Marlon é um adolescente estudioso e obediente, que se dedica quase que exclusivamente a trazer orgulho para a mãe viúva. Depois que o pai se foi, a família se reduziu a três, Marlon, a mãe e o irmão. Agora nem isso. Marlon precisa ser o completo oposto do seu irmão, um rapaz problemático, líder de uma gangue e que após um acidente precisa ser vigiado 24 horas por dia em uma casa de repouso. A mãe não precisa de mais decepções e preocupações. E por isso Marlon não se envolve com nada minimamente fora da lei. Ele é um rapaz direito, com futuro promissor e que anda sempre na linha. Ele pretendia continuar assim, até Sonya aparecer.

A verdade é que apesar de parecer ser um cara incrível, com boas notas e um ótimo gosto musical, Marlon não é do tipo interessante quando se trata de garotas. Ele é apenas o cara nerd da periferia, com um irmão criminoso. Então quando a garota mais incrível e desejada da escola enxerga nele um motivo de atenção, ele está mais do que disposto a quebrar algumas regras se for necessário. Mentir para a mãe que está estudando enquanto sai em um encontro excitante parece não ter nada de errado, até que tudo dá totalmente errado. Agora ele está sentado ao lado de uma garota morta, o bolso está cheio de drogas e a polícia jamais vai acreditar em um cara negro que tem um histórico criminoso na família. Marlon está desesperado para mostrar para a mãe que não é o monstro que o tornaram. Ele ainda é o mesmo garoto gentil e bem educado. Mas não bastasse a pressão de estar nessa posição, o jovem começa a ser ameaçado e agora precisará ser seu próprio herói enquanto encontra maneiras de permanecer fiel a si mesmo.

Os amiguinhos dela largaram meu irmão no meio da noite numa rua supermovimentada! Eles invadiram a minha casa, me bateram, me ameaçaram com uma faca! Essa era a história verdadeira! Cê vai contar tudo, então? Tá brincando? Olha o que aconteceu na primeira vez que você veio aqui. Todo mundo conhecia a história que eles queriam ouvir. E não era a minha.

Começo essa resenha tendo o cuidado de fazer os comentários certos, mesmo que a minha realidade seja totalmente distante da de Marlon. Em meu local privilegiado, é difícil ter a experiências necessária para julgar as atitudes do personagem. Porém, com um mínimo de empatia, e o pouco de conhecimento que possuo, vou tentar explicar por qual motivo Cores Vivas perdeu a chance de se tornar uma obra memorável na luta contra o racismo. Talvez nunca tenha sido a intenção da autora, Patrice Lawrence, abordar a questão de maneira mais crítica e talvez essa história tenha nascido para ser apenas uma história. Porém o enredo é rico e poderia ter abordado uma série de questões extremamente importantes sobre a sociedade como a conhecemos e as estruturas de distribuição de renda, ou mesmo o impacto da desigualdade social na vida dos jovens residentes das periferias.

No entanto, um livro nunca é apenas um livro, sempre saímos melhores após virar a última página. Algumas tramas são mais poderosas do que outras, e nos atingem com mais força, mas Cores Vivas não manteve o fôlego das primeiras páginas, e se perdeu em uma sucessão cansativa de repetições e escolhas erradas protagonizadas por Marlon. E já que falamos do nosso herói, é necessário abordar alguns aspectos de sua personalidade que o tornam um personagem totalmente humano, porém extremamente desinteressante. Marlon parece a princípio um jovem altruísta, que abdica de uma série de coisas comuns a adolescência em detrimento da obediência que ele destina a mãe. É claro que é uma responsabilidade grande demais para se carregar, e até injusta, quando pensamos que ele passa seus dias tentando compensar a progenitora pelos erros do irmão. É um fardo que ninguém merece carregar. Já é difícil demais lidar com as próprias expectativas, e estar disposto a carregar a do outro poderia ser belo, não fosse tão efêmero.

