Dentre tantos autores famosos, consagrados e destacados no mundo da literatura contemporânea – se é que tenho a permissão de classificar dessa forma – Stephen King sempre foi um entre aqueles que prometia um dia conhecer, mas que quando colocada à prova, nunca realmente me comprometi a concretizar a promessa.Quando, no meio do caos que foi o ano de 2016, uma nova oportunidade de conhecer a obra do autor surgiu, confesso que meus velhos hábitos não demoraram a aparecer. Foi preciso um empurrãozinho para que aquela leitora que não se surpreende facilmente decidisse, finalmente, descobrir o que existia de tão especial nas palavras pensadas por um autor que viu suas obras nas telas do cinema inúmeras vezes.

Como pode vir a acontecer com a maioria dos novos leitores, quando deparados com a obra de um autor consagrado, cujo trabalho é publicado, republicado e lançado novamente em edições ainda mais bonitas que as anteriores, confesso que fiquei aflita. Não queria ser aquela a atirar pedras na obra de um autor que possuí uma legião de fãs para revidar. Não queria ser a leitora chata que desgosta de um autor famoso, que iria se arrepender após ter arriscado a leitura. Apesar de todas as dúvidas, de surpresas e um pouco de amargura, venho compartilhar com vocês minha primeira leitura do famoso Stephen King.Cujo, apesar do que possam tentar te vender, trará uma história muito mais real, natural e até mesmo plausível, do que uma história com um pé no mundo sobrenatural. A trama se passa na cidade agradável de Castle Rock, localizada no estado do Maine, Estados Unidos. Considerando o aspecto adorável da cidade, você não imaginaria que aquela vizinhança, anos atrás, viu o horror transformado em pessoa.

Pessoa esta que morava em seus domínios, possuía nome, sobrenome e endereço fixo, e era capaz de matar pessoas da mesma forma com que você é capaz de ler essas palavras. Frank Dodd, por muito tempo foi o pesadelo da cidade, era invocado quando as crianças não obedeciam seus pais ou quando os jovens fugiam da linha, porém, através da passagem do tempo, a pequena cidade voltou a ser calma e agradável. Até o momento em que uma idosa peculiar sentisse o perigo que se escondia no horizonte.
Em uma casa distante do centro da cidade, encontramos a família Camber. Joe Camber, patriarca, mecânico e sujeito questionável, além da mulher e filho, possuí um enorme São-Bernardo. Cujo é dócil como um filhote, amigável como qualquer cão de família, porém têm um destino terrível a sua espera. Do outro lado da cidade, em uma casa de classe média alta, encontramos a família Trenton. Vic, Donna e Tad Trenton ainda se acostumam com a vida na cidade pequena quando seu caminho, lento e discretamente, os direciona para as garras de um querido são-bernardo.Embora seja difícil de acreditar, ao olhar despercebido de alguém que não é capaz de compreender os detalhes importantes que alinham a trama, pequenos eventos como a toca de um morcego infectado com raiva, um closet que dá arrepios em uma criança de quatro anos, um carro com defeito e a localização do único mecânico da cidade são capazes de gerar uma história que, mesmo fantasiosa, possui toques de realidade e é tão capaz de nos prender quanto uma boa história de fantasmas vingativos.

Apesar de ter sido escrito por um autor mundialmente conhecido por suas histórias de terror e suspense, venho aqui, com todo meu atrevimento, classificar a obra em questão como um drama! Apesar de sermos apresentados a uma contextualização curiosa, esta nada tem a ver ou a acrescentar na narrativa principal. Porém, é a partir daquilo que parece não possuir nexo, que a trama se abre para o que meu humilde olhar de leitora entende por um bom drama.
Mesmo quando, da metade do livro para o final, o suspense se instala, o livro ainda é capaz de inserir e contextualizar problemas reais, infelicidades, infidelidades, a incerteza do futuro, e tudo isso, ao meu ver, não classificam a obra como um suspense. O próprio desfecho me provou isso, pois mesmo sabendo que o fato poderia se concretizar, preferi acreditar que o autor não seria capaz de tanto.
Onde esperava por terror, sangue e sobrenatural, encontrei dramas familiares, a realidade inserida em uma trama habilmente interligada e a possibilidade do impossível acontecer. Se Stephen King me fosse vendido como um autor de várias facetas, diria que é exatamente isso que ele é. Porém, durante toda minha vida ele foi vendido como um ótimo escritor de terror, e aqui e agora, digo que embora enxergue essa habilidade, seu trunfo, ao menos nesta obra, está na capacidade de interligar elementos dispersos do cotidiano e formar uma trama absurdamente plausível, com probabilidades reais de acontecer.

Onde uma pequena decepção surgiu ao encontrar um verdadeiro drama, King se mostrou capaz, também, de descrever o necessário e deixar o resto para a mente do leitor. Mostrou que a luta pela sobrevivência, o amor de uma mãe por seu filho e os monstros do mundo real ainda são elementos fortes para se criar uma ótima história. 

Cujo se mostrou, no fim de sua triste e complicada história, um companheiro ardiloso capaz de fazer transparecer o talento diversificado do autor. Seja um drama com aspectos de suspense, ou um suspense com elementos de drama, o livro mostra onde a mente do autor é capaz de chegar para criar sua narrativa, demonstra sua criatividade encontrando inspiração nos mais diversos elementos e detalhes da vida cotidiana, demonstra que muitas vezes, monstros são reais e estão apenas esperando para serem descobertos! Após ter encontrado o que encontrei nesse livro, mal posso esperar para me encontrar novamente com a escrita e criatividade do autor, porém, desta vez, ciente das possibilidades e muito mais exigente.

  • Cujo
  • Autor: Stephen King
  • Tradução: Regiane Winarski
  • Ano: 2016
  • Editora: Suma
  • Páginas: 373
  • Amazon

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