A pacata cidade de Red River, no estado americano da Flórida, virou o centro de uma grande batalha judicial. Meninas começaram a desaparecer sem explicação até que um dia apenas o corpo de uma delas foi encontrado, violentada e em decomposição. O principal suspeito? Dennis Danson, um garoto conhecido por todos da cidade como o maior arruaceiro local, uma péssima influência, um criminoso antes mesmo de ter cometido algum crime.
Danson está preso agora. Condenado a pena de morte, aguarda sua execução, enquanto vê seus recursos se esgotando ano após ano, até que a Netflix resolve produzir um documentário no maior estilo “Making a Murderer”, contando a história do assassinato e todos os erros que a polícia cometeu quando investigou Dennis. Em um determinado dia, antes de o documentário ficar pronto,
uma prova cabal é encontrada, outro homem é preso e Dennis está livre, o final perfeito para a produção e para as milhares de pessoas que batalharam pela liberdade dele.
Sam é uma jovem mulher britânica que quando conhece o caso, com Dennis ainda preso, começa a se corresponder com ele por cartas. Chamando a atenção do presidiário, eles se casam enquanto ele ainda estava atrás das grades e é ao lado dela que ele sai pelo portão da penitenciaria. Por problemas familiares, ele acaba indo rumo à Red River, onde ninguém está feliz com o que vê, onde todos têm a certeza de que ele é o verdadeiro culpado e onde ele nunca conseguirá ser bem quisto. Com Dennis morando lá, coisas estranhas voltam a acontecer e a cidade não deixará de mostrar seu descontentamento com a volta do morador indesejado.

Finalmente, o corpo de Holly Michaels foi encontrado. Suspeitaram de tios, padrastos e homens solitários. Imaginavam um monstro, um psicopata que tinha os ossos das garotas enterrados sob cimento em seu porão, que guardava as pulseiras delas penduradas num prego em seu armário.

O início do livro é simplesmente magnífico, a autora insere elementos que fazem você acreditar que realmente está lendo sobre algo real, criando inclusive um livro e um documentário fictícios, dos quais ela coloca notas de rodapés de reportagens também fictícias. Amy utiliza ainda coisas muito presentes no nosso dia a dia como o serviço de streaming tão conhecido. Porém, o livro não entrega aquilo que ele provoca, o que esperemos. O desenvolvimento dele fica muito focado em partes pouco importantes, como ligeiras brigas no relacionamento de Dennis com Sam ou na sua retomada de vida fora do presídio.
Apesar do personagem central da trama ser Dennis, a personagem protagonista é Sam. Grande parte da história está ligada à como a vida dela muda com as escolhas que ela faz após aproximar-se do marido e como a mentalidade dela funciona com seus conflitos internos e como a dúvida sobre areal inocência dele a afeta dia após dia.
Mas ao invés de o livro disparar com uma mulher forte e independente, como tenho visto em muitas obras cuja a personagem principal é feminina, Sam trava a trama, irrita o leitor, provoca desapontamento e nem de longe representa a força real das mulheres da atualidade. E não é só ela que provoca isso, o livro ainda traz mais duas personagens importantes, Carrie, que é a pessoa responsável pela produção do documentário de Dennis, e Lindsay, uma amiga de infância dele, completamente apaixonada e dependente do rapaz.

Todas personagens femininas são ligadas à mesma figura masculina, como se não conseguissem ter protagonismo sem ele, são fracas e incapazes de tomar uma decisão sozinhas. Sei que existem mulheres menos fortes que outras, mas acredito que a literatura atual tem mostrado tantas coisas diferentes em relação a isso e que a postura da escritora nesse livro foi completamente desnecessária e fora do contexto que temos visto de constante modificação e fortificação do feminismo.

O final do livro representa muito bem essa situação, mas para analisa-lo você precisará ler, mas vou adiantar que é um final mal explicado, pouco plausível e muito mirabolante. O livro traz cenas extremamente chocantes ligadas a animais, parece que Dennis tem um fascínio por maltrata-los e a descrição de como ele faz isso exige um estomago muito forte do leitor, se você é um leitor mais sensível em relação a isso, talvez esse não seja o livro certo para você.

Rio Vermelho é uma obra sobre uma mulher que acredita que o amor da sua vida fosse inocente e que pudesse dar a ela, a mesma liberdade que estava ganhando ao sair de trás das grades, trata de problemas de relacionamento, problemas psicológicos e de um mistério: Qual será a verdadeira história sobre as meninas de Red River?

A título de curiosidade, o plot inicial do livro se assemelha muito a história real vivida por Damien Echols, acusado aos 18 anos sobre o assassinato de três garotos de 8 em West Memphis, no Arkansas. Damien teve um julgamento marcado por falsos testemunhos e muitas inconsistências no caso. Artistas, simpatizantes e apoiadores deram início ao documentário Paraside Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills, atingindo a repercussão necessária para que a justiça fosse feita. Dezoito anos depois de sua prisão, Damien fora solto e em 2013 escreveu seu próprio livro, lançado no Brasil pela Intrínseca com o título Vida Após a Morte. Porém é importante dizer que ficam apenas por aqui as semelhanças.

Enfim, você acreditaria quando um jovem, que sempre causou problemas na sua cidade e é tido como o verdadeiro maldito em formato de homem, diz que é inocente da acusação que chocou toda  uma região e que o tornaria um dos assassinos mais sanguinários da história dos Estados Unidos? Você namoraria um cara com todas essas acusações? Se envolveria como a responsável por ele estar livre novamente? Bom, essas são as questões que Rio Vermelho traz para o leitor, uma boa leitura, que começa com o melhor início de livro que li em muito tempo, mas, infelizmente, não acaba da mesma forma, o que não o torna ruim, apenas decepciona pelo que ele poderia ter sido.

  • The Innocent Wife
  • Autor: Amy Lloyd
  • Tradução: Carlos Szlak
  • Ano: 2018
  • Editora: Faro Editorial
  • Páginas: 276
  • Amazon

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