Em 1950 foi abolido o sistema de castas da Índia, entretanto, essa mudança não alterou em nada a realidade de muitos indianos. Mukta é uma criança de 10 anos que já nasceu com seu destino traçado. Descendente de Devadasis, a menina deve cumprir com o ritual e se tornar uma serva da deusa hindu Yellamma, que a torna uma prostituta.

Contudo, Mukta vê sua vida mudar totalmente, quando um desconhecido a leva embora para morar com sua família em Mumbai. Ao fazer amizade com Tara, filha de seu benfeitor, a menina encontra na amizade, forças para superar tudo o que passou. Todavia, a amizade fica abalada e as garotas se veem separadas após um sequestro. Onze anos depois e morando nos Estados Unidos, Tara decide regressar a sua cidade natal e desvendar o mistério desse sequestro.

Todas as Cores do Céu é um livro tocante, que tange assuntos tão brutais como o tráfico de crianças e a prostituição infantil, de maneira emocionante. Através do véu da amizade a autora do livro, Amita Trasi, nos apresenta uma realidade distante, que por meio de sua escrita se torna totalmente palpável. O livro nos tira da nossa zona de conforto e causa sentimentos inquietantes frente a uma história que ainda é o cotidiano de inúmeras pessoas de castas inferiores.

– Acho que nossa vida é como o céu – Amma suspirou, ainda olhando para cima. – Às vezes, Mukta, quando você olhar para o céu, ele vai estar escuro. Você não vai saber em quem confiar. Vai se perguntar se alguma pessoa conseguirá tirar você da escuridão. Mas, acredite em mim, algum dia nosso céu vai brilhar de novo. E vai ter a aparência e o cheiro de esperança.

Em diversos momentos foi angustiante ler os relatos das personagens que são produto do tráfico e da prostituição, e mais ainda, saber que por mais que a prática de famílias oferecerem suas filhas à deusa Yellamma são proibidas desde 1988, isso ainda ocorre, principalmente, nas famílias pobres. Além disso, muitas crianças e mulheres são vendidas aos prostíbulos por seus parentes, que necessitam de dinheiro para sobreviver.

Mesmo sentindo certa impotência, a narrativa da autora é algo que envolve o leitor e ansiamos por mais, por saber o fim e por desejar loucamente que uma história tão triste e comovente, tenha um final feliz. Pela obra ser desenvolvida em dois tempos históricos e nas perspectivas das duas personagens principais, o leitor cobiça vorazmente, obter novas informações para poder comparar o que está ocorrendo com a vida das personagens ao mesmo tempo.

Além disso, a construção dos personagens é outro fator motivacional para a sequência na leitura da obra. Mukta, que tem seu nome como significado liberdade, é doce, inocente e sempre vê o lado bom das coisas e das pessoas, o que ao mesmo tempo nos aquece o coração tamanha bondade e também, nos mata de raiva a audaciosa ingenuidade.

Enquanto isso, Tara que possui uma enorme alegria de viver, mesmo passando por momentos, que assim como a Mukta, rompem de forma dolorosa com a delicadeza da infância, nos faz questionar diversas vezes suas ações. Durante a leitura, tive que me relembrar várias vezes, de ter compaixão e entender que a menina era apenas uma criança, que precisava lidar com situações mesmo quando a maturidade não a permitia.

O que não reconhecemos na hora é que a morte não apenas traz consigo uma tristeza sufocante; ela nos muda de muitas maneiras. Ela com certeza me mudou.

O livro nos permite enxergar uma realidade, que por trás de nosso viés cultural-econômico, muitas vezes isso se torna impossível. Contudo, indo além disso, a história também nos leva a refletir e criticar pré-julgamentos e pré-conceitos que formamos e que possuem mais de uma perspectiva. E essa oportunidade é algo fantástico.

