Escritores prodígio precisam de oportunidades para demonstrar seu talento literário, caso contrário, como descobriríamos os novos clássicos do século? Onde encontraríamos a chance de reconhecer uma potência quando tudo o que se destaca nos holofotes são as mesmas fórmulas rentáveis que tanto cativam os corações dos leitores, mas tanto homogeneízam o mercado literário? Ao reduzir a necessidade futura de arqueologia, ou as revisitações histórias que buscam fazer justiça aqueles cuja voz foi silenciada por uma sociedade indisposta a reconhecer a validade e verdade de suas palavras, a literatura repara, pouco a pouco, erros recorrentes … porém, ao elevar e elogiar ao extremo alguns escritores iniciantes, ela também cria armadilhas para aqueles que, por seus privilégios, ganharam destaque, mas ainda carecem de habilidade, lapidação e maturidade.

Foram esses os pensamentos que marcaram minha visão de Lázár. Ao finalizar a leitura, não pude impedir minha mente de questionar o fato de que esse menino, cujo lado paterno remete à nobreza húngara, estudado em cinema e língua alemã, empregou muito bem seus privilégios a fim de conquistar a descoberta e publicação literária. Ao ter as portas abertas para si, a crítica e equipe de marketing garantiu ao prodígio, não apenas bons contratos de publicação e tradução, mas também a construção da arapuca necessária para que novos leitores se encontrassem com uma narrativa que imita os clássicos, como muito bem salientam as aspas “[…] entra em cena em pleno domínio de sua escrita” e “um grande talento literário”, mas que peca em arremate, maturidade e profundidade.
Nelio Biedermann queria ser uma potência para seu país, e acredito que um dia o será, mas, aqui, como avisaram-me alguns comentários em alemão que muito gentilmente o Google Tradutor auxiliou a traduzir, lhe faltava entender que ele não precisava fingir sobrenaturalidade, instigar a história sem efetivamente explorá-la, levantar temas tão delicados como os abusos da guerra e o que a sociedade fez e faz às mulheres, sem nunca expressar a opinião e o tato que definitivamente não tem sobre tais assuntos.
Se o que queria era narrar a trajetória de sua família nobre ao longo do século XX, destacando como também foi afetada, como também sofreu e o que fez para auxiliar no período de crise nacionalista enfrentado pelo país, bastava narrar a trajetória de sua nobre família … com seu grande talento literário e pleno domínio de escrita, isso bastaria para elevar a narrativa ao nível dos clássicos, como se fez no passado e, tenho certeza, se fará no futuro. Mas, ao buscar abraçar e inserir mais temas do que lhe era humanamente possível trabalhar, o jovem escritor deixou diversos pontos se perdendo ao longo do caminho e, para o leitor, promessas que não pode cumprir.
“Mas seria ele diferente dos demais? Seus atos eram os mesmos, e o que mais importava? De que adiantava para essas pessoas, que andavam no próprio cortejo fúnebre, o fato de ele rejeitar profundamente o regime a que servia?”
Lázár, em essência, nada mais é do que uma narrativa de amadurecimento de personagem, uma espécie de coming of age ou jornada do herói onde não existem desafios trabalhados de maneira satisfatória a fim de possibilitar que o leitor sinta a profundidade, veracidade e complexidade dos problemas enfrentados pelos personagens. O que encontramos aqui, resumida e simplificadamente, é um acompanhamento da vida de Sándor von Lázár, o patriarca herdeiro do imponente e sempre presente castelo da montanha, em sua dinâmica financeira e investimentos. Partindo dele, também observamos fragmentos e momentos do cotidiano da família, o nascimento do filho Lajos Lázár, as excentricidades da nobreza, as mudanças para cidades metropolitanas, insinuações de vivências no internato, detalhes de um primeiro amor, as tentativas de fuga do regime e a constante alienação do protagonista com relação a tudo o que lhe cerca, mesmo quando aquilo que lhe cerca afetava de maneiras profundas e diretas.
O livro não vai além disso pois não se dá ao trabalho de explorar temáticas. A sobrenaturalidade da floresta e lago que circundam o castelo da família não passam de momentos narrativos que não se conectam a nada e não chegam a lugar nenhum. A loucura que parecia permear membros da família não é explorada ou abordada de forma convincente, parecendo mero capricho do escritor. As vivências traumatizantes que integrantes da família parecem ter vivido não causam o impacto necessário pois estão distribuídas aleatoriamente sem dar-se ao trabalho de aprofundamento, sentimento, comentários e críticas. As atrocidades da guerra e, aquilo que a ascensão de regimes nacionalistas totalitários causa a vida das mulheres, são meramente anunciadas, servindo como momentos de choque que não chocam ninguém devido a falta de tato com que são exploradas. Por fim, toda a rica contextualização histórica que poderia existir e que tão pouco é abordada no âmbito acadêmico escolar, sempre tão focado na Alemanha, Itália e Rússia, também sofre perdas terríveis, uma vez que as mudanças histórico políticas não chegam ao leitor, pouco são delineadas pela narrativa e não tomam espaço da mente alienada do protagonista.
Pela diversidade, curiosidade e interesse em literaturas provenientes de “novos” ou “diferentes” países, novos escritores e novos ares, Lázár é um bom livro. Sua história abre caminho para que leitores se interessem por livros com certo destaque e prestígio, possuindo diferencial e inspirações clássicas, mas cujo patamar não se encontra no padrão best-seller. Para além de tais potenciais, a maneira como o livro é apresentado e vendido pode induzir a uma visão da obra que não condiz com aquilo que entrega… Lázár não é um clássico contemporâneo (ainda) e seu escritor (ainda) não atingiu o patamar ao qual tentam elevá-lo, isso pode acontecer no futuro, porém, hoje, esse é apenas um livro interessante de um escritor iniciante que tentou mais do que suas habilidades atuais permitiam… e não existe nada de errado nisso… erro é elevar um prodígio a ponto de, talvez, fazê-lo acreditar que já atingiu o patamar que outros autores, com o tempo e muito empenho, conseguiram atingir.

- Lázár
- Autor: Nelio Biedermann
- Tradução: Kristina Michahelles
- Ano: 2026
- Editora: Record
- Páginas: 291
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