Muito já foi discutido e muito ainda se comenta sobre a trajetória de William Shakespeare, sobre os detalhes que constituíram sua infância, sobre as possíveis inspirações para as obras icônicas que escreveu, sobre as pequenas brigas e perseguições sofridas perante dramaturgos que dividiram espaço com sua personalidade misteriosa. Alguns ousam, ainda, indagar acerca da verdadeira existência do autor, questionando se sua figura não seria mera invenção ou pseudônimo para um trabalho realizado por várias mãos. Em meio a tantas teorias, mitos, verdades e indícios acerca do nome William Shakespeare, finalmente chegou o momento de conhecermos um pouco mais de sua natureza, contexto e trajetória.

Afim de compreendermos, da forma mais aprofundada e detalhada possível, os passos trilhados por Will ao longo de sua vida e carreira, considero importante voltar o olhar, ainda que brevemente, para as figuras materna e paterna deste adorado dramaturgo.

John Shakespeare era filho de um trabalhador rural sem-terra, proveniente da pequena comunidade de Snitterfield. Embora suas origens remetessem a uma realidade difícil, diversos documentos da época, bem como indícios históricos, demonstram que a vida de John estava decolando. Pouco a pouco, o jovem que começou sua carreira produzindo luvas para vender na cidade de Stratford-upon-Avon conquista importantes cargos cívicos – tornando-se uma espécie de administrador da cidade – o que, por sua vez, garantiu-lhe status social e considerável renda anual, possibilitando a criação de uma proposta de casamento para Mary Arden, filha do homem que arrendava terras para o pai de John. Acontece que o sobrenome Arden possuía grande renome, uma vez que a família era considerada uma das mais distintas de Warwickshire, tendo linhagem indexada no famoso Domesday Book livro de registros compilado por Guilherme, o Conquistador, no ano de 1086.

Devido ao casamento com Mary Arden, o status social de John Shakespeare se eleva ainda mais, permitindo que sua família se tornasse respeitada em toda Stratford Avon, além de garantir determinada segurança perante os desafios do futuro e contexto sócio cultural pelo qual passava a Inglaterra ao longo dos anos 1530.

Para além dos detalhes do nascimento de Will, do casamento de seus pais, da trajetória artística do famoso dramaturgo e de seus curiosos testamentos, não posso me considerar satisfeita sem antes mencionar, mesmo que em momentos pontuais, uma parte de tudo aquilo que acontecia no plano geral do país e que, consequentemente, viria a afetar a vida de inúmeras pessoas. Neste sentido, deve-se entender que a Inglaterra de 1533 transforma-se em reino protestante a partir do momento em que Henrique VIII – homem divorciado que confiscou as riquezas e objetos de diversos mosteiros católicos – coroa-se rei.

Deste ponto em diante, estendendo-se pelo próprio reinado de Elizabeth, a Inglaterra se desliga oficialmente de Roma e, não contente, proíbe e inicia um processo de perseguição para todo católico que vivesse em seus domínios. Contudo, vale ressaltar que não existem mocinhos e vilões nesta história, uma vez que, ao longo do reinado de Elizabeth o próprio papa defendeu que o assassinato da “rainha herege” não seria considerado pecado mortal, oferecendo uma verdadeira licença para matar. Em um país que, ao longo da Idade Média conseguiu se livrar de praticamente toda a população judaica, não surpreende que, partindo de 1533, protestantes perseguissem, torturassem e assassinassem católicos ou que católicos elaborassem planos para assassinar a rainha e tomar o poder.

Levando em consideração esta realidade, não espanta descobrir que, com relação a crenças religiosas, além de outros aspectos inusitados e perigosos, pouco se sabe acerca do que pensava e defendia William Shakespeare. Embora a vida de Will mal tenha se descortinado em formato de texto, o mistério, cuidado, precaução e silêncio acerca de determinados assuntos e temáticas permanecerá ao longo de toda a sua vida, ressaltando o quanto o dramaturgo foi cauteloso afim de garantir sua estabilidade econômica e social, além de sua cabeça presa ao corpo.

Casa de nascimento de William Shakespeare, localizada em Stratford upon Avon.