Sempre há uma garota bonita. E com Marlon não foi diferente. Bastou receber atenção feminina para se perder totalmente de seus princípios. Motivado por desejo juvenil, e uma paixão tão inverosímel quanto rasa,  Marlon trai a confiança da mãe e esquece a racionalidade em um universo muito, muito distante. Claro, estamos falando de um adolescente, é normal se ver vencido pelas paixões nessa idade, porém o vínculo entre Marlon e Sonya é simplesmente inexistente. A coisa mais revoltante da história é ver que tal relação, se é que podemos chamar assim, é usada como base para todos os próximos passos do protagonista dentro da trama. Ele usa seus sentimentos pela jovem, sentimentos esses que não sabemos de onde surgiu já que não houve qualquer construção, para atuar como um herói, mesmo que isso custe sua própria sanidade mental.

Marlon se refere muito ao irmão, ora com mágoa, ora com admiração, porém fica nítido seu desejo de alcançar na vida da mãe, um papel tão importante. Todos conhecem Andre. No mercado, na escola, o bairro todo parece conhecê-lo, já Marlon é apenas o irmão do Andre. Nunca o destaque, nunca importante o suficiente. É como se após uma vida inteira vivendo à sombra do irmão, ele finalmente encontrasse o próprio protagonismo e gostasse demais dessa posição para abrir mão dela pedindo ajuda. Quando as coisas saem do controle Marlon se liberta de suas amarras de bom moço e em nome de um heroísmo sem força tenta encontrar em Andre, justamente aquele que tanto tentou evitar, o exemplo que precisa para defender aquilo que acha ser o certo. Nem preciso falar que aqui a coisa começou a desandar e você só torce para ele voltar ao seu juízo perfeito. Você acompanha Marlon enquanto ele toma as piores decisões possível, e sinceramente, haja paciência.

A questão é que Marlon não confia na polícia. Em sua primeira e única experiência diante dessas autoridades, ele foi desacreditado e coagido. Marlon sempre escutou do irmão que a cor da pele pode dizer mais sobre você para a polícia, que qualquer coisa que saia da sua boca. No entanto, a abordagem do livro, em nada se compara com a realidade brutal enfrentada por outros jovens em situações parecidas, e foi nesse ponto que Patrice Lawrence perdeu uma bela oportunidade. Esse episódio vivenciado pelo protagonista junto aos policiais foi tão breve, que mesclado a uma série de capítulos rasos, é totalmente esquecido. Já não podemos usá-lo de justificativa para a recusa de Marlon em pedir ajuda quando se vê em uma situação que parece sem saída. Não é que ele não tivesse motivos. Sabemos que ele os tinha, porém como descrito no livro não foram o bastante para convencer.

O desfecho trouxe o famoso deus ex machina, e sinceramente, estou indignada até agora. Acredito que a autora tenha habilidade para fazer um encerramento adequado e satisfatório, mas eu realmente não sei o que aconteceu aqui. O ponto alto da história talvez seja unicamente as personagens femininas que são mulheres e jovens incríveis. A começar pela mãe de Marlon, que é uma mulher forte, amorosa, que defende os filhos com unhas e dentes mesmo tendo sigo castigada demais pela vida. A melhor amiga de Marlon, Tish, é uma adolescente empoderada, que cheira a liberdade. Ela luta em prol das próprias crenças e não tem medo de se posicionar, mesmo que isso a coloque frente a frente com o perigo. É sensata e tenta a todo custo colocar um pouco de sanidade no protagonista. Também conhecemos melhor Sonya, que mesmo sendo uma espécie de antagonista, mostra que tinha motivos nobres para as coisas erradas que fez, o que torna seu fim ainda mais trágico. A mãe e avó da jovem também recebem a devida atenção, deixando o livro um pouco mais palatável por assim dizer.

Eu sei que a opinião não é das mais positivas, mas eu gostaria de conversar sobre Cores Vivas com vocês, então leiam e deixem suas impressões nos comentários.

  • Orangeboy
  • Autor: Patrice Lawrence
  • Tradução: Cecilia Floresta
  • Ano: 2019
  • Editora: Darkside Books
  • Páginas: 348
  • Amazon

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