O processo de colonização no Brasil não foi sozinho um processo sanguinário, doloroso e opressor contra os povos indígenas. Na Argentina e região se deu também pela violência, pela perseguição e pela divisão racial entre negros, indígenas e brancos. Os espanhóis estiveram à frente, trazendo inúmeras questões sociais em pauta. Em As Meninas do Laranjal temos o contexto apresentado desta época de
colonização nas terras da América mas também com protagonismos diversos.

Antonio é um homem, mas no início de sua fase quando criança e vivendo nas terras espanholas era uma moiçola e noviça, como bem dizia. Vivia em um convento onde sua tia liderava e a partir de uma fuga que o leva à forca nas Américas, ele consegue – e acredita-se através do que ele chama de Virgem do Laranjal – uma benção para seguir vivendo.

– O que é um reino?
– Bem, um país que tem um rei, como Espanha.
– O que é um rei, tchê?
– Um chefe de todos, escolhido por Deus.

As coisas aparentam melhora quando consegue uma oportunidade para trabalhar como secretário do capitão da guarda espanhola. Parece ir tudo bem quando se vê envolvido com duas meninas indígenas que ele resgata de uma prisão cruel do encarceramento de sua época. Mas tudo precisa ser mantido em segredo em meio à floresta.

– Mba’érepa?
– Sementes porque são frutos, e os frutos carregam sementes. Gomos, porque sim. Alguns frutos são de gomos e outros não, assim como algumas árvores são retas e outras retorcidas, você entende, Michi?

Com essa nova vida que leva, Antonio passa a escrever para sua tia, na qual narra os acontecimentos que lhe trouxe até ali. Enquanto escreve em meio às interrupções constantes. as meninas indígenas que resgatara passam a questioná-lo inúmeras coisas ditas como até então naturalmente entendíveis para os espanhóis: elas perguntam sobre Deus, o paraíso, o inferno, as leis ditas como naturais, perguntas estas que às vezes nem Antonio sabia respondê-las direito.

As Meninas do Laranjal se coloca como uma literatura enriquecida pela diversidade: em meio a diálogos e reflexões entre brancos e indígenas, temos contato direto com o vocábulo guarani, latim e os discursos imperiais da Espanha da época.

Inspirado na vida de Catalina de Erauso, Gabriela Cabezón Cámara inverte a história conturbada de Catalina – uma das responsáveis por conduzir a estrutura opressora de poder contra os povos oprimidos – e coloca um protagonismo único e fundamental: uma pessoa transgênero em um contexto totalmente diferente. Portanto esta é uma leitura válida para aqueles que buscam reflexões íntimas e delicadas, sem exageros mas com toques históricos importantes.

  • Las niñas del naranjel
  • Autor: Gabriela Cabezón Cámara
  • Tradução: Silvia Massimini Felix
  • Ano: 2025
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 2016
  • Amazon

rela
ciona
dos

Deixe seu comentário