O período histórico escolhido como palco desta narrativa interliga-se aos eventos do século XVIII. A Inglaterra, como em tantos outros momentos de sua trajetória, encontra-se em guerra com a França. A Rainha Anne (Olivia Colman) assume o trono do país, divide-se constantemente entre os anseios dos Tories e Whigs, sofre de uma doença debilitante e, apesar deste contexto histórico riquíssimo, intrincado e digno de um concorrente ao Oscar de Melhor Filme, A Favorita opta por delinear uma narrativa onde o foco principal está na personalidade peculiar e um tanto quanto estridente da rainha Anne, bem como em sua relação com Lady Sarah (Rachel Weisz) e a recém-chegada, então criada da corte, Abigail (Emma Stone).
Embora existam referências históricas ao longo de todo o filme, demonstrando, por exemplo, o partido que viria a lucrar com o fim da guerra com a França, assim como as mais profundas e fortes amizades estabelecidas na corte contêm inclinações políticas e aspirações que levam ao benefício próprio, o ponto principal desta trama é lançar o espectador em meio as dores e nuances da existência de uma rainha constantemente magoada. Seu intuito é apresentar uma Lady que, muito mais do que desejar o bem-estar da rainha, pretende atingir objetivos que valorizem sua posição e do partido de seu marido. Além disto, observamos a chegada de uma criada que, durante algum tempo pertenceu à uma classe social mais elevada e, após estabelecer-se entre as faxineiras e cozinheiras da corte, anseia por adquirir a confiança da rainha e tornar-se sua dama de companhia.

A Favorita carrega em seus moldes, como ressaltado na ficha técnica de diversos sites especializados, direcionamentos de comédia, drama e biografia, contudo e apesar de não possuir conhecimento aprofundado com relação ao período em questão, arrisco dizer que muitos dos eventos e situações ilustrados aqui anseiam por uma característica muito mais caricata do que, definitivamente, vir a transformar-se em algo fiel a história da Inglaterra e de sua rainha Anne. Da mesma forma, a denominar o que encontramos aqui como um filme de comédia é, no mínimo, esquisito. Do mesmo modo como muitos contextos históricos e personagens não são devidamente apresentados para um espectador que não compreende os eventos em questão, o humor estabelecido ao longo de todo o filme é, em minha mais sincera opinião, questionável.
Como tantos outros, adiciono aqui meu descontentamento ao perceber a tentativa de fazer graça com situações deploráveis, humilhantes e, mesmo que recobertas pela intenção de serem caricatas, demonstrarem tão pouca humanidade. Não é engraçado observar uma mulher que perdeu 17 crianças ser maltratada emocionalmente por indivíduos que considera confiáveis, não é engraçado deparar-se com comportamentos amorais e rir como se tudo fosse normal, ou mesmo rir por desconforto, não é engraçado ver mulheres traindo mulheres e maquinando pelo apreço de uma rainha, não é engraçado ver uma mulher ser traída, maltratada e esquecida quando algo poderia ser feito para salvá-la, por fim, não é engraçado legitimar em filme a velha história de que mulheres não podem aliar-se com o intuito de atingir um objetivo comum. Contexto histórico ou não, inspiração em personagens e situações reais ou não, o que observamos aqui é um humor de mal gosto, caricato e livre de qualquer humanidade.

Embora questionável com relação ao seu enredo e direcionamentos, A Favorita é inegavelmente impecável em todos os aspectos técnicos. A ambientação requintada, repleta de detalhes capazes de tirar o fôlego de um espectador detalhista e apaixonado por belos cenários demonstra o luxo da vida na corte. A paleta de cores sóbria, recheada de tons neutros e cenas que brincam com luz e sombra, branco e negro, claro e escuro, contrasta absurdamente com as tentativas do longa de desenvolver um clima de comédia. Onde peca-se com humor duvidoso se acerta ao utilizar tonalidades e cores sóbrias, requintadas e, muitas vezes impensadas quando imaginamos uma atmosfera real.
Completando e complementando o belíssimo trabalho técnico realizado, a fotografia conquista ao empregar de forma racional e muito bem estruturada a clássica regra dos terços, vindo a gerar as mais belas imagens que, interligadas ao cenário e ambientação, demonstram o absoluto controle técnico do filme. Onde observamos regras clássicas no quesito fotografia, também nos deparamos com posições, movimentos e até mesmo lentes de câmera inusitadas para filmes de época. A Favorita brinca muito com lentes grande angulares, com movimentos inesperados de câmera, com o alinhamento entre movimentação da câmera em cena e a situação que está sendo apresentada, produzindo assim um efeito diferenciado e muitíssimo interessante de se ver, considerando tratar-se de um filme de época.

