O ano é 1967 e, embora o garoto alto e revoltado, que andava pelas ruas com diversas histórias borbulhando em sua mente ainda não tivesse se transformado no fenômeno mundial conhecido por Stephen King, em seu coração ele sabia que suas histórias mereciam se materializar em formato de livro, fossem elas assustadoras, aclamadas pela crítica ou repletas de elementos fantásticos.
Aos dezenove anos o garoto que ia contra a alta literatura e consumia todo o tipo de livros populares, se encantou com as aventuras e jornadas fantásticas criadas por Tolkien. Ele sabia que algum dia iria escrever sua própria aventura fantástica, esta, porém, em seus próprios termos, com sua marca pessoal e, com uma forte ligação com o mundo real. Assim nascia a semente do que hoje conhecemos pela série A Torre Negra.

Roland de Gilead, o último de toda uma legião de pistoleiros, encontra-se no meio do maior deserto que sua terra desolada já viu. O horizonte não esconde a falta de esperança que assombra o lugar, porém, sua força de vontade é maior. O personagem principal do primeiro capítulo da série A Torre Negra encontra-se em uma busca, uma perseguição cujo início e motivações sua memória já não é capaz de lembrar. Atravessando o deserto ele persegue, ou quem sabe seja conduzido, pelo misterioso Homem de Preto.

O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás.

O homem de preto surgiu pela primeira vez em algum ponto temporal de seu passado, desde então, seus caminhos se cruzaram, a linha da vida de um afetou a do outro e, por terras áridas, o pistoleiro que busca a mitológica Torre Negra, aguarda pacientemente pelo momento em que sua jornada cruze, pela última vez com a do homem de preto. Antes do embate final, porém, Roland encontrará vilarejos abandonados, homens que voltam a vida, garotos que vieram de um mundo distante, paralelo ao seu e, uma fogueira com respostas para os segredos do universo.
Apesar de tratar-se de um livro introdutório, O Pistoleiro destaca-se por atingir um patamar acima da mera apresentação da história ao leitor. A obra, de forma sutil e misteriosa, ressalta a busca de Roland pela Torre Negra, porém, implanta dúvidas sobre suas motivações, acerca da existência da mesma e porque,  caso seja real, parece ter sido esquecida por toda a população apresentada ao longo da narrativa. As dúvidas surgem a todo momento, o autor lança detalhes e memórias do passado de Roland sem fazer com que o leitor seja capaz de compreender sua conexão com a narrativa presente, porém, dentre memórias desconexas e eventos passados, somos lançados em uma jornada para entender as conexões perdidas entre tudo o que ainda não somos capazes de entender.
Stephen King destaca-se pela acessibilidade, a forma como apresenta suas histórias de forma a aproximar o leitor de suas obras. O Pistoleiro não foge à regra, mas também não deixa de divertir aqueles que buscam um pequeno quebra-cabeças com reflexões acerca do universo, seus mistérios e conexões com o caos e a ordem. Apesar das cenas de ação, onde observamos toda a habilidade adquirida ao longo do treinamento de Roland, das memórias e a maneira como seu passado afeta seu relacionamento com outros seres humanos, o livro também destaca um lado místico e mitológico que se expandirá pelos próximos capítulos da saga.

Enquanto você viaja com o garoto, o homem de preto viaja com sua alma no bolso.

O Pistoleiro funciona como o gatilho para uma saga cujos 7 capítulos e meio o autor levou anos e anos para finalizar. Apesar da narrativa fantástica, pouco do vasto e misterioso mundo de Roland é apresentado ao longo do primeiro capítulo da série. Os detalhes são lançados ao vento, espalhados como grãos de areia no deserto e, faz parte da experiência conectar os pontos que possuímos e aqueles que desconhecemos para deixar-se encantar pela história.
Roland pode ser o personagem principal desta saga, porém foi o homem de preto, em todo seu mistério, conhecimento e poder, aquele que conseguiu fisgar minha atenção. Foi o encontro final, o caos e ordem do universo, as verdades e mentiras proferidas pela perspicácia do homem de preto e, a forma como é capaz de jogar com o destino de muitos, que fez com que percebesse as potencialidades desta obra de Stephen King. O Pistoleiro apresenta os mistérios  do universo de A Torre Negra e demonstra o talento e desafios de um autor em construção, porém, presenteia o leitor com o melhor encontro, nos fazendo almejar pela próxima aparição do homem de preto, esta vindo a acontecer no próximo ou último livro.

  • The Gunslinger
  • Autor: Stephen King
  • Tradução: Mário Molina
  • Ano: 2012
  • Editora: Suma
  • Páginas: 224
  • Amazon

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