Nix é uma marinheira viajante do tempo, a bordo do Temptation, um navio com estilo caravela, onde seu pai, mais três tripulantes e ela, navegam não apenas sobre os sete mares, mas também, através do tempo, sendo capazes de se deslocar para qualquer época ou lugar, desde que tenham o mapa certo. E este é o papel de Nix, ela é especialista em ler mapas e decifrar se são ou não originais, válidos para o próximo destino. Para que as viagens funcionem os mapas precisam ser bem específicos, desenhados a mão, com requinte de detalhes e datados.

Entretanto, mesmo que possam estar em qualquer época ou lugar, o pai de Nix, o único que sabe como navegar através da névoa e mapas detém uma obsessão, voltar para Honolulu em 1868, data em que supostamente Nix nasceu e sua mãe faleceu. O problema é que nenhum mapa funcionou até agora, o que lhe causa profunda tristeza. E ainda que todas as tentativas tenham sido frustradas ele jamais desiste e está sempre a procura de um novo mapa, dando voltas e voltas, até uma nova tentativa.

(…) Eu tentei, mas… — Como explicar as dúvidas, a incerteza enlouquecedora daquelas horas terríveis? A lembrança era confusão de momentos sombrios, desconexos, como destroços em um vasto mar de medo, e as palavras se transformaram em areia em minha boca.

O problema desta obsessão é que voltar para Honolulu em 1868 significa jogar Nix ao desconhecido, sem saber o que vai acontecer com ela, fato este que parece não preocupar seu pai, já que ele sempre deixou bem claro que a trocaria para poder reencontrar a esposa.

Nix cresceu a bordo do Temptation e apesar de na infância ter recebido carinho de seu pai – Slate e capitão do navio -, isso não perpetuou ao longo dos anos, os jogando em um relacionamento complicado. Por diversas vezes ela pensa em fugir, comprar seu próprio navio e zarpar pelo mundo, mas apesar de ser uma ótima cartógrafa, ela nunca aprendeu a navegar, já que seu pai sempre se recusou em ensiná-la. Ela acredita que tal resistência seja porque ele precisa dela para encontrar o mapa perfeito que irá levá-lo de volta para os braços da mulher que ama, e não porque ela é sua filha e ele teria algum tipo de amor por ela.

E esse relacionamento complicado é palpável para o leitor, pois sentimentos toda tensão, culpa e necessidade de compreensão que ambos exalam. Nix tem medo do que pode acontecer com ela, caso seu pai realmente consiga retornar e alterar a linha do tempo e em contrapartida, sofre com a culpa de vê-lo tão infeliz e obcecado com essa viagem. Um misto de emoções que a persegue por toda a narrativa. Principalmente quando Slate encontra o mapa que pode ser o certo, ameaçando sua existência pra sempre.

The Girl From Everywhere é o tipo de livro que te suga pra dentro da trama e seus mistérios, te deixando apreensivo e ansioso pelo que está por vir a cada nova virada de página. Nix é uma protagonista jovem, mas muito madura, inteligente e determinada. Que está tentando se encontrar, estabelecer seu espaço e até mesmo se impor. Ela luta com as armas que têm. Todos os personagens são atraentes de alguma forma, e deram ao enredo uma representatividade interessante. Aqui temos um enredo que se conecta, faz sentido, que traz criaturas mágicas e mitológicas, que se encaixam muito bem na trama. É uma história que se fecha bem, ainda que deixe uma brecha pelo que está por vir.

(…) — Quando era jovem aprendi a contar com a perda. Cada vez que dormia, alguma coisa desaparecia. Cada vez que acordava, alguém tinha ido embora. Mas… também aprendi que criamos alguma coisa nova todos os dias. E seja o que for, vivemos essas coisas enquanto elas duram. Gastamos o dinheiro quando ele está no bolso. (…) comemos a fruta quando ela está madura. (…) Paraíso é uma promessa que nenhum deus se incomoda de cumprir. Só existe o agora, e amanhã nada será igual, gostemos disso ou não.

