Tenho que confessar que demorei muito, mas muito tempo para conseguir me convencer à ler Morte Súbita, da minha rainha J.K. Rowling. Quando a notícia de que o livro havia sido lançado surgiu, eu admito que fiquei no mínimo intrigada, mas logo em seguida fiquei com medo de iniciar a leitura e não gostar do que me esperava naquelas páginas. Morria de medo de que o feitiço se quebrasse e toda a magia da escrita da autora fosse embora por causa de um livro que não foi tão bom quanto poderia ser. Porém, devido a mudança de cidade, e ao fato de que todos os meus livros ainda estão encaixotados (não vejo a hora de tirar todos eles das caixas), consegui a chance e o empurrãozinho que precisava para iniciar a leitura. E hoje, após ter finalizado mais essa leitura, preciso admitir que minha rainha não me decepcionou nem um pouco.

A notícia da morte súbita de Barry Fairbrother jazia no seu colo como um recém-nascido rechonchudo a ser exibido para todos os seus conhecidos. E ela seria a fonte, por ter sido a primeira, ou quase, a ficar sabendo.

É verdade que premissa de Morte Súbita poderia ser extremamente simples e sem cor, mas com a ajuda da mente sábia de J.K. Rowling, uma história até certo ponto, comum, se transformou
em algo genial, repleto de críticas à sociedade, reflexões sobre o comportamento humano, discussões sobre a adolescência além de abordar o fato de que, muitas vezes os pais não são capazes de perceber problemas que estão estampados bem debaixo de seus narizes.
Essa história começa de maneira trágica e direta. Durante um final de semana, Barry Fairbrother, que vivia trabalhando em prol dos menos favorecidos e injustiçados, se encontrava (como tantas outras vezes) em seu escritório, trabalhando em uma matéria que deveria auxiliar na compreensão de como realmente funcionava o bairro de Fields. Este bairro abrigava todo o tipo de pessoas à margem da sociedade, e havia sido construído próximo aos limites do distrito de Pagford, além de em seguida ser incorporado ao distrito sem qualquer contato com a população ou aviso prévio. Como era dia de seu aniversário de casamento, Barry faz uma pausa forçada no trabalho para jantar com sua esposa. Mal sabia ele que ao colocar os pés no estacionamento do restaurante, seria abatido por uma forte e terrível dor de cabeça, dor esta que seria a causa de sua morte.
Com a notícia da morte de Barry Fairbrother, também se aproxima de mansinho, através de um passo de cada vez, uma enorme onda de caos que, pouco a pouco, irá consumir o pequeno distrito de Pagford. O problema, mas para muitos, uma possível solução, surge pelo fato de que Barry Fairbrother fazia parte do conselho local. Sendo assim, esse cidadão tão importante na vida da comunidade, auxiliava na tomada de decisões importantes que deveriam beneficiar o local, assim como permitir que prosperasse e fosse agradável e acolhedor para todos os seus habitantes. Porém, com sua morte, Barry deixa para trás uma família despedaçada e uma cadeira vaga no conselho do distrito. É ao redor desse personagem tão presente na vida do local, e da vaga que ele deixou para trás, que toda a história toma forma e se desenrola. Mas não se deixem enganar, existe muito mais do que a luta por uma vaga no conselho neste livro maravilhoso.

E ela não tinha como tapar os ouvidos. Cada uma das suas piadas, cada um dos seus xingamentos ficava gravados na memória da garota, incrustados ali, como nada que prestasse jamais ficava.

Apesar de possuir um início simples e, em parte, sem muitos atrativos, o livro possuí destaque em tudo aquilo que não podemos ver, em todas as palavras não ditas em sinopses e resumos escritos mundo afora. A magia deste livro, que não tem nada a ver com Harry Potter, está presente no fato de que toda a história é extremamente real, palpável, verdadeira e em muitos casos, nua e crua. J.K. Rowling não teve medo de nos mostrar as várias faces do ser humano, as várias faces da sociedade atual, que julga, condenam e exclui sem possuir qualquer conhecimento sobre os assuntos que tanto amam condenar.
Neste livro iremos encontrar pais que não sabem, ou não compreendem o verdadeiro significado da palavra pai. Iremos conhecer a tensão e o medo que existe dentro de uma casa onde o patriarca comanda a família através de explosões de raiva. Iremos observar como é fácil contar mentiras para nós mesmos e com o tempo passar a acreditar nelas. Aqui conheceremos um pai que por vezes, parece sentir prazer em tornar a vida de seus filhos mais difícil e complicada. Iremos encontrar filhos com problemas terríveis. Perceberemos com uma proximidade absurda, como o bullying e a falta de suporte, apoio e encorajamento familiar, podem transformar um problema que, a princípio, é muito fácil de ser resolvido, em um monstro que assombra uma pobre garota todas as noites. E aqui faço uma ressalva, não pensem que o livro foca apenas no mundo de adolescentes, filhos e filhas e na forma como eles pensam e agem. Essa história também se abre para o mundo dos adultos, para suas dores, preocupações e intrigas. E de uma maneira mais ampla, se abre para todos os problemas presentes em uma sociedade confusa e complexa.
Rowling dá um tiro certeiro quando, em sua história de começo simples, consegue aos poucos inserir uma vasta gama de assuntos e reflexões que demonstram, de diversas formas, como o ser humano existe em sociedade. E ainda, como as experiencias, personalidades e memórias de cada um, podem definir como são e agem. Com uma diversidade de personagens bem montados e elaborados, a autora é capaz de nos mostrar a sociedade como ela realmente é, e com isso, nos faz questionar nossas próprias ações, além de nos fazer refletir na sociedade como um todo. J.K.  Rowling não irá te influenciar, te direcionar, te manipular para que tenha esse ou aquele pensamento. O trunfo desse livro está no fato de que cada leitor pode tirar suas próprias conclusões através dos fatos apresentados de forma realista e concreta. Essa história abre espaço para tantas discussões, que seria impossível destacar e comentar todas elas nesta resenha.

Mas quem pode suportar que algumas estrelas já morreram, pensou ela, piscando os olhos para o céu; quem pode suportar saber que todas elas já morreram?

Morte Súbita acerta ao ser verdadeiro, ao fazer com que o leitor pense e tire suas próprias conclusões. Admito que não se trata de um livro para qualquer um, ele é complexo, recheado de críticas e reflexões, é perfeito em sua realidade e magnífico por demonstrar de forma tão sincera as imperfeições da sociedade. Essa história acerta em tudo, utiliza um pequeno distrito como pano de fundo para mostrar (porquê não?) um mundo inteiro. Definitivamente, é um livro que faz jus ao talento e criatividade da autora. Para todos aqueles que são fãs dessa mulher maravilhosa e buscam um livro maduro e complexo, esse livro merece um espaço no seu coração. Com toda certeza entrou para minha lista de favoritos!

  • The Casual Vacancy
  • Autor: J.K. Rowling
  • Tradução: Maria Helena Rouanet
  • Ano: 2012
  • Editora: Nova Fronteira
  • Páginas: 501
  • Amazon

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