A narrativa sempre fez parte da história humana, desde os primórdios de nossa vida neste planeta contamos histórias uns aos outros, transmitimos mensagens, pensamentos, conselhos acerca dos perigos e caminhos que poderíamos algum dia vir a trilhar.
Faz parte da essência da narrativa observar o ser humano e suas ações, encontrar as nuances que nos transformam naquilo que somos, reconhecer as consequências de nossas decisões e, apesar
de toda a sua evolução, modificação para os mais diversos formatos – a quantidade de filmes, séries e jogos que possuímos hoje expressa isso muito bem – mesmo que em inúmeros casos encontremos apenas entretenimento e nichos de mercado, a narrativa é, por essência, reflexiva. Não importam as mudanças pelas quais a sociedade passou, muitos de nós e, felizmente, diversos autores, sempre souberam desse pequeno grande detalhe.

Desde o começo da revolução industrial Ele previu que os homens se tornariam tão irresistivelmente presunçosos devido aos milagres de sua própria tecnologia, que em breve iriam perder todo o senso de realidade.

É difícil abordar uma obra de Aldous Huxley sem ressaltar sua habilidade com relação a criação de narrativas, sem destacar as profundas reflexões que insere nos mínimos detalhes e a cada novo momento, sem falar nas fortes críticas que tece para com a sociedade e as consequências de suas ações. O autor desenvolve com maestria e precisão cada uma de suas histórias, sejam elas longas, curtas, fáceis de ler ou, como no caso de O Macaco e a Essência, em formato de roteiro de cinema.
Apesar de apresentar uma breve introdução ao personagem de Bob Briggs, roteirista de Hollywood que divide ideias e comentários curiosos com um amigo que talvez o leitor nunca venha a conhecer, a obra baseia-se no roteiro recusado por Hollywood, criado por um misterioso William Tallis.
Não demoramos muito para descobrir que o autor desconhecido deixou uma obra de arte rica em detalhes, críticas a nossa devoção à ciência, além de outras belas tomadas de decisões da sociedade ocidental como um todo. Após a breve contextualização de como os dois amigos descobrem o manuscrito, chega o momento para que o verdadeiro autor da obra que temos em mãos, ou talvez, o autor fictício William Tallis, demonstre toda sua habilidade narrativa, além de fazer com que, facilmente, entremos em contato com um instigante filme nunca produzido para o cinema.
É verdade que história de William Tallis poderia ter sido dirigida pelo olhar clínico e perfeccionista de Stanley Kubrick, porém, todo o crédito está nas mãos do verdadeiro autor, uma vez que, por meio da descrição em palavras, constrói cenas, paisagens e eventos que poderíamos, ou podemos muito bem ter visto em algum clássico do cinema.
O Macaco e a Essência pode não ser o melhor livro introdutório para um leitor que, muito mais do que reconhecer o estilo de escrita do autor, não esteja acostumado a observar os detalhes por trás das palavras, as críticas por trás de imagens que se formam em nossa mente, ou o fato de que tudo o que encontramos, por mais fantástico e impossível que seja, está ligado, direta ou indiretamente, ao contexto temporal do qual a obra em questão é fruto, vindo a estender-se, surpreendentemente, para os dias atuais e os mais diversos aspectos e detalhes do mundo em que  enfrentamos juntos.
Huxley e sua mente única e criativa nos brindaram com obras que, além da famosa atemporalidade, demonstram o gênio por trás de cada palavra. É fácil se apaixonar por suas histórias, pelo legado que deixou, pelo caminho que ajudou a construir para tantos outros autores. Essa obra pode não ser fácil de ser lida e compreendida como Admirável Mundo Novo, pode não ser densa, complexa e desafiante como A Ilha, mas apresenta todos os elementos pelos quais o autor é reconhecido encantando, e podendo vir a encantar futuros leitores que, espero com todo meu coração, percebam novamente a verdadeira essência da narrativa, e quem sabe, da própria humanidade.

  • The Ape and the Essence
  • Autor: Aldous Huxley
  • Tradução: Fábio Bonillo
  • Ano: 2017
  • Editora: Biblioteca Azul
  • Páginas: 160
  • Amazon

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