William Shakespeare nasceu por volta de 1564 e, graças ao status e condição financeira de sua família, teve acesso à educação desde criança. Ao longo da infância ele frequentou a King’s New School, escola de origem católica construída pela Guilda de Santa Cruz que recebeu considerável dotação em 1482 para que pudesse funcionar como escola gratuita. Mesmo funcionando de maneira gratuita, a King’s New School não atendia a parcela feminina da população, tampouco os indivíduos mais pobres da comunidade e, não vamos nos enganar, gerava consideráveis gastos às famílias que matriculavam suas crianças, já que estas deviam arcar com todas despesas do aluno ao longo do processo de aprendizagem.

Apesar do custo gerado, o pequeno Will recebeu o privilégio de frequentar a escola em todos os anos voltados a sua formação básica. Isso garantiu que a criança aprendesse latim, conhecesse e compreendesse alguns dos princípios essenciais da escrita poética e dramática, além de representar pequenos papéis em peças de teatro promovidas pela escola. Essas primeiras experiências com peças de teatro e escrita garantiram embasamento ao futuro dramaturgo, permitindo que reconhece seus fundamentos, observasse o que mais chamava a atenção do espectador e, de maneira geral, iniciassem o processo de delineamento de algumas de suas características mais marcantes. Como expressa Stephen Greenblatt em seu livro Como Shakespeare se tornou Shakespeare, são suas primeiras experiência escolares, além de todas as peças que presenciou quando vivia em Stratford-upon-Avon, que demonstram ao dramaturgo que o teatro não deve limitar-se a elite culta, mas também atingir os cidadãos comuns, oferecendo lições e mensagens passíveis de serem absorvidas por todo e qualquer espectador.

Com dezoito anos de idade William Shakespeare já planejava sua entrada no ramo da dramaturgia, contudo, muito especula-se acerca dos possíveis caminhos trilhados por Will para que, efetivamente, ingressasse em uma das mais importantes companhias de teatro de Londres. Alguns autores mencionam que tudo teve início devido a sua afiliação a companhias itinerantes, o que acabou direcionando-o a capital, porém, outros defendem que o dramaturgo deu início a sua carreira por meio da escrita e atuação de pequenas peças nos arredores de sua cidade, guardando dinheiro para, então, tentar a sorte com as grandes e famosas companhias de teatro de Londres.

Tendo iniciado sua carreira por meio de pequenos serviços, ou da associação com companhias itinerantes, sabe-se que, antes de ir para Londres o jovem Will casou-se com Anne Hathaway. Anne Hathaway era mais velha que William, encontrando-se em posição inusitada e privilegiada para uma dama da época, ela era dona do próprio nariz. A moça desfrutava de considerável quantia deixada pelo pai após sua morte, além de ter recebido outra parcela após o casamento. Apesar de todos esses detalhes técnicos, o mais curioso na relação firmada entre Will e Anne é que, pouco após a cerimônia e mudança de residência o jovem segue para Londres, deixando para trás uma Anne que, acostumada a tomar decisões e viver sua vida de forma razoavelmente livre, passa a cuidar da casa e dos filhos de Will, recebendo apenas visitas esporádicas do famoso dramaturgo. Neste contexto outro aspecto chama a atenção: o fato de que nenhuma, absolutamente nenhuma carta amorosa de Will para Anne foi encontrada, demonstrando o distanciamento do casal ao longo de toda sua vida conjugal.

Por volta de 1591, após ter fixado residência em Londres e direcionado todos os seus esforços para entrar no mundo da dramaturgia, William Shakespeare finalmente torna-se figura comentada e reconhecida. A seu favor estava todo o cenário sócio cultural da cidade. Isto porque as companhias teatrais perceberam que, ao fixarem seus domínios sob teatros específicos e apresentarem peças diversificadas ao longo de cada temporada, poderiam adquirir bons frutos, além de formar um time de escritores, atores, figurinistas, produtores e diretores capazes de elaborar novidades que instigavam ainda mais o imaginário do público elisabetano.

Estatua em homenagem ao autor, localizada no Central Park.

