No dia 16 de dezembro do ano de 1775 nasce uma das principais autoras do século XVIII. Querida por leitores espalhados entre as mais diversas localizações geográficas e reconhecida por seu discurso irônico e afiado, comumente direcionado aos costumes e comportamentos da sociedade de sua época, Jane Austen apresenta-se hoje como o exemplo perfeito de autora clássica cujas obras, ao contrário do que comumente se espera ou acredita, retomando aqui antigos comentários de que clássicos podem espantar leitores por sua escrita difícil ou metáforas complicadas, agrada por suas histórias adoráveis e críticas, reunindo uma legião de fãs apaixonados pelas narrativas que criou.
Proveniente de Steventon e filha do reitor que comandava a paróquia da cidade, Jane Austen dividiu durante muito tempo a residência e atenção dos pais com seus cinco irmãos e sua única irmã. Mesmo provenientes de famílias prósperas, cujo nomes traziam algum significado e prestígio, os pais da autora nunca possuíram uma quantidade exorbitante no âmbito monetário, porém, onde o dinheiro poderia não se estender além do horizonte, os filhos do casal aproveitaram tudo o que uma família amável e repleta de apoio é capaz de proporcionar. Foi graças ao carinho e incentivo do pai que Jane Austen teve acesso à sua biblioteca particular, composta por mais de 500 obras, bem como teve seu primeiro manuscrito enviado para um editor que, embora viesse a recusar a publicação, não foi capaz de reduzir a confiança que o pai possuía no talento da filha.

Com inspiração proveniente dos livros que lia e da sociedade inglesa em transformação, além do apoio de seus familiares, a jovem veio a criar narrativas cativantes e curiosas desde a adolescência, tendo finalizado seu primeiro com apenas dezenove anos. Embora sem publicação no mercado editorial brasileiro, Lady Susan destaca-se pela escrita em forma epistolar e por tratar-se do ponto inicial de sua carreira como escritora. Com a finalização de sua primeira história, ao longo de 1797, a jovem debruça-se sobre duas novas narrativas, estas, reconhecidas hoje como as principais e mais comentadas trajetórias de personagens já elaboradas pela autora. Elinor e Marianne – mais tarde publicado como Razão e Sensibilidade – e Primeiras Impressões, renomeado para Orgulho e Preconceito, também foram enviadas pelo pai de Austen para um editor e recusadas logo em seguida.
Estas duas histórias cativantes, repletas de nuances que interligam a história social das famílias rurais de uma Inglaterra do século XVIII e XIX, apesar de ignorarem eventos históricos cruciais para os rumos de seu país, levam o leitor à observação das mais intimas e interessantes relações entre famílias e classes sociais do meio rural inglês, demonstrando o olhar crítico da autora perante
seus pares. Estas duas histórias, com todo o seu valor reflexivo e apaixonante, foram publicadas somente em 1811 e 1813, respectivamente, firmando a carreira da autora e delimitando sua trajetória enquanto criadora de histórias.

Anel pertencente à Jane Austen, inspiração para muitas réplicas.

Com 20 anos Jane Austen conhece o jovem Tom Lefroy, membro de uma família amiga. Embora conhecessem as rígidas regras referentes ao relacionamento entre jovens enamorados, que buscavam limitar o contato entre mocinhos e mocinhas encantados pelos dotes de seu primeiro amor, além de visar firmar com antecedência um contrato de noivado entre famílias distintas, Jane e Tom ignoraram por completo uma quantidade considerável de regras, como a proibição de envio de cartas caso o noivado não estivesse estabelecido.
O principal relacionamento amoroso de Jane Austen, e único conhecido pelo público geral, foi retratado no filme Amor e Inocência, protagonizado por Anne Hathaway e James McAvoy. Contudo, ao contrário do romantismo cinematográfico e das disparidades com relação aos fatos reais desta relação, Jane Austen e Tom Lefroy encontraram-se em apenas quatro ocasiões, e seu relacionamento não seguiu os moldes hollywoodianos, não tendo a chance de expandir-se, ou mesmo aprofundar-se, como o filme dá a entender. Isto pelo motivo de que, no momento em que a família de Lefroy percebeu o interesse do jovem pela filha de um reverendo, apressou a viagem deste para Londres, iniciando, assim, as buscas por uma jovem proveniente de classe mais elevada  para seu filho.
Sendo uma mulher solteira, a autora dependia do saldo monetário de seus familiares,  bem como das intenções destes para o futuro da família, negócios ou propriedades. Assim, quando seus pais se mudaram para Bath, ela seguiu com eles para a cidade. Quando seu pai faleceu, deixando filhos homens estabelecidos e filhas solteiras sem marido, Jane Austen, sua irmã Cassandra e sua mãe passam a morar em alojamentos, sofrendo com a necessidade de economizar o pouco dinheiro que tinham.
Após anos mudando de alojamento para alojamento, em 1809 estas fortes e incríveis mulheres fixam residência em Chawton, Hampshire. A casa onde Jane Austen viveu seus últimos anos, hoje transformada em museu, pertencia a seu irmão Edward que, por estar vivendo na residência da família Knight, abriu as portas para sua mãe e irmãs, livrando-as assim dos aluguéis que vinham pagando até o momento. Foi em Chawton que a autora revisou obras como Persuasão; Razão e SensibilidadeOrgulho e Preconceito e Emma, e foi nesta casa que sua mente inquieta com os problemas financeiros enfrentados pelas mulheres Austen recebeu o alívio que merecia. Após oito anos escrevendo, tendo a chance de ver suas obras publicadas, dentre elas Mansfield Park (1814) e Emma (1815), e deixando outros romances para trás, Jane Austen dá seu último suspiro, vindo a falecer em 18 de julho de 1817, vítima do que hoje reconhece-se como mal de Addison. Os livros A Abadia de Northanger e Persuasão, finalizados em vida, foram publicados após sua morte, completando assim uma carreira única, reflexiva e apaixonante de uma das mais importantes autoras da Inglaterra.

Casa Museu Jane Austen, localizada em Chawton.

Com suas narrativas cativantes, repletas de heroínas únicas, Jane Austen construiu muito mais do que belas histórias de amor e superação, ela foi capaz de unificar o tom de suas histórias, permitiu ao leitor perceber nuances de uma época distante, conseguiu julgar costumes, ações e relações na mesma medida em que interligava a trajetória de suas personagens ao curso da narrativa.Com seu discurso afiado, demonstrou elementos da comunidade rural inglesa do século XVIII e, embora tenha deixado de lado eventos importantíssimos, transcorridos quando ainda era viva, firmou sua posição no meio literário, conquistando leitores com obras ricas, capazes de, mesmo que sutilmente, ressaltar características de uma época fortemente romantizada.
Além das obras mencionadas, a autora deixou para trás um romance inacabado, nomeado por The Watsons, além de rascunhos de um novo projeto intitulado Sandition.

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