John Rambo, um veterano de guerra do Vietnã, está em busca de um lugar para se reerguer na sociedade americana pós-guerra. Ao chegar a uma pequena cidade no interior, Rambo é abordado de forma hostil pelo xerife local, Will Teasle, que o vê como um vagabundo, desajustado e uma ameaça à ordem pública. Após uma série de mal-entendidos e escaladas de violência, Rambo, movido pela pressão e pela memória traumática da guerra, se vê forçado a lutar pela sua sobrevivência contra a autoridade local, em uma perseguição que toma proporções épicas.

O que começa como uma simples prisão por um crime menor, logo se transforma em um confronto de forças imbatíveis, entre a polícia e um homem que, apesar de estar sozinho e ferido, tem habilidades que tornam a situação muito mais perigosa do que Teasle poderia imaginar.
Todo mundo conhece o Rambo mesmo que não tenha visto a série de filmes que leva o mesmo nome. Mas acredito que, assim como eu, poucas pessoas sabem que os filmes são baseados nesse livro, publicado em 1972. Eu mesma nunca tinha visto o primeiro filme, fato que eu resolvi depois da leitura.
David Morrell é brilhante na forma como desenvolve Rambo, não apenas como um “anti-herói”, mas como um personagem com profundidade psicológica. Em First Blood, Rambo não é o símbolo de força que muitos lembram dos filmes. Ele é um homem quebrado, marcado pelas cicatrizes da guerra, incapaz de se ajustar à sociedade que o rejeita. Morrell explora as emoções complexas de Rambo, como solidão, medo, raiva, e angústia que surgem de sua desconexão com o mundo civil. Isso torna o personagem mais realista e menos uma caricatura de “força bruta”.
Além de Rambo, os outros personagens também são bem desenvolvidos, especialmente o xerife Teasle, que, apesar de ser inicialmente retratado como um vilão, também carrega suas próprias complexidades. Ele é um homem de ordem, mas com traços de preconceito e arrogância, o que acaba contribuindo para a escalada do conflito.
A narrativa de First Blood é ágil e direta, mas também carregada de emoção. O autor consegue equilibrar momentos de ação intensa com passagens mais introspectivas e carregadas de reflexão. O ritmo do livro é envolvente, mantendo o leitor na ponta da cadeira, mas sem perder a oportunidade de explorar os dilemas internos dos personagens.

First Blood é muito mais do que uma história de ação. Morrell utiliza a figura de Rambo como um reflexo dos efeitos devastadores da guerra, não só no corpo, mas principalmente na psique dos veteranos. Rambo é um homem que não consegue escapar de sua experiência no Vietnã, e seu comportamento violento e sua resistência à autoridade são, na verdade, manifestações do trauma e da falta de suporte psicológico para os veteranos que voltam para uma sociedade que não sabe como lidar com eles.
“Vamos ver o quão durão você realmente é”
O cenário da pequena cidade também é retratado de forma vívida, com Morrell criando uma sensação de claustrofobia e isolamento que é crucial para a narrativa. A interação entre a natureza selvagem e a sociedade civilizada serve como metáfora da luta interna de Rambo, ele não pertence nem ao mundo da guerra nem ao mundo da paz.
A crítica social também está presente em todo o livro, com Morrell questionando o que significa ser “normal” em uma sociedade que marginaliza aqueles que não se encaixam em seus padrões. Rambo, um homem marcado pela guerra, é um reflexo do isolamento e da incompreensão que muitos veteranos enfrentam ao retornar para casa. Tema que eu adoro ler!
A principal diferença entre o First Blood, de David Morrell, e a adaptação cinematográfica de 1982 é o tratamento do personagem John Rambo e as temáticas abordadas. No livro, Rambo é um veterano de guerra profundamente traumatizado, um homem quebrado pela violência e pelo abandono, cuja luta é mais interna do que externa, refletindo os horrores da guerra e os efeitos devastadores do trauma psicológico. O filme, por outro lado, transforma Rambo em um herói de ação mais tradicional, quase imbatível, e seu conflito com a autoridade é tratado de forma mais superficial, com uma ênfase maior na ação e na criação de um ícone cultural.
Enquanto o livro explora a alienação e o sofrimento de um homem que não encontra seu lugar na sociedade, o filme focou em uma narrativa de resistência e vingança, dando a Rambo uma imagem de símbolo de força e justiça, mais próxima de um herói de filmes de ação do que do homem marcado pelo trauma que Morrell criou. Embora o filme de 1982, estrelado por Sylvester Stallone, tenha se tornado um ícone da cultura pop, o livro oferece uma perspectiva mais sombria e realista da história. Rambo é mais vulnerável, mais atormentado, e o livro revela que a verdadeira luta de um soldado não é apenas contra os inimigos externos, mas contra os fantasmas do passado.
Rambo: First Blood é um livro poderoso que transcende os limites de um simples thriller de ação. David Morrell entrega uma história com múltiplas camadas, explorando temas de trauma, resistência, e as cicatrizes psicológicas que a guerra deixa. A trama é eletricamente carregada, mas também humana, com personagens complexos que tornam a leitura envolvente e reflexiva. Para os fãs do filme ou para quem quer começar conhecendo Rambo pela literatura, assim como eu.

- Rambo First Blood
- Autor: David Morrell
- Tradução: Alexandre Callari
- Ano: 2025
- Editora: Pipoca e Nanquim
- Páginas: 292
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