O meu contato com o livro foi através da caixinha enviada em dezembro pelo clube de assinatura TAG Inéditos. Por meio de uma assinatura mensal ou anual, o leitor recebe em casa todo mês um livro surpresa, acompanhado de um marcador e um infográfico. E o mais interessante é que há dois segmentos da TAG, o Inéditos e a Curadoria, que é direcionado para cada tipo de leitor. Eu assinei inicialmente, por muitas vezes desejar ler um livro em comum com outras pessoas e ter com quem conversar, e claro, pelo que acompanha o livro também. E a TAG nos propicia isso, principalmente, através do aplicativo. Porém, conforme fui recebendo e lendo os livros, me apaixonei totalmente pelo clube.

Devo confessar que no início tive bastante receio de não agradar de algum dos livros que receberia, até porque são livros que se eu, por conta própria, fosse ler a resenha ou procurar em uma livraria, talvez nem levasse para casa. Às vezes porque não me ganharia na hora, ou quem sabe porque não são muito divulgados no Brasil, ou até mesmo, porque não é meu gênero de leitura. Mas, aconteceu que me apaixonei totalmente pelos livros. Claro, não é cem por cento das vezes que me agradou, porém, a maioria dos livros me fascinaram e hoje, continuarei com minha assinatura, justamente, pelo fato de serem livros que as vezes fogem do que leio normalmente e que me tiram da minha zona de conforto.

A realidade, no entanto, é que há cerca de dez novas crianças desaparecidas na Índia e mais de setenta por cento delas nunca é encontrada.

Todas as Cores do Céu foi um desses livros que me apaixonaram. Sua leitura foi algo engrandecedor, para mim enquanto leitora. Poderia me prolongar mais a respeito do quão incrível a obra é, porém, acredito que vocês leitores só poderão vivenciar isso, lendo o livro. Então, deixo a dica desse livro maravilho, que se tornou um dos favoritos da vida e que pretendo um dia reler.

  • All Color of Our Sky
  • Autor: Amita Trasi
  • Tradução: Caroline Chang
  • Ano: 2018
  • Editora: Harper Collins em parceria com a TAG Inéditos
  • Páginas: 380
  • Amazon

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12 Comentários

  • Nil Macedo
    01 abril, 2019

    Izabela, se esse livro se tornou um dos seus favoritos para a vida e você pretende reler, só posso mesmo imaginar que é um livro gradioso. Com tudo o que você relatou, já imagino a raiva que posso passar com as atitudes machistas. É horrível pensar que isso não é só uma história em um livro, é mesmo a realidade de muitas meninas na Índia.
    Com certeza é um livro que pretendo ler em breve.

    • Izabela Neves
      04 abril, 2019

      Oi Nil, realmente é um livro que faz diferença na nossa vida, sabe? Acredito que você irá gostar muito! Depois me conta o que achou. Abraços

  • Larissa Moraes
    31 março, 2019

    Nossa, eu não conhecia esse livro e fiquei impactada com a premissa. Imagino que a leitura realmente deva ser difícil, ainda mais nesses momentos de relatos das meninas e, como você disse Izabela, infelizmente sabemos que ainda existe. Acredito na importância do livro, no levantamento da reflexão dos nossos pré-conceitos e tudo o mais, mas não me encontro no momento de uma leitura que sei que mexerá comigo como esse livro fará rs. Vai entrar pra uma lista mais pra frente rs Obrigada pela resenha e pela dica!

  • Luana Martins
    31 março, 2019

    Oi, Izabela
    Também assino a Tag mas estou muito atrasada com a leitura dos livros que vem.
    Mas Todas as cores do Céu li na semana passada e favoritei também se soubesse que era tão impactante tinha lido em dezembro mesmo.
    Em diversas passagens do livro chorava pela condição de Mukta desde criança até a vida adulta que mesmo sofrendo ainda tinha esperança de viver melhor e sempre acreditando nas pessoas. É uma personagem ímpar que evoluí muito durante a trama.
    Tara por outro lado também sofreu mas nada se compara a vida que Mukta levou, e culpar os outros por seu destino também é ridículo. A respeito dos pais de Tara eu senti muito pelo pai, mas a mãe se tornou um pouco amarga. E não merecia o que aconteceu com ela, mas fatalidades acontecem.
    Super recomendo essa leitura que nos faz imaginar e sentir empatia por Mukta, Tara e seu Papa (pai) e tem mais personagens que também gostei muito mas não vou entrar em detalhes com spoilers porque já falei demais.
    Só lendo para compreender! Nossa adorei saber sobre as comidas, doces.
    O único ponto negativo que encontrei foi que algumas palavras/termos tinham significados outros não, mas nada que atrapalhe a leitura. Gosto de saber em detalhes.
    Beijos