Por fim, é importante ressaltar a atuação impecável de todas as figuras femininas do elenco. Elas são o centro do filme, o destaque, um dos elementos responsáveis por carregar a narrativa e encantar o espectador. Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone estão impecáveis, belíssimas e certeiras em suas atuações, porém, é Olivia Colman que, segundo a opinião pessoal de quem redige esta crítica, verdadeiramente surpreende.
A Favorita é um filme impecável e inusitado, estranho e belo, de mal e muito bom gosto. Trata-se de um filme repleto de elementos positivos no quesito técnico, mas, ao observarmos sua trama e direcionamentos, recheado de características duvidosas. Considerando seus concorrentes na categoria de Melhor Filme, não espero e nem desejo que o longa ganhe, contudo, gostaria sim de ver seu nome surgir por entre as categorias mais técnicas como fotografia, cinematografia, figurino entre outras.
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- The Favourite
- Lançamento: 2019
- Com: Olivia Colman, Rachel Weisz, Emma Stone
- Gênero: Drama, Comédia, Biografia
- Direção: Yórgos Lánthimos



12 Comentários
Olá! Adoro acompanhar os filmes que retratam a monarquia da Inglaterra, acredito que realmente é bastante questionável, você transformar em comédia a dor e o sofrimento de uma pessoa, mas pensando pelo outro lado, o que vemos no filme, nada mais é que a realidade daquela época (me arrisco a dizer que infelizmente ainda é a nossa realidade), por isso, acredito que tais ações, mesmo que tão fortes e cruéis deixam a história mais realista, por tanto acaba sendo válido. O filme tem atuações impecáveis das personagens principais, por isso, quero conferir.
Um dos problemas que tive é justamente esse Elizete, não tenho certeza quanto a veracidade do que é mostrado ao longo do filme. Sei que muitos aspectos e detalhes são reais, mas tenho minhas dúvidas com relação à outros elementos por já ter lido alguma coisa sobre a monarquia inglesa. Acredito que valeria uma pesquisa mais aprofundada aqui, para entender melhor se ele é tão verídico quanto dizem. 😉
A favorita parece ter figurino e cenários lindos que me encantam por serem da realeza rs
Não me incomodo como muitas pessoas sobre as piadas.
Já assisti ao trailler e deu vontade de ver o filme ;p
Depois que você assistir o filme, caso ainda não tenha conferido, espero que volte aqui para compartilhar o que sentiu e achou ao longo do filme, principalmente com relação às piadas !!! 😉
Estou tentando assistir todos os indicados ao Oscar antes do evento. A Favorita é um dos filmes que ainda não consegui assistir.
Apesar das piadas de mau gosto, acredito que ainda valha à pena assistir ao filme pela fotografia e cenografia, além da bela atuação das atrizes.
Com toda a certeza vale conferir esse filme pela fotografia, cenários, figurino e atuações !!! Eles são o ponto alto do filme !!! Na minha opinião, foi o que salvou o longa !!! XD
Um filme que deixa a dúvida assistir ou não, devido as humilhações não anima assistir, mas por outro lado o técnico parece que agrada e muito e tem suas indicações ao Oscar. Gosto de filmes que se passam em outros séculos geralmente são interessantes e tem o teor histórico que é maravilhoso, mas esse não deu aquela animada, pra assistir.
Se existe um acerto nesse filme é o aspecto técnico !!! Se tu curte filmes bem produzidos, bem pensados e estruturados, realmente bonitos de se ver, tu deveria dar uma chance para ele Maria !!! Agora … tem todo o problema de direcionamento que mencionei, então vale pesar cada coisa e decidir por assistir ou não, rsrsrsr
Estou na luta para tentar conferir todos os filmes que irão concorrer ao Oscar este ano, devagarinho, vou alcançando meus objetivos! Apesar de ter meus favoritos já estabelecidos faz um tempinho..rs
Bohemian,Nasce Uma Estrela, Roma…são impecáveis e na minha opinião, irão levar algumas boas estatuetas..
Vi A Favorita já tem um tempinho e por não ser um gênero que eu curta muito, não fui lá com as caras do filme não.
A fotografia do longa é realmente maravilhosa e impecável,mas o enredo..sei lá, não me ganhou! Achei meio pequeno também as humilhações acontecidas durante a trama e por muitas vezes, senti uma pena da Rainha, daquelas bem doloridas.
As cenas que eram para ser engraçadas também, falharam e muito..rs
Mesmo assim sei que irá ganhar algumas estatuetas.
Se recomendo? Sim!!!!
Beijo
Angela Cunha Gabriel(O Vazio na Flor)
Eu também senti uma pena tremenda da Rainha !!! Mas não só dela, de diversos outros personagens que agem de forma totalmente mesquinha, imoral e desrespeitosa, livres de qualquer empatia … você não imagina o tamanho da minha decepção ao assistir esse filme. Fiquei de queixo caído e não foi por um bom motivo, hahahah
E com relação as cenas de comédia, senti o mesmo que ti, era pra ser engraçado mas foi tão de mal gosto que ou você não acreditava no que estava vendo ou ria de nervoso … :/
Poxa que triste essa questão das piadas com situações tão fortes, da até uma desanimada. Gosto muito desse gênero, as questões históricas me fascinam e creio que A favorita atende a essas expectativas.
Outra coisa que me chamou bastante atenção foi o figurino das atrizes, achei muito bonito e fiel a época
Também gosto muito de filmes históricos Luana, mas fiquei muito decepcionada com os direcionamentos desse filme. Achei que faltou um pouquinho mais de respeito e humanidade sabe ?! E pensar que todo o aspecto técnico está formidável !!! É uma pena que em alguns pontos o filme acerta tanto e em outros ele comete grandes deslizes …