Muitas vezes fico pensando na quantidade de autores espalhados pelo nosso planeta, nas histórias sendo escritas, na quantidade de páginas, capas e palavras espalhadas por todos os cantos e que talvez nunca terão sua chance de cruzar com meu olhar. Mas também penso naqueles autores que finalmente tiveram a chance de cruzar com o meu caminho, autores que nunca tinha ouvido falar, autores que morria de vontade de conhecer, e é claro, aquelas descobertas pessoais que bem lá no fundo não tinham nada de novo pois já estavam consolidadas nesse enorme mundo literário. Toni Morrison se encaixa um pouquinho em cada uma dessas situações.
Toni Morrison foi a primeira escritora negra a receber o Prêmio Nobel de literatura. Essa escritora renomada, dentre tantos prêmios e conquistas, também conquistou um Pulitzer, o que talvez mostre ainda mais a sua importância no meio literário. Ela chamou a atenção de pessoas ao redor do mundo com suas palavras, com suas obras, e esse ano, após anos vivendo com escuridão e trevas, sua obra se apresentou como o brilhante sol de verão. Me vi pensando e refletindo no fato de que, como, em toda a minha breve vida, não havia sido devidamente apresentada a essa escritora magnífica. Onde estavam os professores, as provas, as indicações de pessoas importantes em nossas vidas para nos direcionar a autores que realmente merecem ser lidos? Morrison me fez ver o mundo de uma forma diferente, me ensinou e me encantou, e como todo escritor que nos surpreende e encanta, merece, no mínimo, a tentativa de uma resenha à sua altura.

Acordou com um sol militante cheiro de torradas. Levou um tempo, mais do que deveria, para registrar onde estava.

Frank e Ycidra sempre estiveram ligados. Os dois irmãos passaram por momentos difíceis ao longo de sua infância, mas sua união, a ligação que cultivaram, permitiu que construíssem histórias e encontrassem lembranças preciosas em meio a realidade de suas vidas. Lembranças de uma época de inocência e alegria ficaram gravadas na mente de cada um, memórias do lar, da família e de saber que havia segurança ao chegar em casa. Os dois irmãos viram seus pais perderem suas terras, perderem sua casa, migraram com muitas outras pessoas para novos lugares, novas cidades.  Sua família, pobre mas batalhadora, passou a viver na casa de parentes com uma qualidade de vida superior, que cederam um cômodo para que pudessem ficar até o momento em que conseguissem viver sem ajuda. A vida era difícil, mas um sempre apoiava o outro e Frank sempre fazia seu trabalho para proteger e olhar por Ycidra, livrando a mesma de muitos sofrimentos e tristezas.
Em um momento de suas vidas, os irmãos se separam. É com a distância de casa, com a realidade do mundo, com as consequências de suas próprias ações que o sofrimento e a tristeza invadem suas vidas. Frank se alista e vai para a guerra. Ci se casa com um homem que não queria nada além do pouco que poderia conseguir com sua ingenuidade, e então se vê sozinha, despreparada para a maldade da sociedade e refém das situações em que ela mesma se colocou. Mas o destino se manifesta e faz com que o caminho se alinhe para que os irmãos precisem um do outro novamente. Em meio as dificuldades e tristezas da vida, Frank deve reencontrar Ci que se encontra doente em meio a uma cidade grande e estranha. Juntos, mas cada um em seu devido caminho, eles deverão enfrentar seus fantasmas, seus demônios, suas tristezas e sofrimentos para encontrar a liberdade em si mesmos.

Além da janela – árvores, céu, um rapaz numa motoneta, grama cercas vivas. Toda cor desapareceu e o mundo se transformou numa tela de cinema em preto e branco.

Com uma escrita lírica extremamente bem trabalhada, com uma quantidade de páginas reduzida porém precisa, com histórias secundárias que se cruzam com as linhas principais e que agregam significado e detalhes necessários à história, nos vemos dentro de uma obra única, que só foi capaz de conquistar essa aura, esse patamar, devido a habilidade e talento de uma autora maravilhosa.
Voltar Para Casa é muito maior do que a simples busca por uma irmã, pelo elemento familiar que nos trás solidez e rumo. Ela vai além da ingenuidade de uma mulher em meio as maldades da sociedade, ou aos traumas de um homem que viu e fez coisas impronunciáveis. Essa obra nos mostra a força que conseguimos encontrar somente quando voltamos para casa, quando estamos ligados as nossas próprias raízes. É em casa que recobramos os sentidos, encontramos o caminho, reunimos forças e enfrentamos as dificuldades que transbordam em meio a sociedade e a realidade.Nossa jornada pode ser cruel e sombria, mas quando encontramos nosso caminho, quando voltamos para casa podemos superar todo o mal visto e sofrido. Mesmo em nossa simplicidade, em cada dificuldade à que nos salvaram ou amenizaram, mesmo com a suavidade de nosso caminho, nem sempre seremos poupados. Precisamos tomar de volta quem somos, precisamos encontrar a força que muitas vezes não nos foi dada ou ensinada, precisamos tomar as rédeas de nossa vida. Pois somos os donos de nós mesmos e ninguém pode nos tirar isso.

A experiência de ler essa obra é impressionante, surpreendente, instigante. Toni Morrison, com apenas 135 páginas, mostra que um livro não precisa de metragem para possuir conteúdo, não precisa de milhares de palavras para transmitir uma mensagem. Com a graça de uma escrita bela e cheia de significados, com mensagens escondidas a cada frase, com cenas, situações e paisagens que se transformam em nossa frente e se materializam com um piscar de olhos, tomando conta de nossos olhos, somos levados para a busca de um irmão. Reconhecemos sofrimentos, tristezas, esperanças e luzes que podem invadir a vida de todos nós, assim como o sol brilha a cada nova manhã.
Voltar Para Casa é mais um daqueles livros em que as palavras não são capazes de expressar toda a aura de luz e conforto que nos invadem ao virar a última página. É mais uma daquelas obras em que nos faltam meios de materializar tudo aquilo que sentimos enquanto liamos cada palavra, cada frase, cada parágrafo e capítulo. Palavras não fazem jus a tudo o que sentimos, a tudo aquilo que se mantém dentro dessa obra, mas que transborda e ganha vida quando viramos a primeira página. Somente desfrutando da experiência de conhecer essa história é que podemos realmente compreender sua magnitude, apreciar sua beleza e entender a força que somente o ato de voltar para casa pode proporcionar.

Em algum lugar aí dentro de você está essa pessoa livre de que eu estou falando. Encontre ela e deixe ela fazer algum bem neste mundo.

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  • Autor: Toni Morrison
  • Tradução: José Rubens Siqueira
  • Ano: 2012
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 135
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