Há alguns meses, eu decidi que leria mais livros com temática feminista em suas histórias e livros de não-ficção que abordem o feminismo. Foi assim que cheguei em De Quem é Esta História, da Rebecca Solnit, escritora estadunidense que aborda em suas obras, temas como: feminismo, ambiente, política, localização e artes. Além disso, o termo “mansplaining” surgiu em um dos seus artigos.

De Quem é Esta História? Feminismos para Tempos Atuais apresenta um compilado de artigos escritos e publicados pela autora entre 2021 e 2019. Seu objetivo aqui é debater sobre quem está escrevendo as narrativas atualmente, já que vivemos em uma época em que estamos caminhando para um futuro em que mulheres, pessoas não brancas, não binárias e não heterossexuais estão finalmente contando suas histórias e ganhando espaço. Assim, seus 20 ensaios, passam de assuntos como leis do abordo a luta pelo clima.

Eu tive uma surpresa lendo este livro, eu acreditava que os temas seriam abordados de forma geral pela autora, englobando talvez um contexto mundial. Contudo me enganei, temos aqui textos focados na realidade dos estadunidenses e/ou no que estava acontecendo nos Estados Unidos quando foram escritos. É claro que muitos debates são universais, pois encontramos os mesmos problemas na maioria dos países.

…pode-se impedir as mulheres de ter acesso ao aborto, mas não é tão fácil impedi-las de pensar que têm direito ao aborto.

A primeira coisa que vocês tem que saber é que esse livro é extremante político. Não só pelo fato de falar sobre assuntos que se propõe, pois isso, por si só já se torna um livro político, mas sim pelo fato de ter textos que apontam o presidente Trump, vários outros políticos do país e momentos de eleição. A autora relata nomes de muitos candidatos que fazem leis absurdas contra as mulheres e conta também o nome de muitos que são acusados de abuso. É realmente bem assustador, pois como são homens brancos e poderosos, nada punitivo acontece com eles.

Eu gostei muito de como ela começa a apresentação dos textos, logo na introdução ela fala sobre o caminho da mudança que estamos passando, e em como esse processo é lento e coletivo. O importante salientado por ela é que quando o movimento, qualquer que seja, seja atacado por alguém, que ao invés de criticar aquela pessoa, a gente seja capaz de estender a mão e mostrar a ela que ela está enganada sobre o que diz. Assim, teremos a capacidade de mostrar o que realmente queremos e defendemos. Nada de atacar como somos atacadas!

Na maioria dos textos a autora fala sobre a supremacia branca do país e de como ela impacta negativamente nas políticas. A violência doméstica em cidades predominantemente brancas e com pessoas com renda alta é assustador. Há no livro um artigo que mostra essa parte da violência relacionada a época de campanha eleitoral, onde os maridos obrigam as mulheres a votaram em seus candidatos e as proíbem de receber candidatos do outros partidos em suas casas.

No artigo sobre o aborto, Rebecca mostra como alguns estados são atrasados quando o assunto é a escolha da mulher. Algumas leis são tão rigorosas que buscam punir inclusive as mulheres que sofrem com abortos espontâneos, como é o caso do Alabama. O Alabama, inclusive, é exemplo de tudo de ruim que tem nesses textos. Eu fiquei impressionada com o pensamento conservador desse povo!

Há dois artigos muito interessantes sobre o que se espera da mulher no mundo do trabalho e sobre a diferença que vemos a raiva de um homem contra a raiva de uma mulher. É claro que a mulher é sempre a histérica! Um dos textos que mais gostei foi “O Herói é Um Grande Desastre”, que a partir da análise do filme Uma Mulher em Guerra, a autora reflete sobre o papel do herói e da heroína. Inclusive ela fala de uma forma muito interessante sobre Katniss Everdeen e o final de Jogos Vorazes.

Eu consegui ver através dos textos de Rebecca que algumas preocupações são recorrentes em seus textos, sendo uma delas as cidades como representação das mulheres e de suas conquistas. Normalmente quando analisamos os nomes de ruas e dos monumentos, eles são praticamente todos masculinos, então ela discorre sobre a importância de termos o feminino presente na identificação do local no qual pertencemos. Achei genial ela mostrar o mapa “Cidades das Mulheres”, um dos 26 mapas do atlas Nonstop Metropolis, que mostra Nova York com ruas com nome de mulheres.

São muitos os pontos levantados pela a autora, e fica claro que ainda temos muito que lutar para mudar diversas realidades. De Quem é Está História é um excelente livro sobre feminismo como centro das relações sociais. Eu aprendi muito com essa leitura!

  • Whose Story Is This? Old Conflivts, New Chapters
  • Autor: Rebecca Solnit
  • Tradução: Isa Mara Lando
  • Ano: 2020
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 216
  • Amazon

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