Você já ouviu falar de Howard Phillips Lovecraft? Provavelmente não, ele é pouco conhecido no Brasil pelo seu nome, mas muitas pessoas, até aquelas que não são acostumadas a ler, já devem ter ouvido falar sobre Cthulhu, Dagon, Arkham, sim, aquela Arkham do filme do Batman foi criada pelo Senhor Lovecraft, assim como os monstros citados e muitos outros.
A criança prodígio nascida em Providence, uma pequena cidade do estado americano de Rhode Island, com apenas três anos de idade, Lovecraft já lia e com sete já tinha escrito seus primeiros contos. Influenciado pelo avô, um homem culto que havia vindo da Inglaterra a pouco tempo, e criado apenas pela mãe, já que seu pai morreu quando ele ainda era muito novo, Lovecraft nunca conseguiu ter uma boa sequência nos estudos devido a sua saúde extremamente frágil, mas isso não impediu que criasse os universos mais incríveis e ricos em detalhes existentes na literatura de terror.
O estilo de literatura “lovecraftiana” é muito particular, ele não costumava escrever novelas, a maioria de suas obras são conjuntos de contos, nos quais muitas vezes ele utiliza os mesmo locais, personagens e monstros, dando sequência as histórias muitas vezes.
H.P. criou um dos universos mais completos da literatura. Com descrições minuciosas ele amava explorar aquilo que ainda não era conhecido. Nascido em 1890, viveu apenas 46 anos, até 1937, em uma época sem internet, sem conhecimentos vastos sobre Antártida, Egito e com uma Nova York obscura suficiente para ele criar uma cidade grande como pano de fundo para coisas terríveis.

E acho que era isso o que mais impressionava na obra de Lovecraft, ele falar sobre lugares pouco explorados, em um tempo sem muita comunicação, onde qualquer informação levava décadas para ir de um continente ao outro, onde as viagens de avião não eram nada populares, quando se acreditava que montanhas geladas poderiam esconder yetis e que os oceanos profundos teriam monstros cheios de tentáculos. Imagine você, que vive no começo do século XX e sequer sabe que a Antártida existe, a não ser através dos mapas. As histórias que ele criou sempre foram muito reais e o medo do desconhecido fazia total diferença para que as histórias de Lovecraft assombrassem os americanos. Um outro ponto muito curioso na obra de H.P. é o fato de que o pior para seus personagens nem sempre era a morte, mas sim total loucura. Em diversos de seus contos o personagem não morre, apenas enlouquece completamente, como se fosse possuído por um de seus monstros, e pensando bem, a sanidade, às vezes, é mais importante que a vida realmente.

Seus contos eram publicados em jornais, por isso eram curtos, divididos em alguns capítulos e sempre instigando os amantes de terror a comprar a próxima edição do periódico. Até hoje, nenhuma editora conseguiu, de fato, reunir toda a obra do autor.
Este ano estive em Boston e, como já contei aqui no Mês do Terror, fui visitar Salem, durante um passeio de carro no dia seguinte, passei por uma placa que indicada “Providence 15 Milhas”, pensei: “Não pode ser a mesma Providence.” Entrei rapidamente no Google, coloquei na sessão de mapas e vi que a distância da primeira casa do escritor para o hotel onde eu estava hospedado era de 72 quilômetros. Corri para lá, e… me decepcionei.
A cidade de um dos maiores escritores de terror, de todos os tempos, simplesmente ignora ele. Existe apenas uma praça com o nome de Lovecraft e uma placa de bronze na esquina, exatamente ao lado da casa onde ele nasceu. Antes de descobrir qual era a casa eu sabia somente a rua na qual ele tinha morado, então resolvi perguntar para as pessoas que passavam por ali se elas sabiam qual das casas era a de Lovecraft, tentei quatro ou cinco vezes, ninguém sequer sabia quem era H. P. Lovecraft. Mudei de tática e fui até uma loja de quadrinhos, estas lojas nos Estados Unidos representam uma forte dose de cultura e informações e lá me falaram sobre um museu que existe na cidade com informações do escritor, fui até lá. Chegando conversei com o dono do local, ele me mostrou fotos da casa, de como era e de como está atualmente. Então voltei até a casa, que é bem cuidada, pois há moradores vivendo ali, as janelas estavam fechadas, infelizmente. Fiquei parado na esquina durante alguns bons minutos, imaginando quem morava ali, se alguém sabia a quem aquela casa pertenceu, que provavelmente em algum quarto dela foram criados os mais amedrontadores monstros da literatura mundial.

