anos e anos Donnie Darko retornava como uma incógnita. A história se repetiu até chegar o momento em que, após tanto ouvir, tanto desvendar teorias e ler comentários espalhados por todos os cantos, após tanto pensar nesse filme passei a acreditar que já o tinha visto, passei a acreditar que seus segredos haviam sido desvendados. Mas como estava enganada. Recentemente decidi assistir o tão comentado, discutido, teorizado e cultuado filme, mas imaginem minha surpresa ao descobrir que não, eu ainda não havia assistido ao filme, apesar de acreditar que sim. E não, eu não sabia de nada do que achava que sabia sobre o filme, mesmo sabendo de muito e não ter me surpreendido com muitas coisas. Mas Donnie Darko é assim mesmo, é misterioso, confuso, exige atenção e cuidado, e ainda assim pode deixar perguntas sem respostas e uma mente certa de que pode estar totalmente errada.

Não existe fórmula correta, um ponto na história em que poderia me apoiar para explicar, ou pelo menos tentar explicar o filme para alguém que ainda não teve a oportunidade de assisti-lo. Não existe um ponto inicial na história, pelo menos não no sentido de que todos aqueles que já conferiram o filme irão começar pelo mesmo ponto, pelos mesmos detalhes. Minha visão da obra pode não vir a ser a mesma que a sua, minhas percepções, a forma como a história se materializou e os elementos que se destacaram diante de meus olhos podem não ser os mesmo que se destacaram para você. Porém, decidi enfrentar a confusa e árdua tarefa de trazer o filme para vocês.
Donnie (Jake Gyllenhaal) é um adolescente problemático. Donnie não possuí muitos amigos, pode contar nos dedos de uma mão aqueles a quem chama de amigos. O menino Donnie possui, e essa é minha visão dos fatos, uma relação normal de adolescente com seus pais. Ele possui momentos de atrito e momentos de isolamento, momentos em que as coisas vão bem e momentos em que as coisas vão de mal a pior, mas a diferença é que o personagem possuí algo a mais nessa equação. Devido a seus sérios problemas psicológicos o personagem precisa de terapia, toma remédios, porém nada parece trazer sua melhora.

Nosso primeiro contato será em uma estrada distante da cidade, lá o personagem dormia próximo a sua bicicleta. Sonambulismo ou não, logo de início percebemos que estamos diante de um caso mais complexo do que o simples adolescente problemático. E é justamente no começo de tudo que a graça aparece. Donnie consegue ver, ouvir e conversar com um coelho que ninguém mais pode enxergar. Frank (James Duval), seu aparente novo “amigo” o alerta para o fim do mundo, mostra elementos que este passa então a buscar entender. Mas até onde um garoto com problemas psicológicos pode acreditar que o que vê é verdade ou alucinação?

Foi justamente esse o elemento que mais chamou minha atenção. Porém existe muito mais no filme do que alucinações, amigos imaginários e problemas psicológicos. Os mistérios, a desinformação, a necessidade de atenção existe ao longo de todo o filme. A confusão e as respostas estão presentes em um avião que cai, até chegar ao manuscrito de uma professora que enlouqueceu em suas próprias teorias.
Existem momentos em que o filme irá brincar com a necessidade de voltar ao passado, de se mudar algo que já aconteceu. Durante outros momentos ele brinca com o destino, indo desde seu conceito e materialização até o ponto em que somos realmente capazes de alterar nosso próprio destino. Porém existem situações específicas que abordam assuntos como a necessidade de pensarmos por nós mesmos, de interpretarmos nosso mundo e não deixar-se alienar por ideias criadas com o intuito de vender ou omitir algo. Existem tantos elementos dentro deste único filme que, nem sei se fui capaz de observar e compreender cada um da forma como deveria, além disso, caso fosse destrinchar esse filme como ele poderia, talvez devesse, mas quem sabe nunca seja possível fazê-lo, ficaria aqui dias e dias discursando.

Mas então chegamos a única coisa que realmente me decepcionou ao longo do filme. Por mais que o que estou prestes a dizer pareça errado, confuso, estranho e desligado de qualquer sentido, o que não gostei neste filme foi, de maneira geral, o próprio filme. Mas deixem que me esclareça. A forma como a narrativa nos é apresentada, a forma como tudo se desenrola e se direciona para onde deve chegar me pareceu mais simples do que esperava de início. Mais uma vez, peço que deixem que me explique. A aura de Donnie Darko é a de que você deve assisti-lo várias e várias vezes, e mesmo assim pode não vir a entender e compreender completamente esse filme.

A aura criada, materializada, que se espalhou ao redor da obra é tamanha que muitos destacam que, quando comparada à versão do diretor, a versão “comercial” perde seu brilho. É possível que tenha assistido a versão “comercial” (afinal, qual vem a ser a versão da Netflix?), ainda sim, não achei um filme absurdamente, extremamente difícil de entender, não da forma como muitos destacam. Ele é confuso sim, possuí elemento em cima de elemento e detalhes, símbolos e significados em todos os lados, porém, o filme possuí mais aura do que confusão. Quando digo isso, digo através de minha experiência com o filme, lembrando que cada pessoa o enxerga de uma forma, e mais, em momento algum a obra se transformou em uma experiência ruim. Ela é o que é, e se mostra única e diferente para cada pessoa.
Donnie Darko ainda pode ser um mistério, porém a luz começou a brilhar sob sua superfície e passou a demonstrar seus detalhes, alguns de seus segredos, fazendo com que a mente de quem o assistiu, no caso dessa pessoa que escreve a resenha, pudesse criar teorias com relação ao que viu e ouviu ao longo de anos e anos. Donnie Darko não é um filme fácil de ser compreendido, mas também não é uma obra impossível de ser desvendada. Acredito que ele está no meio termo, tanto entre os filmes complexos, quanto para os espectadores confusos. Seus mistérios podem ser desvendados com o florescer de um novo amor, e também podem ser ocultados por uma máscara, mas acredito que a pergunta principal, e a dúvida que realmente não será respondida é: Porque mesmo usamos essas fantasias ridículas de humanos?

  • Donnie Darko
  • Lançamento: 2000
  • Com: Jake Gyllenhaal, Maggie Gyllenhaal, Mary McDonnell
  • Gênero: Ficção Científica, Thriller, Cult
  • Direção: Richard Kelly

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