Melissa é uma jovem de vinte e três anos prestes a se formar em Odontologia, sua vida não poderia estar mais “alinhada”, notas boas, um namorado maravilhoso, o tão sonhado diploma a caminho, um futuro que parece promissor, ou pelo menos parecia, até que ela leva um fora. Sim, Fred, decide terminar, do nada, sem nenhum motivo aparente. Devastada e sem entender o que lhe aconteceu de fato, Melissa vai para casa e ao acordar no dia seguinte segue sua rotina normalmente, o problema é que ao dormir, ela acorda outra vez, revivendo o dia do pós-fora e assim sucessivamente. Presa em um looping temporal que não faz o menor sentido, Melissa precisa compreender o que a mantém presa nesse pedaço do tempo, para então concertar tudo e ser capaz de voltar a vida normal.

Melissa é a primeira de sua família a estar cursando uma faculdade, a primeira que irá ser diplomada. De origem humilde, ela vem de uma família simples, porém muito batalhadora, pessoas que moram em uma vila, sem grandes ambições, satisfeitos e felizes com o que têm, e justamente por esse contraste de personalidade ela meio que inconscientemente sente vergonha de sua origem, inclusive “ocultando” de seu agora ex namorado o lugar onde mora e o direito de conhecer sua família. A verdade, é que estar presa em um círculo social totalmente diferente do seu, a cegou para algumas coisas, a afastando daqueles que amam de verdade, se formos totalmente sinceros, percebemos que ela não aceita sua realidade. É importante deixar claro que Melissa não é uma pessoa ruim, ela apenas priorizou tanto a faculdade, conseguir alcançar seus sonhos, mudar de vida, que acabou negligenciando todo o resto.

Quando se vê presa em meio a esse looping, é que de fato ela começa a se dar conta de como tem vivido, com o que tem se importado e do quanto têm se afastado da sua família e amigos de verdade. Entendendo ali em meio a sua jornada que ela está vendada por certezas absolutas, presa em sua bolha incapaz de se enxergar e enxergar o próximo. É hora de reavaliar cada passo, cada sonho, cada comportamento, é tempo de se reconectar com si mesma, de enfrentar seus medos, superar a culpa, se perdoar e quem sabe… abrir os olhos para o que sempre esteve ao seu lado. E ela terá uma ajudinha especial da sua “auxiliadora”.

— Foi o tempo necessário para vocês aprenderem alguma coisa. Às vezes a lição vêm rápido, às vezes a gente fica repetindo no mesmo estágio…

O Dia Depois do Fora é sobre a jornada de uma jovem que precisou perder algo que julgava extremamente importante, para se dar conta de todo o resto. Virar a chavinha realmente para entender que a vida é muito mais. É sobre crescimento, amadurecimento, autodescoberta, transformação, perdão e recomeço. Sobre se levantar, enfrentar seus medos e ir à luta, buscando a felicidade genuína, tendo em mente que existem sim, modos diferentes de se viver a vida e tudo bem. Pra mim, ficou claro que o ponto chave de tudo e o que realmente estava faltando é o famoso clichê “equilíbrio”, que tanto falamos, mas que realmente é tudo, principalmente para alguém jovem que está ingressando na vida adulta.

O que me incomodou na narrativa é algo muito particular, eu fui a primeira da minha família a ter curso superior, minha família sacrificou muito junto comigo para que eu pudesse alcançar tal feito, e mesmo tendo estudado em uma instituição particular e por vezes ter sido ridicularizada e menosprezada por não ter o mesmo padrão e status que os demais, jamais em hipótese alguma quis esconder quem eu era e de onde eu vim. Minha família sempre foi meu orgulho. Minhas conquistas eram baseadas em retribuir, poder cuidar deles e oferecer o que nunca tiveram, isso jamais me tornou melhor que alguém, mais capacitada, ou bem relacionada.

Durante a faculdade eu também conheci pessoas que se escondiam como a Melissa, e isso sempre foi algo que me incomodou muito. Justamente por isso, Melissa não foi uma protagonista com a qual eu me identifiquei, me tornei indiferente a ela, eu consegui compreender o que ela estava passando e o quanto isso é difícil, desagradável e por vezes cruel, mas ainda assim… não rolou, ainda que ela tenha corrido atrás e corrigido suas ações antes de ser tarde demais. Porém, como eu falei, esse ranço com a protagonista é algo muito particular, o que significa que pra você pode não significar absolutamente nada, não é o tipo de apontamento que vai interferir na sua experiencia de leitura, estou apenas justificando minha nota, principalmente porque eu já li outros livros da autora e amei.

A gente só ama aquilo que conhece, não é mesmo? Portanto, quero ficar o mais íntima possível de mim, para nunca mais me sabotar, como fiz até aqui.

Laura Conrado possui uma particularidade que eu gosto muito em suas narrativas, que é justamente a questão do se conhecer, ela sempre promove reflexões a respeito das inseguranças, dúvidas, medos, caminhos distorcidos que tentamos trilhar sem nos darmos conta do quanto são errados e fora do que realmente precisamos. Existe algo muito humano, verossímil em seus protagonistas e isso gera identificação, não é sobre ter “vilões” ou “heróis”, é sobre reconhecer o erro, aprender e evoluir, tentar ser alguém melhor sempre. E realmente é isso que importa.

Este livro em especial está com uma linguagem bem jovem, despretensiosa e acredito que irá conversar muito bem com o público alvo, já quem presa por uma narrativa mais clássica, talvez se incomode um pouco com as “gírias”. De modo geral é uma leitura rápida, envolvente, divertida e leve, que com certeza irá te fazer pensar e repensar algumas coisinhas. É importante frisar também que todo o realismo mágico é muito bem explicado. Até a próxima! Bye.

  • O Dia Depois do Fora
  • Autor: Laura Conrado
  • Ano: 2019
  • Editora: Bertrand Brasil
  • Páginas: 266
  • Amazon

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