Sunny é uma garota de doze anos que, como poucas, incorpora um mundo magnífico de cultura, respeito e cores em sua essência. Ela nasceu nos Estados Unidos, mas recentemente se mudou com a família para a Nigéria e, ao contrário de incontáveis exemplos, lidou espetacularmente bem com todo o processo de mudança. O mesmo não pode ser dito de seus colegas de escola que, ao perceberem suas características e feições ancestrais interligadas a palidez de sua pele, perseguem e maltratam a garota albina.
Quando o ambiente escolar não é capaz de produzir nada além de uma atmosfera opressiva, a menina redireciona suas mágoas e dores para as partidas de futebol que só pode jogar com os irmãos no período da noite, pois são os únicos garotos que a aceitam de igual para igual no meio de campo.
Embora enfrente alguns dos desafios comuns a idade, levando uma vida como a de tantos outros garotos e garotas, Sunny se depara um mundo novo obscurecido pela magia de poderosas facas juju. Seus amigos são pessoas-leopardo, filhos de famílias cuja magia ancestral é transferida pelo sangue e, são eles os responsáveis por, pouco a pouco, apresentar um novo universo a recém descoberta agente livre, alguém cuja magia não é transmitida por meio da hereditariedade.
Agora a menina albina, perseguida pelos colegas, apaixonada por futebol e pertencente diversos mundos encontra um leal grupo de amigos, inicia o processo de aprendizado sobre o mundo das pessoas-leopardo e adquire sua própria faca juju, ingressando neste universo mágico cujas aventuras podem presenteá-la com muito mais do que arranhões e conhecimento.
Bruxa Akata trata-se de um infanto-juvenil cuja escrita simples, direta e acessível possibilita a criação de uma história capaz de fisgar e inserir, assim como fizeram os primeiros volumes da saga Harry Potter, jovens leitores ao mundo da fantasia e, principalmente, da leitura. 
A narrativa e mundo construído por Nnedi Okorafor lembram e são constantemente comparadas ao universo e caminho percorrido pelo famoso bruxinho. Porém, os elementos e características devem manter-se associados somente até certo ponto, uma vez que aqui reina um novo mundo repleto de mitologia e cultura nigeriana que, ao contrário do que J.K. Rowling possa afirmar hoje, nunca foram contemplados nos volumes pertencentes à saga Harry Potter.
As varinhas transformam-se em facas juju. O trio de amigos altera-se para um grupo de quatro, composto por dois meninos e duas meninas que, apesar da diferença de idade e vivência, não se deixam abalar por nada e edificam o mais belo sentimento de amizade e lealdade. Os professores transformam-se em mentores que buscam auxiliar seus aprendizes a exercitarem e aprimorarem suas qualidades únicas. O quadribol abre espaço para o emocionante e verdadeiro futebol e, por mais que possa efetivar outras breves associações, elas não vão além de meros detalhes.
Confesso que, por voltar-se a um público mais jovem, a escrita simples e a forma como são construídas as aventuras, introduzindo o leitor aos possíveis desafios e vilões dos próximos livros, me surpreendeu e confundiu bastante. Minha experiência de leitura foi muito mais a de observadora não por falta de qualidade narrativa, erros de delimitação de universo ou falta de talento da autora. Não, foi pura e simplesmente por não estar mais acostumada com este tipo de leitura, por ter me distanciado muito do ponto onde edifica-se aquela poderosa, encantadora e magnífica conexão com os personagens, transformando-os em amigos, companheiros de aventura e tudo isso se dá única e exclusivamente por conta da idade. A obra é maravilhosa sim, mas a idade interferiu no processo, transformando eventos espetaculares aos olhos de um leitor mais jovem, em algo mais simples para o leitor mais velho.
Bruxa Akata trata-se de uma obra repleta de magia, mitologia e cultura nigeriana, mas também vibra com as aventuras de seu grupo de personagens carismáticos, adoráveis e verdadeiramente humanos, apesar de suas facas juju e feitiços ancestrais. É encantador deparar-se com uma narrativa que fala diretamente com jovens leitores, cuja escrita simples e universo fantástico descortina-se perante nossos olhos. Porém, imagino que seja ainda mais maravilhoso receber e descobrir essa história na idade a qual se destina, uma vez que ressalta tantas mensagens preciosas e insere o jovem leitor ao fantástico mundo da leitura.

  • Akata Witch
  • Autor: Nnedi Okorafor
  • Tradução: João Sette Câmara
  • Ano: 2018
  • Editora: Galera Record
  • Páginas: 319
  • Amazon

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