Os leitores que acompanham minhas resenhas, meus comentários acerca dos mais variados tipos e estilos de obras literárias, bem como minhas críticas ferrenhas com relação aquelas histórias que ignoram a importância de se transmitir mensagens ou ensinamentos, já conhecem ou ouviram falar de todo o amor que possuo com relação aos gêneros da ficção científica e distopia. Contudo, e apesar da febre de narrativas distópicas voltadas ao público adolescente que assolou a comunidade literária há alguns anos, acredito que estes dois gêneros literários vão muito além da moda, da venda de livros, eles são mais profundos, mais antigos e na grande maioria dos casos demonstram a realidade de maneiras que esta talvez nunca fosse capaz de ser apresentada.

Desde o século XIX recebemos histórias curiosas, absurdas, fantásticas e assustadoras sobre sociedades futuras – sendo algumas delas localizadas em um ponto temporal perigosamente próximo ao nosso – onde a desigualdade, pobreza e injustiça se tornaram lei, onde tudo aquilo que poderia dar errado ao longo da trajetória humana se une para perpetuar o caos na terra, onde a sociedade, quando funciona, trabalha em prol de pequenas elites cujo poder oprime tudo e todos. Uma vez que a essência da distopia se destaca tão sombria e conectada ao mundo real, suas obras apresentam o trunfo de, na grande maioria dos casos, delinear as mais fortes e profundas críticas sociais. É por este motivo que faço parte do time de pessoas que defendem a impossibilidade de se amar o gênero à primeira vista. O amor pelos piores erros humanos nunca cometidos só pode surgir aos poucos, com o tempo, com uma quantidade considerável de reflexão e principalmente, com a percepção de que estas histórias devem conter em si uma profundidade capaz de prender o leitor com suas garras, soltando-o apenas quando este for capaz de interligar o que leu com a própria realidade.
Temos que nos concentrar em conseguir sobreviver para poder fazer mais do que sermos comandados por pessoas loucas, desesperadas, bandidos e líderes que não sabem o que estão fazendo!
É neste contexto de profundidade, cenários assustadores e crítica social que encontramos A Parábola do Semeador. Com sua narrativa distópica, interligada a elementos de ficção científica, adentraremos num mundo caótico, sem lei, sem autoridade, destruído e devastado por mãos humanas. As chuvas são raras, os rios estão poluídos e a desertificação se estende para além do horizonte. As grandes cidades estão em ruínas, as drogas transformam indivíduos em monstros capazes de matar e incendiar comunidades inteiras, a polícia, os bombeiros e o próprio governo já não podem realizar mais nada por seu povo. Para adquirir o mínimo de segurança encontramos duas opções: ou você aceita um emprego mediano com direito a pequenas acomodações localizadas em terrenos pertencentes a grandes empresas ou você se alia a pequenas comunidades muradas e torce para que ninguém decida atacar seus muros, hortas e familiares.

Dentro de uma destas comunidades muradas encontramos Lauren Olamina, nossa personagem principal cuja visão crítica, inteligência e curiosidade direcionam o leitor por entre reflexões importantíssimas acerca da sociedade atual, dos desafios e perseguições enfrentados pela comunidade negra ao longo de tantos anos, da degradação do meio ambiente, dos perigos contidos nos modos de produção estritamente industriais, da esperança que ainda pode existir para o que resta da humanidade. Embora sua família possua residência fixa, assim como certa autoridade no contexto da comunidade murada onde vivem, Lauren sabe que a mudança não distingue rico e pobre, branco e negro, bom e mau, surgindo assim nos momentos mais inesperados. Por esse motivo, e reconhecendo profundamente os aspectos e características de seu próprio tempo, ela se prepara para o inevitável, para as dores do futuro, para o dia em que sua comunidade for destruída e sua jornada em busca de um lugar melhor para viver, em busca do mínimo de esperança tiver início.
A Parábola do Semeador não deveria ser classificada, como mencionam alguns, como a narrativa distópica mais próxima da realidade já publicada, mas sim como uma entre tantas obras magníficas em que escritores foram capazes de observar os elementos do mundo real para construir um futuro onde nossas escolhas e erros poderiam gerar as piores consequências possíveis. Assim como tantos outros exemplos, este livro demonstra aspectos do período histórico que lhe deu origem, remete à um futuro onde a humanidade se encontra desamparada e assombrada por fantasmas que ela mesma criou, destaca nosso pior lado e deseja verdadeiramente que este cenário distópico nunca venha a se materializar no mundo real.