  • Lara Caroline
    28 março, 2019

    Ola Isabela
    Eu recebi esse livro antes de ter que cancelar minha assinatura, e ainda não tive a oportunidade de realizar a leitura. Fiquei bem interessada pela história, apesar de achar que vou me sentir incomodada em algumas partes. A edição está lindissima.
    Beijos

  • Maria Alves
    28 março, 2019

    Fiquei impressionada com o que li e horrorizada com esse absurdo, imagina lendo o livro, deve abalar as estruturas, deve ser uma demora para se recuperar e ler outro livro, leituras assim mexem muito com a nossa mente, ainda mais se tratando de crianças. Como algo assim poderia ser uma cultura. São lindos os livros da TAG bem que queria poder assinar rs.

  • ELIZETE SILVA
    27 março, 2019

    Olá! Realmente não é um livro que compraria por vontade própria, até porque foge bastante dos gêneros que eu costumo ler, mas acredito, que essa é uma das maiores vantagens desses clubes de assinatura, ter a oportunidade de sair da nossa zona de conforto, e conhecer livros pouco divulgados em terras tupiniquins, o enredo é bastante impactante, mas infelizmente, muito real, é revoltante saber que esse tipo de coisa ainda ocorra em grande parte do mundo, espero poder conferir o livro em breve.

  • Karina Rocha
    27 março, 2019

    O livro aborda um tema forte, só de imaginar mulheres nessa situação, me dá agonia, serem oferecidas a deusa como prostitutas!! Que bom que a personagem encontrou outra maneira de contornar a situação, fiquei curiosa para ler!!

  • aryela_souza
    27 março, 2019

    Não sei pq, mas a resenha me fez lembra do livro Cidade do sol…
    Gosto de livros assim que abordam assuntos talvez ainda “tabus”, mas qta maior informação e consciencia do que acontece fora de sua bolha, é melhor pra ajudar ao proximo.

  • Angela Gabriel
    27 março, 2019

    Sabe quando eu sei que o livro vai me ganhar por inteira? Quando começo a ler a resenha e já abro a página ao lado no Skoob só para adicionar o livro na lista de desejados! Pode parecer bobo, mas é um jeito de eu não me esquecer de ir procurar o livro..rs
    Que resenha ímpar.
    Eu ainda não tinha lido nada a respeito dele e como adoro uma boa história assim, com base na realidade, fiquei de queixo ao ler um pouco sobre a vida destas meninas e sim, isso das castas lá fora, é algo que existe até hoje…infelizmente!
    A crueldade da realidade batendo à porta!
    Com certeza, quero muito poder conferir e me emocionar!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel(O Vazio na Flor)

  • rudynalvacorreiasoares
    27 março, 2019

    Izabela!
    Tendo lido muito pelos blogs sobre esse Clube da TAG e espero um dia poder fazer a assinatura e participar, porque tenho visto livros ótimos que eles enviam.
    Esse mesmo é um livro diferente e ando carecendo de leituras mais intensas e diferenciadas como essa, onde podemos conhecer uma cultura totalmente diferente da nossa, acompanharmos o drama do enredo e ainda reavaliar minha ´premissa de vida.
    cheirinhos
    Rudy

  • Ma Fleur
    26 março, 2019

    Oi ISA, tudo bem?
    Confesso ter receio de ler livros assim, pois fico muito mal sabe?
    Abala demais o meu emocional, então costumo não ler.
    Mas achei muito linda a premissa do livro, por contar sobre uma cultura que não entendemos e por mostrar essa vida aos olhos de uma criança, que parece amar a vida.
    Deve ser muito linda a história 😉