Eu gostei muito da forma como a autora construiu seus personagens. Amei os cenários, a riqueza de detalhes, como tudo foi muito bem pensado e solucionado como um imenso quebra-cabeça que vamos encaixando peça por peça. É um livro rico de mitologia, de seres mágicos, com fatos históricos reais, que faz com que realidade e ficção se misturem. Uma leitura rápida e fluída, que promove algumas reflexões relevantes como lealdade, amizade, família, sacrifício, pertencimento, confiança e amor.

Buscando por aventura, ação, viagem no tempo e uma protagonista feminina forte? Aqui temos todos esses elementos.

  • The Girl From Everywhere
  • Autor: Heidi Heilig
  • Tradução: Débora Isidoro
  • Ano: 2017
  • Editora: Morro Branco
  • Páginas: 414
  • Amazon

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7 Comentários

  • ELIZETE SILVA
    02 fevereiro, 2020

    Olá! Estou com esse livro aqui na estante, aguardando o primeiro chegar para poder dar início a essa leitura, que parece ser maravilhosa, gosto muito que temos uma personagem girl power, que luta por aquilo que ela quer, o seu relacionamento com o pai aparenta ser bem complicado, torcendo para que eles possam resolver essa relação e que possam, juntos, desvendarem os mistérios por trás desses mapas.

  • Nyttah M.
    02 fevereiro, 2020

    Nossa, tudo isso em só 414 páginas? Curiosa quanto ao fato da relação tensa e mesmo assim um precisar do outro: um exímio navegador, a menina desvendando os mapas. E o restante da tripulação como será qur lida com um capitão obcecado, não por uma baleia, mas por um período especifico no tempo e espaço? Mesmo tendo inúmeras escolhas a seu dispor? Wishlist já! Obrigada por mais um indicação!!!??

  • Rayane S.
    02 fevereiro, 2020

    Nossa gostei muito do enredo, nunca li nada parecido. Adoro livros que envolvem aventuras e mitologia. Lendo sua resenha fiquei com uma peninha na Nix, quero muito entender esse conhecer melhor esse relacionamento entre ela e o pai. Estou bem ansiosa por essa leitura!!

  • Bruna Prata
    01 fevereiro, 2020

    Quando eu estiver em busca de um livro que me passe um sentimento de aventura, já sei onde encontrar!
    Já tive a oportunidade de ler esse livro, mas acabei desistindo, uma pena, pois não sabia nem de 1/3 do que a trama realmente se tratava.
    Eu simplesmente amo quando as personagens jovens são fortes e maduras, o tanto que nós, leitores, aprendemos com eles é encantador!
    Estou muito curiosa para saber como é o desenrolar dessa aventura, sobre a mãe da Nix e a relação com pai.

  • Angela Gabriel
    01 fevereiro, 2020

    Protagonista forte!!!! Que delícia ler isso na resenha e olhar a resenha como algo assim. Uma aventura, onde uma menina tão jovem é capaz de tantos feitos e de viver isso com sabedoria.
    Ser criada nessa embarcação e com isso, aprender de fato, a lidar com as fases da vida.
    Fazia tempo que não lia ou via sobre este livro. E com certeza, deu maior vontade conhecer sobre Nix,sua viagem no tempo, sua família e suas aventuras!!!
    Beijo

    • Atitude Literária
      01 fevereiro, 2020

      Oiii Angela, Nix é uma jovem que encanta. Crescer em um navio, tendo um pai praticamente frio, que a trata como qualquer outro membro da tripulação e ainda assim ser forte e querer vê-lo feliz, não é pra qualquer um. Ela brilha neste primeiro livro justamente por viver essa dualidade de emoções, que é ajudar o pai, talvez tentar encontrar com a mãe, ao mesmo tempo em que não faz ideia do que irá acontecer com ela, caso o passado seja alterado. É um misto de euforia e culpa. Vale muito a leitura, principalmente se assim como eu, você for uma nova leitora de fantasia e ficção cientifica. Beijos