O mundo é enorme em toda sua pequenez. É repleto de histórias, caminhos que se cruzam e entrelaçam, vidas que se chocam e modificam rumos e futuros desconhecidos, e enquanto tudo isso acontece, gira sem compreender a quantidade de vidas que dele dependem. Em meio a imensidão de paisagens, caminhos desconhecidos são trilhados, mães são separadas de seus filhos, crianças se perdem em meio a multidões e reencontros nunca acontecem. Mas quando a tristeza se torna insuportável, a esperança parece ter desaparecido de nossos corações, uma voz se eleva com toda a coragem que possui para contar sua história.
No ano de 1986 um adorável garotinho brinca com seu irmão mais velho, os dois se unem para garantir um pouco de leite que em breve será distribuído para os membros da pobre e bela família cuja mãe batalha todos os dias para garantir a menor parcela de conforto, segurança e futuro. Naquele ano, o garotinho Saroo possuía apenas cinco anos, era feliz, via magia na pequena comunidade em que vivia e queria ajudar o irmão mais velho, ser útil, contribuir com algo. Guddu, acaba cedendo as tentativas do pequeno, levando-o consigo para um trabalho noturno, mas Saroo possuía apenas cinco anos, estava cansado, acabou adormecendo no caminho para a estação. É no meio da noite, no desespero que surge pela falta do irmão ao seu lado, na estação vazia, que a vida de um filho se separa dos caminhos de sua família.

Saroo, ao perceber-se só, chama pelo irmão, se desespera. É apenas uma criança e não possuí ninguém a quem recorrer. Ele entra em um dos vagões estacionados na estação, em busca do irmão mais velho, mas o cansaço, a tristeza e o desespero o derrotam e acaba adormecendo. Quando acorda novamente está em movimento, seguindo para a cidade de Calcutá, localizada a 1500 milhas de sua casa, de sua mãe, de sua família. O garotinho não fala bengali, a língua utilizada na cidade, ele só conhece o hindi. Não conhece o nome da mãe, não sabe dizer de onde veio e nem pronunciar corretamente o nome de sua vila, está perdido em um ambiente estranho. Ao perder-se, a pobre criança andará sozinha pelas ruas, buscará ajuda, encontrará outras crianças perdidas, será direcionada à polícia por uma pessoa bem-intencionada, acabará em um orfanato. Mas seu caminho, embora intrincado em meio a tanta tristeza, estava destinado a uma família australiana cheia de amor.

Vinte cinco anos após ser adotado, Saroo, a criança indiana perdida, encontrada por uma família amorosa que lhe proporcionou um futuro improvável, ainda é uma pessoa perdida. Ele se lembra do caminho que fazia para voltar para casa, lembra-se do belo rosto da mãe, das brincadeiras com o irmão, do jalebi que ambos sonhavam em comprar. Vinte cinco após uma criança se perder no mundo, um filho decide buscar o caminho de volta para casa. E é essa jornada que iremos acompanhar em Lion.
Todos os anos, crianças e mais crianças se perdem na Índia. Lion é a história de apenas uma delas, a trajetória de uma criança que encontrou o caminho de volta para casa, de uma criança que encontrou uma segunda família, uma segunda mãe que o amou, cuidou, proporcionou um futuro e deu suporte quando o filho precisou reencontrar aquilo que deixou para trás. O filme possuí uma carga enorme de tristeza. Saber que a cada dia crianças são perdidas é de partir corações, de criar um nó na garganta, marejar os olhos. Conhecer os destinos aos quais essas crianças podem chegar, pensar que cada uma delas pode ter sua vida destruída no meio do caminho, é pior ainda. Embora não detalhe, não exponha os diversos fins de crianças perdidas, o filme nos apresenta uma realidade dura e isso nos assombra.
Dividido em duas partes distintas, uma apresentando o caminho trilhado pelo pequeno Saroo até ser adotado por uma família australiana e a outra, mostrando a busca de um Saroo mais velho pela família deixada para trás, o filme nos suga para dentro do sofrimento, da tristeza, da incerteza de não saber o que aconteceu. Enquanto a primeira parte é triste por si só, capaz de tirar lágrimas dos olhos, espantar com a brilhante atuação de Sunny Pawar, a segunda parte é melancólica. Os acontecimentos da primeira parte marcam a segunda, transformam um ser humano e direcionam sua busca. Porém é aqui que tudo se transforma. Dev Patel nos conquista, seu olhar perdido, a sutileza de sua atuação, a carga de tristeza que o ator traz consigo garantem toda a sensibilidade necessária para contar essa história.
O filme é sua história, o sentimento que permeia cada cena, a carga de tristeza capaz de destruir corações, fazer com que o espectador se emocione. Porém, o único ponto destoante são as diversas cenas explorando a ferramenta Google Earth. Compreendemos sua função, elas auxiliam na narrativa, porém, destoam, são usadas em demasia. As cenas diretas, onde a ferramenta é estampada na tela, quebram a atmosfera do filme, retiram a condução maravilhosa que vinha sendo apresentada e poderiam ter sido melhor pensadas, ou simplesmente cortadas e substituídas por cenas como as do quadro com as impressões em papel dispostas lado a lado.
Em meio a tantos fortes indicados ao Oscar de 2017, Lion pode não ser aquele a levar a estatueta de melhor filme para casa, porém, seu maior triunfo não está no ouro que brilha em uma estatueta, e sim na história de uma criança que teve o futuro garantido e encontrou o caminho de volta para casa. Sensível e belo, o filme conduz o espectador a uma história com final feliz, porém, abre os olhos para as trajetórias interrompidas, para as crianças perdidas que nunca reencontraram suas famílias. Para além de apresentar talentos estabelecidos, de uma história dramática, o filme insere no contexto do Oscar uma trajetória que foge do padrão conhecido pelas escolhas da academia, e espera-se que, cada vez mais, tenhamos novos rostos, novas culturas, histórias incríveis sendo destacadas na premiação.

  • Lion
  • Lançamento: 2017
  • Com: Dev Patel, Nicole Kidman, Rooney Mara, Sunny Pawar, Priyanka Bose
  • Gênero: Drama, Biográfico
  • Direção: Garth Davis

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