Profundo e denso, este livro não aborda somente a degradação do meio ambiente, os erros de uma sociedade inspirada por princípios falhos, a luta por sobrevivência em um mundo sem leis, as mudanças inesperadas que delimitam toda a trajetória humana e planetária. Sua narrativa constrói críticas ferrenhas ao modo de vida de uma sociedade estritamente capitalista e neoliberal, julga políticos e empresas que visam ao lucro acima de tudo e todos, demonstra a importância do pensamento crítico, da reflexão e da análise dos tempos que nos cercam, além de comentar sobre esperança, fé, lealdade e amizade em um mundo onde confiar em alguém, ou mesmo aliar-se, pode apresentar-se como uma das decisões mais difíceis a se fazer.

Sua escrita cativante, fluida e acessível, seus personagens muitíssimo bem delineados e seu mundo sombrio belamente construído cumprem com aquilo que acredito ser a principal missão de uma história distópica: fazer o leitor ou espectador refletir acerca dos vícios, escolhas e erros humanos e demonstrar um dos infinitos caminhos pelos quais podemos seguir caso nenhuma mudança seja implantada nos aspectos mais profundos de nossa sociedade.
Porém, existe uma característica nesta história que me desagrada profundamente. Embora o segundo volume da série ainda não tenha sido publicado no Brasil, o que me torna ignorante com relação a conclusão desta narrativa, o sentimento que permeia toda a trajetória de A Parábola do Semeador é o escapismo, a sensação ou crença de que a única e verdadeira esperança para a humanidade se encontra no espaço, nos limites desconhecidos do universo. É óbvio que aqui expresso minha opinião pessoal, minha visão com relação a crença de que a única esperança, a única forma de repararmos nossos erros e melhorarmos nossa sociedade está localizada na saída do ser humano do planeta Terra. Não acredito que transplantar uma comunidade viciada e errante para o espaço seja a solução, seja a resposta para nossos problemas. Sou contra o abandono de um planeta transformado em lixo, degradado e devastado à exaustão, uma vez que esse é o comportamento mais humano que poderia existir. Quando algo não está dando certo, quando já destruímos tanto que não existe qualquer saída simples e fácil, abandonamos o barco e fingimos que nada aconteceu. Se os costumes, o modelo de pensamento, as regras, crenças e moldes sociais não forem modificados antes, não existe garantia nenhuma de que seremos melhores no espaço do que fomos por séculos e séculos na superfície terrestre.
A Parábola do Semeador é o tipo de narrativa que, por todos os motivos destacados, merece ser classificada como distopia. Com mensagens pertinentes, cenários sombrios e assustadores de um futuro próximo, além de uma quantidade considerável de críticas sociais esse livro direciona o leitor por reflexões profundas acerca dos mais variados elementos da realidade. Sua história cativa, instiga o leitor a virar página atrás de página e, mesmo com pequenos problemas encontrados ao longo do desenvolvimento da trama, tudo o que resta ao virar a última página é a curiosidade e ansiedade para descobrir como essa história grandiosa irá terminar.

- Parable of the Sower
- Autor: Octavia E. Butler
- Tradução: Carolina Caires Coelho
- Ano: 2018
- Editora: Morro Branco
- Páginas: 416
- Amazon



25 Comentários
Ótima resenha, fiquei curioso para ler esta distopia, apesar de já andar um pouco cansado destas series. Temas como este que demonstram como estamos exaurindo nossos recursos e a única forma de salvação é procurar entre as estrelas é muito corriqueiro, na ficção. Mas contudo pela bela resenha ainda me fez querer dar uma chance.
Vamos esperar para descobrir como a Octavia resolve essa questão de “sair da terra para resolver nossos problemas” no próximo livro !!! Espero que ela seja tão crítica e reflexiva quanto foi nesse livro, apesar de apresentar essa ideia, rsrsrs
De qualquer forma a espera não deve ser muita, pois a editora já anunciou o próximo livro e acredito que em breve ele esteja por aí !!!
Primeiro, muito obrigada pela resenha, Izabel!