Queria saber se as pessoas que moram ali sabem o que foi criado dentro daquelas paredes, se vivem ali por quererem estar perto de algo tão magnifico, de sentir o espírito de um gênio vagando por ali, ou se só vivem por ali por ser simplesmente uma casa. Confesso que imagino que se uma pessoa sabe que aquela casa era de Lovecraft, caso soubessem dos monstros que ele criou, logo colocariam a casa à venda, para fugir de Dagon, Cthulhu e Azathoth.

Voltando ao Brasil, suas obras começaram a ser lançadas por aqui apenas em 2010, e se popularizaram mais nos últimos anos com as edições das editoras Darkside Books e Martin Claret. Os livros estão impressos com edições diferentes e com os contos mais importantes do autor. Mas essa demora para o lançamento dos livros dele não é “privilégio” brasileiro, nos Estados Unidos, os livros foram lançados em belas edições apenas depois dos anos 2000, tudo isso devido aos direitos de publicação do autor e, é claro, a ele ser pouco conhecido.
Agora, porque que a partir dos anos 2000 ele passou a ser interessante? Porque o universo que ele criou foi tão maravilhosamente bem-criado que gerou jogos de tabuleiro modernos que envolvem monstros, mortes, dados, muita tensão e estratégia. O universo lovecraftiano é amplamente explorado em jogos como Arkham HorrorFallout 4 – Far Harbor, O Chamado de CthulhuEldritch Horror, World of Warcraft e um dos mais recentes, ainda sem edição nacional, Arkham Horror The Card Game. Neles você precisa lutar contra os maiores monstros criados pelo escritor, entrando na pele de personagens existentes em seus livros e lutando nas cidades também criadas por ele, tudo isso gerou uma enorme curiosidade entre o público geek americano e a obra de Lovecraft passou a ganhar o reconhecimento e as edições que merece.

C’Thul no jogo World of Warcraft

Além dos jogos, a obra do autor influenciou diversas histórias para livros e filmes. Entre os nomes dos autores estão Stephen King e Robert E. Howard. Listar todas as obras que bebem da fonte lovecraftiana seria quase impossível, pois é algo que continua acontecendo, como se fosse uma mitologia fortemente explorada. Há inclusive, uma série de TV para sair muito em breve. Lovecraft Country, uma antologia de terror que será produzida por J.J. Abrams e Jordan Peele.
Se você ainda não conhece Lovecraft não perca tempo, principalmente se você é fã de terror, hoje temos todos seus contos traduzidos, em edições incríveis, como as das editoras que já citei até a edições de bolso da LP&M. Não deixem de conhecê-lo e cuide bem das suas fichas de sanidade, até porque, você não gostaria de ter a mente controlada por Cthulhu, Gug, Necronomicon, e muitos outros animais aterrorizantes.

Ano passado fiz um vídeo em meu canal falando mais sobre o autor, suas obras e influências. Também mostro alguns cards onde foram ilustrados alguns seres criados pelo autor. Para quem quiser me ouvir falando um pouco mais sobre H.P. Lovecraft, sejam bem-vindos!

Confira as coletâneas do autor já resenhadas aqui:
1. H. P. Lovecraft – Contos: Volume I (Martin Claret)
2. H. P. Lovecraft – Contos: Volume II (Martin Claret)
3. Medo Clássico – H. P. Lovecraft, Volume I (Darkside Books)

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