Boyhood

Lançamento: 30 de Outubro de 2014
Com: Ellar Coltrane; Patricia Arquette; Ethan Hawke
Gênero: Drama
No ano de 2002, a exatamente 13 anos atrás, Richard Linklater (diretor de filmes como Escola de Rock e Antes do Amanhecer) teve uma ideia, uma inspiração. Ele escolheu seu objetivo e se lançou em uma jornada longa e incerta, porém pura e bela. Esse homem que conseguiu me fazer rir e admirar Jack Black em Escola de Rock, voltou seus olhos para o simples, o cotidiano, o normal. 
Ele selecionou um elenco de nomes conhecidos e desconhecidos e, longe dos holofotes, começou a rodar um filme que levaria 12 anos para se ver pronto. Após esses 12 anos, e através de reuniões realizadas com o elenco todos os anos para a gravação de algumas cenas, o filme se viu completo, editado e preparado para ver a luz do mundo. Boyhood foi lançado em 2014, e desde então vem recebendo destaque e algumas críticas positivas, e hoje eu estou aqui para compartilhar com vocês as minhas impressões e opiniões sobre esse filme.


Boyhood está focado no ordinário, na beleza da simplicidade da vida comum, na beleza que é a vida de cada família, destacando os erros, acertos, problemas e acima de tudo o amor que gira em torno dos membros dessa família. O filme nos apresenta a jornada de Mason (Ella Coltrane) filho de pais separados, ele desde pequeno, se vê diferente, único como qualquer outro ser nesse mundo, mas igual a muitos outros filhos e filhas ao redor da Terra. Mason e sua irmã Samantha (Lorelei Linklater) desde pequenos devem conviver com a ausência do pai biológico (Ethan Hawke) e em seguida devem aprender a conviver com o ressurgimento do pai, com visitas realizadas em finais de semanas intercalados, com a presença de um homem que quer manter contato com os filhos e quer continuar a vê-los, observar seu crescimento, sua evolução, seu amadurecimento.
Ao mesmo tempo em que observamos as relações das crianças com o pai, também observamos a vida que elas levam com sua mãe, Olivia (Patricia Arquette), uma mulher batalhadora, forte, mãe responsável que tem como prioridade seus filhos. É por causa deles que ela se muda de cidade, volta a estudar, procura novos empregos, tudo para garantir que eles possuam uma vida melhor a cada dia. Através de Olivia somos capazes de observar o encontro de novos amores, casamentos, separações, erros de uma mulher que não desistiu de tentar, mas que não se deixa abater e não se cala em frente a situações difíceis, como um marido bêbado e agressivo ou a busca por uma nova vida em outra cidade. Paralelamente a tudo isso, observamos nosso pequeno Mason crescendo, evoluindo a cada ano, amadurecendo e se tornando jovem. Observamos seu primeiro amor, a primeira vez que bebeu, o descobrimento de sua paixão pela fotografia!
Boyhood é um filme morno, calmo, simples, mas dentro de todos esses adjetivos existe beleza e leveza, existe a perfeição que podemos encontrar em cada pedaço imperfeito de nossas vidas. Ele destaca as relações humanas, o crescimento de uma criança, a vida como ela é, em sua forma mais pura, real, crua e singela. Por esse motivo, ele é belo, é o tipo de obra que muitas vezes não observamos na indústria cinematográfica. Não pelo fato de ter sido filmado no período de 12 anos (outros filmes já se lançaram para a filmagem ao longo dos anos, talvez não da forma como este, mas já tentaram), ele é perfeito por nos trazer um reflexo de nós mesmos. 
Porém apesar dessas visões e opiniões também temos o outro lado, apesar de possuir motivos louváveis, apresentar algo de certa forma inédito, ele também é maçante, também pode ser chato, pode provocar o desinteresse no espectador. Por escolher um tema tão comum, por optar por cenas tão calmas e singelas e por possuir quase três horas de duração, o filme facilmente perde o espectador em suas próprias estratégias e motivos. Os intervalos de tempo são perceptíveis durante o filme mas não são sinalizados de uma forma satisfatória, para que o mesmo apresente uma melhor ligação com quem o assiste. Existem, ao longo do filme, vários momentos em que você está conferindo uma cena interessante ou crucial na vida de Mason ou de sua mãe e, logo depois, sem nenhum aviso ou ligação específica entre as cenas, os atores já cresceram. Em certos momentos senti que faltou um pouco de acabamento ao filme, faltou algo que arrematasse tudo o que se passa e que fosse capaz de ligar todas as cenas.
Além disso, o fato de que o filme aborda temas tão comuns, tão ligados a vida do espectador pode ser um ponto fraco do filme no sentido da forma como todas as cenas foram integradas e como o filme foi montado. Por ser muito linear, por conter poucos elementos de tensão, emoção e drama mais sérios, o filme acaba deixando o espectador sem aquele sentimento de ligação e apreço pelos personagens. Faltou aquele elemento especial que fosse capaz de conectar cada um a Mason, a Olivia, Samantha e ao pai das crianças.
As cores utilizadas durante todo o filme, através de câmeras e edições posteriores, são muito naturais, são simples e destacam mais uma vez o nosso próprio mundo. As atuações de todos os atores também são muito naturais, sua atuação é quase uma não atuação, é como se observássemos pessoas normais na tela, o que torna o filme ainda mais calmo, mais próximo a realidade. Apesar de achar todas as atuações satisfatórias eu tenho que dizer que não achei a atuação da Patricia Arquette digna do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Não quero, em hipótese alguma, desmerecer o trabalho da atriz, mas acredito que sua atuação não foi algo tão especial, algo que se destacasse dentre as outras concorrentes, algo digno da estatueta. Sinceramente, as vezes não consigo entender as escolhas da Academia, e nesse caso, não compreendi porque Patrcia levou o Oscar. Talvez seja sua humanidade, sua simplicidade, mas ainda assim, considero a atuação de outras concorrentes melhores do que a dela.
A nostalgia é outro elemento que permeia todo o filme. Ela está presente desde sua trilha sonora, que conta com músicas que todos conhecem, ou pelo menos deveriam conhecer, como Yellow de Coldplay e Hero de Family of The Year, passando por músicas do Blink 182, Daft Punk e Lady Gaga. Além das músicas, o filme nos faz recordar de tantas coisas que aos poucos se instalaram em nossas vidas, que aconteceram na história do mundo e dos Estados Unidos, ou ainda, coisas que aos poucos se instalaram em nossos corações. Dentre elas podemos destacar o surgimento e a popularidade dos video games, os atentados ao World Trade Center, a guerra com o Iraque, a eleição de Obama, e o que fez meus olhos brilharam e trouxeram mais animação ao filme: o lançamento de Harry Potter.
Boyhood se destaca em meio a muitos, se difere de filmes como os de super heróis, de adaptações literárias, entre outros tantos sucessos de bilheteria e gêneros cinematográficos. Se apresenta como um peixinho fora d’água, algo diferente e único, mas ao mesmo tempo comum e simples. Seu maior destaque está no fato de que desta vez a arte se voltou para a vida, e decidiu retratá-la como ela é. É um filme para poucos, pois nem todos serão capazes de entendê-lo em sua forma, em sua história, em seus objetivos. Mas ainda assim, apesar de suas falhas e erros, é maravilhoso, pois como tudo na vida, não é perfeito. E no final de tudo, acompanhar o crescimento de um garotinho pode ser SIM uma bela viagem.

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