Em Império Final, primeiro livro da trilogia Mistborn: Nascidos da Bruma, de Brandon Sanderson, acompanhamos um mundo devastado, coberto por cinzas e com misteriosas brumas que aparecem assim que o sol se põe. Este mundo é dominado há mil anos pelo Senhor Soberano, um imperador que é visto como uma divindade imortal e que separou a sociedade em nobres e skaa. Logo no início desta história reconhecemos as árduas condições de vida impostas aos skaa, que quando não passam por exaustivas jornadas de trabalho, vivendo sem ter o acesso necessário a condições básicas à vida como água e comida, tornam-se parte de um submundo de gangues, permeado por roubos e golpes.

É nesse submundo que conhecemos Vin, uma garota órfã que passou sua vida participando de gangues e esperando pela próxima vez que seria traída. Quando Vin descobre que tem poderes alomânticos, ou seja, a capacidade de absorver metais e a partir deles extrair habilidades, junta-se a um grupo de poderosos alomânticos liderados por Kelsier, um Nascido da Bruma, com o intuito de aprender mais sobre esses poderes. Kelsier, no entanto, tem um plano maior para pôr em prática: destruir o Império e depor o Senhor Soberano.

Comecei a ler Império Final sem saber nada sobre a história além dos inúmeros elogios e da grande quantidade de fãs que a trilogia havia angariado, e acabei encontrando diversos aspectos que tornaram esta história uma das minhas favoritas dentro do gênero fantasia. Primeiramente pela alomância, o sistema de poderes apresentado nesta narrativa, ter sido inédito para mim até então. Quem tem costume de ler fantasias está habituado a certas formas de “poderes especiais”, como lidar com os chamados quatro elementos (água, fogo, terra e ar) ou a tradicional magia com feitiços e poções. A alomância, no entanto, escapa dessas formas tradicionais, criando um sistema de poderes inédito e complexo, além de muito bem explicado em pormenores ao longo do livro. 

Outra das razões pelas quais gostei muito deste livro foram os seus personagens. Desenvolvidos com tridimensionalidade, todos os membros da gangue de alomânticos de Kelsier me cativaram com suas características particulares, mas o que mais me envolveu foi o laço de amizade e lealdade desenvolvido entre eles. Ao ler o livro, me senti inclusive como parte desse grupo, ficando feliz com os momentos afetuosos que os personagens viviam juntos e preocupada com os perigos que corriam. Ficou evidente também que o autor teve a intenção de trabalhar estas temáticas a partir da personagem Vin, cujo passado sofrido e cheio de preocupações com traições a levou a observar aquelas relações entre os outros personagens e a refletir sobre amizade, lealdade e confiança.

O principal ponto forte desta história para mim, no entanto, foi que Império Final se utiliza da fantasia como uma forma de narrar de maneira fluída e divertida uma história que, na realidade, é de forte crítica social e política. A própria sinopse evidencia isso, já que o objetivo da gangue de alomânticos é o de derrubar o Império. Este é visto como um sistema de exploração da população mais pobre, os skaa, que trabalham excessivamente, passam fome, têm baixa expectativa de vida e são frequentemente submetidos a inúmeras violências físicas por mero capricho dos nobres. 

Essas críticas são envoltas por uma narrativa ágil e divertida que mostra os espertos planos traçados para derrubar o Império e que traz diversas cenas de ação para mostrar a execução desses planos. Isso impede que a narrativa deste livro se torne maçante ou didática: é claramente um livro de ficção, com suas devidas doses de profundidade e entretenimento.

“Rodeados pelo majestoso salão, os nobres vestidos de gala pareciam diferentes, de algum modo. Distintos. Seriam as mesmas criaturas que espancavam seus amigos e escravizavam os skaa? Pareciam tão… perfeitos, tão bem educados para cometer atos tão horríveis.

É por estas razões que recomendo Mistborn: Império Final a qualquer pessoa que deseje ler uma fantasia diferente, que proporcione reflexões e entretenha ao mesmo tempo. É uma pena que atualmente esta trilogia não esteja mais sendo publicada no Brasil, já que a antiga editora, a Leya, não detém mais os direitos de publicação do autor. Resta ler em outras línguas, para aqueles que têm essa possibilidade, e realizar movimentações para que alguma editora venha a ter interesse em publicá-lo. Tenho certeza de que muitos outros leitores ainda se apaixonariam pelo universo de Mistborn como eu me apaixonei.

  • Mistborn - The final empire
  • Autor: Brandon Sanderson
  • Tradução: Marcia Blasques
  • Ano: 2014
  • Editora: LeYa
  • Páginas: 608
  • Amazon

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