Muito antes da escrita, a humanidade já contava histórias. Podem não ter sido elaboradas minuciosamente como daqueles que nos agraciam com seus relatos fantásticos, mas elas possuíam camadas, sons, nuances que fisgavam o imaginário pré-histórico e, sobretudo, vinham carregadas de um propósito maior que os indivíduos presentes no recinto.
Qual motivo poderia ser tão urgente a ponto de homens, mulheres, velhos e crianças se reunirem em uma caverna ou sob a luz das estrelas? Passar conhecimento, ensinar lições e ainda entreter todos que se dispusessem a ouvir atentamente aquele que tecia todo o chirriar de uma melodia que mudaria o rumo da espécie humana: o contador de histórias.

De acordo com o romancista inglês E. M. Forster: “as histórias são imensamente antigas, elas remetem aos tempos neolíticos, talvez paleolíticos (…) A audiência primitiva era inquieta, amontoada ao redor da fogueira, cansada com a luta contra o mamute ou o rinoceronte lanoso, e só continuava acordada com o suspense: o que aconteceria em seguida?”
Quando antes as histórias eram usadas para ensinar como fabricar certos instrumentos, como a roda, preparar receitas, como a cerveja, como melhor caçar os animais ou a ensinar, muitas vezes através do medo, como uma pessoa deveria se comportar – aconselho pesquisar os contos de fadas originais, são assustadores – a audiência do menestrel voltava toda a sua atenção para esses fatos narrados. Hoje, com o avanço da tecnologia e das inúmeras distrações ofertadas à humanidade desde o útero, cativar e manter essa atenção pode se mostrar muitas vezes um desafio. É aí que entram, apesar de já caminharem há séculos neste reino, as histórias de terror.
Uma das emoções humanas mais fortes é o medo e quando o vivenciamos em uma situação fictícia tendemos a melhor lidar com nossos problemas na vida real; bem parecido com as descargas de adrenalina em situações que jamais nos imaginamos, inclusive catástrofes, que nos fazem realizar feitos que normalmente não consideraríamos possíveis.

10Partindo em uma viagem pela terra da memória, tenho certeza que você, assim como eu, possui lembranças de contações de histórias aterrorizantes. Sejam à beira da fogueira, quando faltava energia numa noite chuvosa, em uma festa do pijama, em brincadeiras com os amigos após assistir filmes ou séries horripilantes e em inúmeras outras ocasiões.
E durante esse mês do terror as histórias se tornam mais fortes, mais presentes e mais assustadoras, nos levando àquela pergunta insistente: por que nos sentimos atraídos pelo desconhecido?
Quando eu era criança, lembro que minha mãe sempre mencionava os feitos à lá halloween do meu avô. Como moravam em um pequeno povoado distante da cidade, sem energia elétrica, o imaginário corria solto e as peças e narrativas eram bastante elaboradas para assustar as crianças sempre que o sol se punha. Imagine o cenário: uma casa avarandada de taipa, por trás da residência um açude e uns cinquenta metros dele um pequeno banheiro, nos arredores uma plantação de milho com um espantalho feito para afugentar pássaros e curiosos; todos os elementos perfeitos de um filme de terror, certo? Em uma época sem luz, televisão e internet, levantar-se numa madrugada de lua cheia para usar o banheiro do lado de fora da casa após ter ouvido uma das velhas e assustadoras histórias do seu Maurício era uma tarefa hercúlea e o preferível seria esperar pelo amanhecer. Eu sei que eu esperaria, afinal quem nunca ouviu a lenda do chupacabra?
Independente do grau de horror, todos nós gostamos de levar um bom susto de vez em quando. E para aqueles que já passaram tardes inteiras sentados no chão na frente do televisor durante a bela infância, como não lembrar do Clube do Terror? Seriado dos anos 90, com o nome original Are You Afraid of the Dark, cuja premissa simples e atrativa trazia ao telespectador alguns adolescentes que se reuniam à beira da fogueira para compartilhar contos sobrenaturais, servindo de introdução para muitos nesse meio. Episódios esses que me deixaram muitas noites acordada, ouso dizer!
Mas, novamente, por que adoramos histórias de terror?
Mencionei anteriormente o medo como uma diretriz para essa atração. No cérebro, o hipocampo e a amígdala cerebral são responsáveis pelo controle desta emoção. São essas estruturas que liberam os neurotransmissores dopamina, endorfina e adrenalina responsáveis pela reação do corpo. Alguns psicólogos acreditam que o interesse por essa temática faz parte da busca pelo prazer e que ao sentirmos medo, a dopamina que é liberada em grande quantidade cria uma sensação prazerosa quando percebemos que não há um risco real.
Graças ao nosso poder imaginativo, muitas das histórias que ouvimos chegam a parecer verdade já que nosso cérebro trabalha incansavelmente para que visualizemos toda a narrativa perante nossos olhos ou quando eles se fecham e caímos no sono mais profundo regado por sonhos e pesadelos. Os arrepios na nuca, o frio na espinha, a sensação de ter mais alguém no recinto, os pelos eriçados, o suor gelando a pele e o coração acelerado são consequências de uma boa narrativa aterrorizante e, se você vivenciou tudo isso, seja ao redor da fogueira ou não, é porque, mesmo que por alguns minutos apenas, foi extremamente e assustadoramente real. Agora a pergunta que resta é esta: o quão certo você está de que tudo não passou de uma simples história de terror?