O primeiro livro que fiquei louca para ler dessa autora foi Kindred, mas infelizmente ainda não tive a oportunidade. Agora A Parábola do Semeador com certeza também entrou para a lista. Sou apaixonada por distopia e ficção científica e, como bem dito, acredito que nunca teremos o suficiente apesar das tantas obras já lançadas, ainda mais quando pegamos algo assim, onde vemos a análise da sociedade feita pelo autor com o intuito de chegar aos nossos erros e as consequências disso. Mas concordo completamente com você quando se trata da “saída do ser humano da Terra”. Pra que? Pra cometermos todos os erros novamente? Pra levarmos nossa herança colonizadora estragada pra destruir outros lugares? (meio pessimista né, mas fazer o que? kkk). Enfim, procurei conhecer mais a autora e simplesmente me apaixonei por ela, preciso de mais Octavia Butler na minha vida, com certeza lerei as obras até então publicadas aqui no Brasil, já quero!
Awwwwwn, obrigada você Larissa !!!
Eu sempre fico mega feliz com os comentários de vocês, principalmente quando ampliam as discussões que tento ressaltar em cada resenha !!! *-*
Espero que tenha a oportunidade de conhecer A Parábola do Semeador e que curta tanto a leitura quanto eu curti !!! A Octavia é sensacional, merece ser lida e relida, pena que entrou na questão do “ir embora da terra”, rsrsrs, mas vou ficar aqui no aguardo para que ela seja capaz de resolver esse assunto com maestria no próximo livro !!!
É bacana ler distopias e ainda mais quando abordam temas que refletem em nossa realidade, pois apesar da ficção, são problemas reais a quais devemos nos preocupar e tentar melhorar!!
A distopia é sensacional por isso né ?!
Confesso que no início, quando comecei a ler obras do gênero, não entendia muito bem o encanto dessas histórias, mas hoje elas se tornaram um dos meus gêneros preferidos da vida !!! Existem algumas mensagens que, acredito que, só a distopia é capaz de transmitir !!!
Oi, Izabel
Ainda não li nada da autora, mas quero muito conhecer seus livros.
Gostei muito do enredo muito próximo da realidade que vivemos, mas nos faz refletir sobre nossas atitudes. Em tudo como consumo dos recursos naturais, comprar o que não precisa e a crença de cada um.
Espero que a continuação chegue por aqui logo, beijos.
Oi Luana !!!
A continuação já foi anunciada pela Morro Branco e acredito que em breve teremos ela por aí !!! Já estou aqui mega curiosa para conhecer o desfecho dessa história, e torcendo para que a autora consiga resolver todos os pontos e elementos do primeiro livro !!!
Por tudo o que foi descrito, essa, parece para mim, ser um distopia incrível, um livro sensacional para ser devorado. Não conhecia a autora e tampoco o livro mas gostei de cada detalhe comentado.
Ao final, concordo com a sua opinião. Também acho que mudar para o espaço faria o ser humano ser melhor. Tem-se que melhorar antes de tudo. Se faz errado na Terra, faria em qualquer outro planeta. E aí, mudaria novamente para destruir mais um planeta?
Quero poder ler e conhecer mais dessa autora que parece ser extraordinária nesse gênero.
Já fiquei aqui super feliz por saber que curtiu a premissa do livro e se interessou pela autora !!! Vou ficar torcendo para que tenha a oportunidade de conhecer as obras da Octavia !!!
E é isso mesmo, não adianta acreditar que o espaço é a solução se a mentalidade de quem for para lá não mudar. Estou bem curiosa para descobrir como a autora vai lidar com isso no próximo livro !!!
Bel!
Sou como você, mesmo em livros de ficção/fantasia/distopia, acredito que temos de tirar algum proveito, alguma lição sobre tudo que nos é passado.
Pelo que vejo esse livro traz ainda mais do que o esperado, traz algo tão próximo a nossa relaidade daqui um tempo curto, que não tem como não nos identificarmos.
Estou com ele aqui e se soubesse que era tão bom, já o teria lido.
cheirinhos
Rudy
Awwwwnnn Rudy, toca aqui !!! Acredito que esse é um dos principais valores da literatura né ?! Algo tem que ser passado, o livro tem que nos fazer refletir, caso contrário de que adianta ??? O entremetimento é bacana sim, mas porque não inserir uma mensagem ali no meio ???
Espero que tenha a oportunidade de ler essa obra !!! Tenho certeza de que irá curtir !!!
Olá Isabel, tudo bem?