É em meio ao ritmo frenético da cidade grande, bem como da necessidade constante de produzir novas peças para Os Homens do Lorde Camerlengo – companhia teatral da qual fazia parte – que William Shakespeare escreve algumas de suas histórias mais icônicas e memoráveis. Contudo, ainda que eu, enquanto leitora apaixonada pelo famoso escritor, faça questão de destacar e indicar algumas de suas obras ao fim deste texto, sinto a necessidade de redirecionar nosso olhar para mais algumas características e estratégias empregadas quando da criação de suas histórias.

Acontece que Will aprendeu com seus conterrâneos e rivais a apropriar-se de todo o tipo de narrativa. De maneira primorosa ele interliga acontecimentos históricos, mitos provenientes de reinos distantes, seres fictícios, acontecimentos e críticas contemporâneas a indagações acerca da própria natureza humana. É graças a esta união confusa e adoravelmente diversificada que se fundamentaram as mais variadas teorias sobre o autor e sobre quem, verdadeiramente, ele estaria retratando em suas histórias. Da mesma maneira, é graças a sua habilidade de conectar sagrado e profano, elite e pobreza, rural e urbano, acessibilidade e distanciamento, que suas peças proporcionaram as mais inusitadas interpretações. Assim, o que para alguns é uma verdadeira história de injustiça e preconceito social, para outros pode apresentar-se como narrativa acerca da justiça e busca pela verdade. O que para muitos pode tratar-se de mensagem sobre um amor impossível, para outros pode ressaltar-se como a mais pura demonstração da imaturidade e irracionalidade do jovem.

Ao longo de toda a sua vida e carreira William Shakespeare se manteve distante de intrigas, conspirações e comentários potencialmente polêmicos. Conhecendo o contexto em que vivia ele manteve-se afastado. Quando seus rivais proferiram ou escreveram ataques diretos ele pouco comentou; enquanto a rainha Elizabeth se preocupava com possibilidades de assassinato, torturando e assassinando traidores e católicos, o autor permanecia levemente obscurecido, inserindo pequenas críticas em diversas peças teatrais; enquanto o mundo girava ao seu redor ele reservava recursos para a prometida e sonhada aposentadoria.

A necessidade e vontade de descansar é tão grande que, em suas últimas produções – como o exemplo da peça A Tempestade – encontramos sempre um personagem envelhecido pronto para deixar o palco, preparado para dizer adeus, realmente em paz com seu destino e realizações. Após tantos anos trabalhando incessantemente tudo o que o dramaturgo queria era passar seus últimos dias junto da filha, do genro e da neta. Ainda que pareça um destino melancólico para um nome tão importante, percebe-se algo de especial e encantador no retorno de Will para Stratford-upon-Avon, na sua repentina necessidade de passar um tempo com a filha, na vontade de retornar às raízes.

Em 1616, ano de seu falecimento, William Shakespeare deixa em testamento a grande maioria de suas propriedades, residências e recursos financeiros para a filha mais velha, Susanna, sua preferida e verdadeira companhia nos últimos momentos. Para a irmã e filha mais nova ele deixa algumas provisões menores, mas, é com relação a herança deixada para a esposa que nos espantamos. Para Anne Hathaway ele deixa nada mais, nada menos do que a segunda de suas melhores camas com mobília!

Perfeitamente imperfeito, misterioso e encantador, de habilidade inquestionável, criador de algumas das narrativas mais amadas e icônicas da literatura mundial, William Shakespeare nos presenteou com algo que vai além de histórias, ele nos apresentou a nós mesmos, nos mostrou nossa humanidade em trajetórias únicas e confusas. Por esse motivo indico suas obras, por esse motivo amo suas peças, por esse motivo me emociono ao pensar no presente que esta figura nos deixou!

Mas, para finalizar este texto, recomendo que os apaixonados se arrisquem em Romeu e Julieta; que os prontos para conhecer seus últimos anseios busquem seu Rei Lear e A Tempestade; que os de reflexivos leiam Hamlet e Macbeth; que os apaixonados por fantasia confiram o Sonhos de uma Noite de Verão; que os curiosos procurem A Megera Domada e Otelo; que os justos e interpretativos leiam Medida por Medida e, se possível, que todo leitor do Estante Diagonal cultive o mesmo amor que sinto pelas obras do autor, tendo-as lido ou não.

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