Título Original: Casos de Família
Autora: Ilana Casoy
Ano: 2016
Editora: Darkside
Páginas: 560
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Casos de Família irá trazer dois dos casos mais emblemáticos da história jurídica do Brasil. Dois casos cruéis que confundem a compreensão humana. O pai que matou a filha, a filha que matou os pais.
Unificados em uma só edição, aqui teremos dois trabalhos de Ilana Casoy. Os arquivos Richthofen antes publicado sob o nome de O Quinto Mandamento e o julgamento do caso Nardoni em A Prova é a Testemunha. De forma geral, Casos de Família será um apanhado de registros que a autora fez durante os acontecimentos de ambos os casos. A autora mante-se fiel ao relato original de cada um dos casos, exatamente como foram registrados na época, portanto, muitos das citações encontradas aqui, foram descritas no calor dos acontecimentos.
Dividido em duas partes, primeiramente teremos contato com o caso de 2002, quando Suzane Von Richthoven, juntamente com seu namorado e seu cunhado, Daniel e Christian Cravinhos resolvem assassinar Manfred e Marísia, pais da acusada. A motivação? A proibição do seu namoro. Neste caso, por serem réus confessos, a dinâmica do livro será maior, iremos acompanhar os acontecimentos e o envolvimento da polícia desde o dia do crime, a investigação e a perícia que foi feito na casa da família Richthofen, até os depoimentos que levaram a prisão dos três suspeitos. Com informações inéditas, iremos acompanhar passo por passo como foi chegar a conclusão deste caso até o dia de seus julgamentos. 
É interessante acompanhar os equívocos, contradições e erros definitivos que levaram a polícia a suspeitar da pessoa mais impensável. Conforme desvendamos o caso, percebemos a frieza que Suzane provou possuir durante toda investigação. Uma parte em particular, que podemos perceber isso é quando os suspeitos vão refazer seus passos na reprodução do crime, Daniel e Christian exibem seu desespero completo durante a simulação, já Suzane não esboça reação qualquer.

O caso de 2008, já toma um rumo diferente, tanto em dinâmica de narrativa quanto em tramites judiciários. Até hoje, Anna Jatobá e Alexandre Nardoni negam o crime. Julgados culpados pela perícia de forma irrefutável, aqui teremos uma outra abordagem da investigação. Teremos também uma breve introdução dos fatos que levaram ao crime, apresentadas por ambos os lados, da acusação e da defesa, mas o foco principal desta segunda parte será no julgamento do crime, nos cinco fatídicos dias após dois anos da morte de Isabella Nardoni.
Quanto a este, tive um pouco mais de dificuldades durante a leitura. Apesar de constante, é uma leitura mais truncada por sua essência técnica na narrativa. Aqui acompanharemos o testemunho da mãe de Isabella, Ana Carolina Oliveira, que fora impedida de presenciar o julgamento. Teremos também o testemunho da perita Dra. Rosângela Monteiro, peça fundamental na conclusão deste caso, até o último dia, onde defesa e acusação fazem suas últimas considerações. Apesar de ser uma leitura densa, a autora consegue ambientar o leitor de todas as reações dentro do plenário o que ajuda com o que não nos cansemos. É importante dizer, que neste caso em especial, a autora colaborou diretamente com Ministério Público com provas periciais que confrontariam a versão pitoresca apresentada pelo casal.

Este foi meu primeiro contato com a autora Ilana Casoy. Criminóloga, pesquisadora e consultora da Comissão de Política Criminal e Penitenciária da OAB SP, não haveria melhor pessoa para comentar tais casos que ganharam proporção nacional e que chocaram por suas crueldades. Até hoje, a autora já assinou três livros pela editora Darkside e segue dando consultoria para casos de séries, documentários e cinema, ou seja, um ícone na investigação criminal. 
A autora narra com detalhes todos os episódios durante os julgamentos, desde as emoções e expressões dos acusados, o posicionamento e a atenção do júri, a relação entre advogados e promotores e também a forma que a mídia e o público reagem dentro e do lado de fora. Inclusive, no terceiro dia de julgamento do caso Nardoni a autora faz várias observações em cima disso e sobre a forma que os advogados de defesa acabam sendo “julgados” por estarem apenas exercendo o seu trabalho.

“É um equívoco imperdoável entender que o advogado concorda com a prática de qualquer crime apenas por estar exercendo o seu papel de representar a defesa do acusado, que tem essa garantia constitucional.”

A edição da Darkside está incrível, ela trouxe o verdadeiro dossiê desses dois casos, lembrando um caderno de arquivo real. A edição além de belíssima, traz todos os documentos necessários para o entendimento dos casos, inclusive, extras que ficaram de fora das reportagens que assistimos na época. Laudos periciais e necroscópicos com ilustrações das lesões das vítimas, integras de denúncias do Ministério Público, registros dos diálogos, fotos das reproduções simuladas, mapa do júri, uma carta inédita de Suzane para seus sogros e por fim, as cópias dos cadernos pessoais de Ilana Casoy, contemplam esta edição de luxo como um compilado único dedicado exclusivamente para os leitores.
Ao terminar esta leitura, percebi o quanto a mídia enfeita tais casos, portanto, é com grande felicidade que neste livro teremos apenas a verdade, nua e crua, os bastidores reais de crimes hediondos. Para curiosos do tema, Casos de Família serve como uma boa base da forma que crimes assim são tratados e de como funciona um julgamento criminal em nosso país, que em sua maioria, diverge bastante do que estamos acostumados nos seriados americanos.

Para finalizar esta resenha, me apropriarei de um trecho da introdução deste livro, crimes familiares existem desde antes de Cristo, quando Caim ultrapassou os limites do sagrado ao assassinar seu próprio irmão Abel. Desde então, soberba, inveja, ira e avareza. talvez sejam estes entre os sete pecados capitais que motivam os crimes familiares. Estes dois casos, romperam a normalidade do nosso país, chocou pela brutalidade dos fatos e causou a ira da população pela falta de compreensão. Sem dúvidas, crimes desta natureza assombram qualquer ser humano e o registro desses dois casos é só um lembrete que estes não são crimes comuns, até mesmo para os assassinos mais cruéis. A família deveria ser sagrada, aquela que replica a vida e por isso que os casos Richthofen e Nardoni chocaram tanto o Brasil, por serem intoleráveis e incompreensíveis.

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