Existem livros que nos transportam para outros mundos, nos fazem imaginar novas raças, seres mitológicos, nos levam para um faz de contas que busca expurgar, ao menos por algum tempo, todas as mazelas que possam nos assolar no mundo real.

Há, porém, aqueles livros que são bem enraizados na realidade, ainda que em séculos anteriores e quilômetros distantes de nós. Livros que nos contam histórias fenomenais, que nos ensinam muito mais do que poderíamos imaginar, que trazem figuras reais, desmistificando-as e mostrando suas facetas humanas que foram, chocantemente ou não, tão frágeis e sucessíveis a erros quanto nós próprios somos.

Quando penso em livros dessa estirpe, penso na escrita da inglesa Taylor Caldwell que soube retratar de forma extensa a vida de uma das figuras mais importantes do cristianismo, o apóstolo dos gentios, São Paulo, o Leão de Deus, ou, como era conhecido naquela época, Saul de Tarshish ou Paulo de Tarso.

Há alguns anos atrás, li pela primeira vez este romance histórico biográfico de São Paulo após ter finalizado a leitura do igualmente brilhante Médico de Homens e de Almas, que retrata a vida de Lucano ou São Lucas. Apesar das extensas páginas e de ainda ter a história fresca na memória, nesta releitura me surpreendi com a fluidez da escrita que funcionou como a água que sacia aquele que tem sede.

Em O Grande Amigo de Deus, Taylor Caldwell presenteia o leitor com sua profunda pesquisa histórica e amplo conhecimento bíblico, pontuados pelo romance que compõe a figura do judeu Saul nascido em Tarso, capital da Cilícia.

Passional, enérgico, ativo, corajoso, leal e capaz de ideias elevadas e poéticas, Paulo, antes de apóstolo e santo, era apenas um homem cujo temperamento variava do dócil e gentil ao mais explosivo e obstinado dos fariseus. Graças a sua origem judaica e a importância e riqueza de sua família, foi versado em várias das línguas antigas, nos costumes de outros povos, como os romanos, além de sua própria etnia e na rigorosa lei dos fariseus, sendo ensinado a possuir o orgulho racial e intelectual judeu presente em grande escala naquela época.

Ele os achava fúteis, fracos, superficiais e frequentemente tinha pena de Reb Isaac por ser professor deles. Eles não reverenciavam verdadeiramente a Palavra de Deus nem eram profundamente piedosos. Eram desatentos. Por isso ele, Saul, deveria evita-los, a fim de não ser arrastado para o poço.

Mostrando-nos a face humana de Paulo, repleta de dúvidas e fraquezas como os demais de sua espécie, Caldwell tece os anos de sua infância, sua formação como homem, tendeiro, erudito, advogado e teólogo fariseu, intercalando com suas próprias paixões e mazelas que por muito pareciam sufoca-lo enquanto lutava com sua própria visão do que sempre foi o certo e familiar e do que era novo, na figura do jovem Messias e no emergente cristianismo.

Ao longo da história, a autora nos transporta muito além da personalidade e vida de Saul, ela nos leva pelos locais da antiguidade, para a Jerusalém dominada pelos romanos, as tensões entre os radicais zelotes – jovens judeus que constantemente buscavam expulsar o império romano de Israel em nome de Deus – e os oficiais romanos, nos faz adentrar nas páginas como se realmente estivéssemos lá quando tudo se sucedeu. Nos faz refletir que a fé pode converter homens com atos maus em grandeza e bondade, como o próprio Saul que por anos perseguiu os cristãos, que foi acometido muitas vezes por febres e episódios mortais, que Deus muitas vezes o buscou e ele O renegou crendo estar louco, que o preconceito cego só tem a prejudicar a mais vibrante das almas.

O Grande Amigo de Deus pode ter sido escrito nos anos 1970, pode nos contar a história de um simples homem que se tornou um dos mais importantes do cristianismo, pode apresentar os acontecimentos de mais de dois mil anos antes de Cristo, mas ainda assim é extremamente atual quando refletimos profundamente sobre. Apesar de várias referências ao Messias, de ter visto Jesus em sonho e a sua frente, Saul foi tão teimoso como nós o somos ao renegar algo elementar que está bem a nossa vista. Em seu caso, ele precisou ficar cego para realmente ver.

A escrita erudita de Caldwell e suas reflexões acerca da sociedade da época, seus altos e baixos, se assemelham assustadoramente com os atuais acontecimentos no mundo. Como disse Aristóteles muito antes de Cristo, um povo que não aprende com a história está fadado a repeti-la. As inúmeras tentativas de suprimir a liberdade do homem, perseguições, guerras e tiranos que oprimem o povo… vivemos em um ciclo onde tempos difíceis criam homens fortes, que por sua vez criam tempos fáceis e homens fracos, estes que, por último, acabam por conjurar tempos difíceis.

O judeu-cristianismo, que ele diligentemente espalhou pelo mundo, é o alicerce da jurisprudência, moral e filosofia modernas do Ocidente, e que, graças a seu vigor espiritual e mental, esforço e justiça, praticamente nos últimos 2.000 anos criou na verdade uma nova sociedade e fomentou a causa da liberdade. Não é de admirar, pois, que os inimigos da liberdade ataquem primeiro a religião, que liberou a humanidade.

Uma leitura que recomendo para todos. Seja como processo de estudo, para reflexão ou simplesmente para conhecer um pouco da história de São Paulo, em O Grande Amigo de Deus você irá percorrer o caminho do homem, irá se apaixonar, se decepcionar com seus semelhantes, buscar erradicar o que você considera e lhe foi ensinado como errado, irá perseguir, irá sofrer, mas também irá se levantar, sorrir, viver, se converter e ajudar a espalhar o amor e a liberdade que advém do Filho de Deus mesmo que você mesmo seja incompreendido por isso.12/

  • Great Lion of God
  • Autor: Taylor Caldwell
  • Tradução: Octávio Alves Velho e José Sanz
  • Ano: 2020
  • Editora: Record
  • Páginas: 574
  • Amazon

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