Eu adoro distopias, mas ao mesmo tempo fico muito assustada quando percebo que cada história está cada vez mais próxima da nossa realidade. Ainda não li nada da Octavia Buttler, mas ja vi muitos elogios a Kindred e preciso conhecer a escrita dessa autora pra ontem. Me interessei muito por A Parábola do Semeador. Parabens pela resenha tão bonita e bem escrita.
Beijos
Então Lara, você acabou de destacar uma das principais funções da distopia !!! Elas precisam se assemelhar ou estar próximas da realidade pois assim nos fazem refletir !!! Por isso o gênero é tão interessante, em essência ele sempre pretende ir além do entretenimento. 😉
Espero que tenha a chance de conhecer a escrita e obras da Octavia, até o momento só consegui ler o Parábola, mas espero iniciar outros livros da autora em breve !!!
Acabei conhecendo as letras da autora por Kindred e já foi mais que suficiente para me apaixonar por ela e suas histórias, sempre cheias de verdade e lições!
Ainda não pude ler este trabalho dela e aliás, acredito ser a primeira resenha que leio dele e pelo que li acima, é mais uma história que vai deixar o leitor de queixo em cada página!
Octavia tem esse jeito todo dela, de nos colocar dentro do enredo, nos fazendo questionar a nós mesmos e nossas atitudes e isso é maravilhoso.
Teremos salvação?
Lerei!
Beijo
Angela Cunha Gabriel(O Vazio na Flor)
Acredita que ainda não li Kindred ?! Essa é uma das primeiras obras da autora que pretendo ler quando surgir a oportunidade. Acredito que seja tão precioso e reflexivo quanto o Parábola, e tenho certeza de que irei gostar !!!
Já estou aqui super curiosa para descobrir o que vai achar dessa obra Angela, espero que curta tanto quanto curtiu Kindred !!!
Olá! Confesso que não conhecia a autora, mas gostei muito do enredo do livro, apresenta um tema mais pesado e relatos que podem, infelizmente, num futuro não tão distante, fazer parte da realidade do nosso dia-a-dia, concordo que a possibilidade de refletir sobre nosso comportamento em sociedade e em como estamos contribuindo para a degradação do nosso mundo é o mais interessante em uma leitura como essa.
Olá Elizete !!!
Já fiquei aqui super feliz por saber que fui capaz de lhe apresentar a Octavia !!! Ela é uma autora muito importante para os gêneros da ficção científica e distopia, além de ser uma autora negra que se inseriu nesse contexto onde a grande maioria dos autores são homens, por isso e mais um pouco vale a pena conferir as obras delas !!! Espero que tenha a oportunidade de conhecer algum de seus livros !!! ^-^
Esse livro e os outros da autora estao na minha wishlist, quero muito ler ainda esse ano!! Será que o segundo dessa duologia sai ainda esse ano?
Confesso que me perguntava a mesma coisa no início do ano, mas felizmente a editora já anunciou o lançamento do segundo volume, então é só esperar para descobrir como essa história termina !!! o/
Oi Isabel, tudo bem? Octavia E. Butler sempre causando com seus livros polêmicos haha
Acredita que ainda não li nenhum livro dela ainda? Mas quero muito ler! Pois parecem fantásticos!
Vale a pena apostar nas obras da Octavia viu ?! Além de narrativas muito bem estruturadas ela nos faz refletir muito, sobre os mais diversos assuntos e isso é uma das coisas mais preciosas que um livro pode fazer !!!
Gosto de historias do futuro onde tem que lutar pela sobrevivência, afinal isso pode acontecer, é uma leitura que nos deixa arrasados por dizer a verdade em tantas coisas, que muitos referem não enxergar, infelizmente estão acabando com o planeta, acho que só teria fim se todos deixassem de viver e houvesse um novo recomeço, pois estamos deixando só estragos para as novas gerações, com certeza quero ler, ainda não conheço a escrita da autora.
Maria minha flor, você acabou de entrar num ponto bem bacana, que aparece em outro livro também publicado pela Morro Branco !!! O nome do livro é LoveStar e, pelo seu comentário, acredito que te faria refletir bastante, principalmente por conta do final que têm tudo a ver com o que você disse !!! 😉
Sou bem suspeita para falar, mas sempre acho esses os melhores livros, eles abrem uma gama enorme de discussões e é sempre bacana conhecer a opinião de cada um sobre o assunto né ?!
Já vou ficar aqui torcendo para que encontre a oportunidade de realizar essa leitura, quero muito saber o que irá achar !!!
Oba vou querer ler LoveStar.