Pai Ubu é um oficial do reino do rei Venceslau da Polônia. Incentivado por sua esposa, Mãe Ubu, ele vai arquitetar um golpe de estado contra o rei, com a ajuda do capitão Bordadura. Assim, após uma chacina, Rei Ubu dá início a um governo marcado por muita violência e crueldade. 

Publicado pela primeira vez em 1896, Ubu Rei, de Alfred Jarry, é uma das obras mais provocativas e revolucionárias da história do teatro. Considerado o precursor do teatro do absurdo e do surrealismo, Alfred Jarry rompeu com todas as convenções dramáticas de sua época ao criar uma peça que mistura o grotesco, o cômico e o trágico de forma debochada e violenta. O resultado foi um escândalo: a estreia em Paris gerou vaias, protestos e até brigas entre o público e os artistas. Ainda assim, a obra se consolidou como um marco da vanguarda teatral e da crítica política universal.

Alfred Jarry (1873–1907) foi um escritor francês que viveu intensamente o espírito rebelde do final do século XIX. Com Ubu Rei, ele questionou a seriedade da arte, o poder da burguesia e a hipocrisia das instituições. A peça inaugura uma estética do absurdo e da anarquia, antecipando autores como Samuel Beckett e Eugène Ionesco. A fala inicial — “Merdre!” (uma distorção de “merde”, palavrão em francês) — já anuncia o tom da peça: escatológico, insolente e libertador. Jarry cria um anti-herói grotesco, Pai Ubu, símbolo da corrupção e da estupidez humana, que reflete tanto os tiranos políticos quanto o homem comum tomado pela ganância.

“Afinal de contas, que espécie de rei és tu, Pai Ubu, que só sabes matar todo mundo!”

No Brasil, Ubu Rei foi encenado em diversas versões e contextos, sempre com grande impacto. O Teatro Oficina, dirigido por José Celso Martinez Corrêa, apresentou uma das montagens mais marcantes, nos anos 1960 e 1980, transformando a peça em uma alegoria do poder autoritário e da repressão política durante a ditadura militar. Mais recentemente, companhias de teatro contemporâneo continuam revisitando Ubu Rei como crítica ao autoritarismo, à corrupção e à vulgaridade da política moderna. Cada nova encenação brasileira ressignifica a farsa de Jarry, provando sua atualidade inquietante.

O centro da peça é o grotesco Pai Ubu, uma caricatura de rei tirano, covarde e glutão. Ele é movido por um único desejo: o poder. Sua brutalidade é absurda, mas também ridiculamente humana. Mãe Ubu, sua esposa, é igualmente ambiciosa, instiga o marido à traição e ao assassinato, lembrando uma versão grotesca de Lady Macbeth. Os demais personagens, como o Rei Venceslau, o Príncipe Bugrelas e os nobres poloneses, funcionam como peças de um tabuleiro satírico, onde todos revelam diferentes facetas da corrupção e da submissão. Aqui, não há heróis verdadeiros, apenas seres deformados pela ganância e pela estupidez coletiva.

Nos cinco atos apresentados na peça, Alfred Jerry trabalhou alguns temas importantes: O poder e a corrupção através da figura de Ubu, que mata, rouba e governa com despotismo grotesco, expondo a lógica irracional dos regimes autoritários; o grotesco e o absurdo, com uma tragédia política em comédia escatológica, ridicularizando a seriedade das instituições; e apresenta uma crítica social e moral, como uma denúncia à vulgaridade e ao egoísmo humano.

Eu gostei muito do livro e realmente me vi rindo do absurdo de toda a trama. Além disso, fiquei revoltada também com Ubu Rei e com a sua tirania. Ubu Rei é uma sátira feroz e atemporal sobre o poder, a ganância e a estupidez humana. Ler Ubu Rei é encarar o grotesco que habita o humano.

  • Ubu Roi
  • Autor: Alfred Jarry
  • Tradução: Ferreira Gullar
  • Ano: 2025
  • Editora: José Olympio
  • Páginas: 176
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