Sempre fui da opinião de que com uma facilidade quase absurda é possível descobrir o melhor e o pior de qualquer gênero literário. Isso graças a diversidade de opções que conseguimos encontrar hoje em dia, tanto nas livrarias físicas quanto nas virtuais, e principalmente nas virtuais.
Lembro que quando era mais nova sempre foi bem complicado encontrar esse ou aquele livro, até mesmo descobrir livros novos era uma coisa diferente naquela época, pelo menos sempre foi para mim. Hoje, em compensação, as coisas estão mais fácies. Porém com essa facilidade veio também as famosas febres literárias. Até um tempo atrás a distopia era um dos gêneros literários mais comentados, procurados e adaptados, e apesar de toda essa febre estar esfriando, confesso que ela foi capaz de conquistar um espaço especial no meu coração. Já vi algumas ideias bem fraquinhas por aí, mas meu coração se enche de amor toda vez que encontro uma joia no meio de tantos e tantos livros para se ler.

Então eu a construo, tijolo a tijolo. Fileira a fileira. Uma torre alta, como a da Rapunzel, mas esta não tem janela, nenhum lugar para jogar os meus cabelos.

Reiniciados foi uma grata surpresa, uma joia adorável que me mostrou diversas facetas, construiu mistérios sem respostas e me deixou com os nervos à flor da pele. Com uma premissa que a princípio pode parecer simples e sem grandes rumos, essa obra nos joga para todos os lados sem muita informação. Ela nos faz sentir como se estivéssemos sem lembranças, como se não soubéssemos exatamente em quem confiar, como se a desconfiança reinasse em cada página e fosse necessário extremo cuidado ao tomar esse ou aquele segredo como verdadeiro.
Kyla é uma reiniciada. Em seu mundo, reiniciados são aqueles que receberam uma segunda chance. Porém ao conseguir esse novo destino para suas vidas eles devem abrir mão de quem foram, de suas peculiaridades, de tudo o que os tornava o que eram, devem deixar para trás sua história. Uma vez dentro do complexo destinado ao procedimento e readaptação desses jovens, somente sairão sendo novas pessoas, somente sairão quando estiverem definitivamente reprogramados. Para que isso possa acontecer todas as suas lembranças devem ser apagadas. Como pequenos bebês, inocentes e sem qualquer noção do mundo exterior eles devem aprender tudo do início, e para garantir que estejam sempre na linha lhes é adicionado um Nivo. Esse terrível aparelho é capaz de monitorar seus níveis de felicidade, raiva e tristeza, garantindo assim que os novos membros da sociedade sejam mantidos sob constante vigilância até o momento em que atinjam a idade considerada segura para a retirada do controlador.

Minhas memórias se foram, mas parte de mim se lembra. Meu corpo, meus músculos. Como a mão esquerda com o lápis.

Apesar de todos os detalhes, de todos os procedimentos, aulas, normas e aconselhamentos, Kyla é diferente. Quando é adotada por uma nova família e lhe é dado um novo mundo cheio de descobertas e possibilidades, ela encontra uma mãe nervosa, porém adorável que não quer nada mais do que sua proteção e seu bem e parece saber muito mais do que aparenta. Encontrará um pai ausente e misterioso, alguém que se esforça muito para ser o que não é.
Quando finalmente é inserida a um novo começo ela descobre que a realidade pode não ser exatamente aquilo que lhe foi prometido. Uma vez em sociedade ela deve manter as aparências, esconder seus segredos, agradar a todos e evitar encrenca, mas nada será capaz e impedir que segredos, intrigas e tudo aquilo que se esconde pela superfície venha à tona. Quando todos são mais do que aparentam e se descobre que o que havia sido apagado pode estar vivo dentro de si, tudo pode se direcionar para o caos em apenas um passe de mágica.
Quando menos esperamos nos vemos imersos em um mundo de segredos, aparências e muitas mentiras. Nada é o que parece ser. As informações são como migalhas, são jogadas ao leitor apenas para deixa-lo ainda mais ansioso, perdido em outro mundo, um mundo do qual sabe muito pouco, assim como a personagem principal. Quando iniciamos a leitura iniciamos uma jornada em conjunto com a protagonista, o que lhe é mostrado é o que sabemos, as informações são escassas e nos fazem pensar, criar teorias, nos fazem querer mais. Assim como Kyla queremos entender, descobrir o que existe dentro do livro. Observamos tudo à procura de pistas, porém não é possível confiar completamente em qualquer palavra, assim como os personagens, elas podem nos enganar.

E se não sou uma nova pessoa, seja lá o que eu tenha feito, ainda está aqui, ainda é parte de mim, escondida em algum lugar.

Teri Terry definitivamente sabe conduzir uma história. Esse é o primeiro livro que leio da autora, e mesmo assim, quando o finalizei estava de queixo caído ansiando por mais. Com uma escrita simples, porém muito bem pensada ela nos cativa com uma trama cheia de segredos e suspense. A sociedade criada pela autora é muito mais elaborada do que parece e não segue uma premissa básica ou vista em qualquer outro livro por aí. A autora brinca com a história que serve como plano de fundo da mesma forma como brinca com seus personagens. Ela cria intrigas, mentiras e nos mantém presos em um mundo de tensão, porém tudo vale a pena quando descobrimos motivos e segredos escondidos.
Como se não bastasse uma história cheia de intrigas e mistérios, uma escrita e trama geniais, ainda somos apresentados a personagens muitíssimo bem elaborados. Cada personagem possuí sua própria personalidade e se mantém fiel a ela. Não existem decaídas, momentos em que percebemos deslizes, cada ação e sentimento é condizente com cada situação, nada é forçado. Tudo o que vemos nos é apresentado da melhor forma possível e nos faz sentir os sentimentos certos.
Quando um livro é bem escrito nós sentimos o coração aquecer, quando os personagens são cativantes nós sentimos carinho e raiva, quando os mistérios de uma obra nos intrigam e fazem com que possamos sentir cada confusão apresentada, percebemos que estamos frente a frente com aquele algo mais. Passei muito tempo escrevendo resenhas por aqui, mas infelizmente nem todos os livros que compartilhei com vocês possuíam aquele algo mais, possuíam aquele segredo sagrado que somente os melhores possuem.
Mais uma vez tive a chance de me deparar com esse segredo e é a melhor coisa do mundo ser capaz de trazer um pouquinho desse mistério para vocês. Os segredos e as aparências são realmente as palavras capazes de expressar esse livro, e ainda sim, não são capazes de dizer nada sobre ele, e é assim mesmo que deve ser. Quando uma obra é realmente surpreendente ela só pode ser compreendida completamente através da leitura, sendo assim, deixo aqui meu pedido para que todos, cada um de vocês, se aventure elas palavras dessa obra.

A junta recomenda a finalização. Doutora Lysander tem o controle. Novo tratamento realizado. Monitorar os sinais de regressão após o novo tratamento. Recomendados vigilantes extras. A junta recomenda o término se houver reincidência.

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  • Autor: Teri Terry
  • Tradução: Flávia Cortês
  • Ano: 2012
  • Editora: Farol Literário
  • Páginas: 430
  • Amazon

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