Clube do Terror, 1990 – 1996




10 Comentários
Oi, Rafaela
Essa série vi alguns episódios e gostei, na época da capa já certo medo.
Tinha muito medo quando meu vó contava os famosos causos sobre mula sem cabeça, lobisomens, alma penada entre outros e ele ficava com a vela na mão e arregalava os olhos.
Pensando bem concordo que se assistir ou ler terror pode nos preparar mais emocionalmente.
Beijos
Olá! Confesso que faço parte do time dos medrosos e se puder escapar de uma história de terror pode ter certeza que o farei, mesmo achando menos assustador (se é possível) assistir ao um filme do gênero do que ler, ambos me tiram da minha zona de conforto, por isso, evito ao máximo.
Rafaela!
Nossa! Seu texto me trouxe grandes recordações.
Sou dos anos 60, onde não havia internet e brincávamos na rua, ao ar livre e lá em casa tinha uma gramado enorme, enorme mesmo. Costumávamos juntar nossos coleguinhas vizinhos, eu meu irmão e um primo e montávamos uma barraca grande com todo mundo dentro, no escuro e só com lanternas e cada um contava uma história ou lenda urbana, nossa… muitos saíam correndo com medo e meu irmão, mais que medroso, nem dormia depois..kkk Era muito bom.
Sem contar que amava assistir o Clube do terror!
Muito boa suas conjecturas.
Terror faz bem, apesar da sensação de medo passageira.
cheirinhos
Rudy
Oii, adorei a matéria. Pessoalmente, eu gosto da adrenalina e do desafio que as histórias de terror proporcionam, essa coisa de se arriscar em um território desconhecido e superar (ou não) os medos. Muito do terror também tem uma razão de ser, como a própria maldade humana, alguma lenda, alguma história por trás, e eu tenho muita curiosidade em descobrir esse tipo de coisa.
Abraços!
Eu nunca pensei por esse lado, é bom saber como nosso cérebro trabalha quando sentimos medo, embora eu não goste muito da sensação.
Nunca vi Clube do Terror, mas eu gostaria muito de ver, vou procurar
Ouvir estorias de terror como mula sem cabeça ,chupa cabra era algo tão natural na nossa infancia .hoje as crianças já não tem mais essa experiencia .
eu tinha um tio que gostava de contar estorias de assombraçao ,falava que via procissões de pessoas segurando velas e depois sumiam do nada . a gente ficava superligado e com um medinho tambem .
Sim, histórias de terror são excelentes! Confesso que não é um gênero que eu leio sempre, mas acho que vale a pena conhecer novas escritas, identificar quais nos causam mais medo…
Acho que a gente gosta mesmo por ser uma coisa meio fantasiosa, não sabemos o que uma história assim pode trazer de mais medonho.
Preciso confessar que não sou muito corajosa quanto à esse gênero hein, e evito ler a noite kkkkkkkkkk
Oi, Rafaella!
Acredita que eu nunca tive coragem de assistir ao Clube do Terror? Mas assim, é muuuito famoso e marcou a infância de muitas pessoas, seja de um aspecto positivo ou não, né? Hahahaha
AMEI você explicando, de forma cientifica (que chique), a razão pela qual mesmo tendo medo, nós nos permitimos escutar, ler e até mesmo vivenciar histórias de terror. Além disso, acho que também tem a curiosidade.
A historia de terror geralmente tira do conforto né, talvez isso ja da um gostinho de querer sentir tal coisa e tals. Mas nao sei contar essas historias, nem piada, sou mais de ouvir (as 12:00 da tarde se possivel rsrs)
Clube do terror!!!! rs
Ah,estou vendo a nova roupagem dessa série. Eu não me recordava dela “das antigas”(minha mãe era meio sistemática em relação a tv e medo)
Mas como sou de interior, a gente cresceu sentada nas rodinhas nas ruas de chão batido, ouvindo histórias sobre lobisomens, mulas sem cabeça e todas as coisas possíveis e o engraçado é que isso não se resumia a Halloween não, pois naquela época, a data nem era comemorada como é aqui hoje em dia.
Eu amo..rs só sei disso!!!
Beijo