Confesso ter perdido a conta da quantidade de seriados, voltados à um público mais jovem, que conferi ao longo destes meus anos como consumidora de séries. Diversas destas histórias foram compartilhadas com vocês em formato de resenha, outras, senti não valer a pena gastar palavras e tempo na criação de análises e comentários, porém, algumas ainda se encontram naquele limbo do “um dia irei falar sobre esta série” e por muito tempo Os Inocentes esteve em meio a este grupo.

Fortemente direcionada para a clássica fórmula do jovem casal apaixonado, cujo amor impossível desafiará céu e terra com o intuito de vencer todos os obstáculos que surgirem em seu caminho, o seriado – vale ressaltar antes que os avessos a romances dramáticos comecem a revirar os olhos – insere elementos fantásticos e uma boa dose de mistério ao longo da narrativa. Desta forma, edifica-se uma história de adolescentes apaixonados repleta dos mais típicos dramas e escolhas equivocadas que tanto nos acostumamos a acompanhar, mas que, ainda assim fascina por suas peculiaridades, elementos bem justificados e ações que condizem com o contexto e personalidade de cada personagem, além de toda a execução técnica e aspecto visual acertados.

O foco desta história está no relacionamento de Harry e June. Ele é um adolescente prestativo, quieto, educado, filho de uma das mais importantes policiais da cidade, sendo ainda o principal responsável pelos cuidados oferecidos ao pai, outrora professor de artes, que, após sofrer um derrame, passa os dias em casa isolado do mundo e da própria família. Ela, por sua vez, é uma garota sonhadora, um tanto quanto ingênua, pertencente a uma família misteriosa e cheia de segredos, sua mãe desapareceu e nunca entrou em contato, seu pai é absurdamente protetor e proíbe grande parte de seu contato com o mundo. Neste contexto os dois se conhecem, fortalecem laços de amizade, compartilham pensamentos e anseios, acabam se apaixonando. Contudo, é no momento em que o jovem casal concretiza seus planos de fuga que os mistérios e elementos desta história surgem para instigar o espectador.

A fuga de Harry e June transforma-se em uma verdadeira jornada por mistérios e segredos do passado quando são abordados por um homem desconhecido que afirma ser capaz de levar a garota para junto da mãe desaparecida. O estranho possuí uma mensagem gravada especialmente para June, quem percebe-se cada vez mais direcionada a acreditar em qualquer história que lhe apresentem acerca do inexplicável desaparecimento da mãe, mas, quando o desconhecido homem força a garota a entrar em seu veículo afim de irem juntos para sabe-se lá onde um embate tem início e todos os envolvidos irão descobrir, pasmos e da forma mais traumática possível, que June possuí a habilidade de assumir a forma, voz e pensamentos de qualquer ser humano que venha a tocar.

Partindo deste ponto a fuga entre dois jovens amantes transforma-se em uma jornada por respostas, uma busca por entender os limites das habilidades de June, por desvendar os segredos guardados não apenas por seu pai, mas por diversos outros personagens envolvidos, direta ou indiretamente, com o desaparecimento da mãe da garota. Por centrar-se no relacionamento de Harry e June, observaremos os desafios que enfrentam, as escolhas que fazem, o apoio praticamente incondicional de um enquanto percebe que o outro se perde em pensamentos, histórias e em si mesmo. Do mesmo modo, observaremos as dores e passado de cada personagem, tão relevantes e belamente explorados quanto o casal principal, ingressando em uma narrativa que, em meio a poderes e habilidades, desaparecimentos, segredos e mistérios, delineia uma adorável história de amor e superação, bem como do encontrar-se e descobrir-se como verdadeiramente é.

Confesso ser um tanto quanto complicado abordar de maneira mais aprofundada os detalhes e nuances da narrativa de Os Inocentes, isso porque a premissa inicial reduz grande parte da complexidade da história e, principalmente, pelo fato de que qualquer informação adicional pode ser considerada um spoiler, interferindo, assim, na experiência do espectador. Contudo, vale ressaltar que o seriado não se limita somente ao relacionamento de um casal adolescente, ou nos poderes recém descobertos de uma garota perdida e confusa, ele se aproveita destes elementos iniciais para trabalhar um enredo de mistérios e descobertas, bem como explorar relações entre pais e filhos, as consequências de nossas escolhas para a vida daqueles que estão à nossa volta além das essências das mais diversas personalidades humanas.

Em diversos momentos a série se baseia em uma linguagem narrativa mais simples, em uma forma de contar a história que possibilite o estabelecimento de conexões entre personagens e espectadores mais novos. Mas a verdade é que mesmo com as clássicas aventuras e desventuras adolescentes, os dramas potencializados por um relacionamento romântico, a busca por encontrar-se e descobrir-se como verdadeiramente é, o seriado trabalha cada um destes elementos – comumente observados em séries voltadas a um público mais jovem – com maturidade, atenção aos detalhes, cuidado para que tudo mantenha-se alinhado e plausível, podendo vir a agradar espectadores mais velhos, que já não relevam deslizes e falta de cuidado na construção de narrativas.

Por fim, resta destacar o cuidado da produção para com todos os aspectos visuais referentes a construção do seriado. Existe aqui um equilíbrio interessante entre locações, cenas e paisagens urbanas e naturais. Da mesma maneira em que trabalha belamente os cenários amplos da paisagem natural norueguesa, explorando tomadas aéreas, ou mesmo terrestres, capazes de demonstrar a extensão dos elementos naturais que cercam determinados personagens, a série constrói cenas urbanas que, muito mais do que demonstrar perseguições, conversas ou pontos cruciais para a narrativa, nunca perde a chance de construir uma bela cena, uma bela tomada, um belo plano para que o espectador possa admirar e, na mesma medida, interpretar enquanto avança por cada episódio.

Os Inocentes pode não se apresentar como o seriado de maior popularidade, o mais comentado pelos apaixonados por séries, aquele que todos os assinantes da Netflix maratonaram logo no dia de seu lançamento, contudo, ele é tão interessante, bem estruturado e construído quanto tantos exemplos de séries famosas produzidas pelo serviço de streaming. Com uma narrativa interessante, aprofundada na medida certa, repleta de elementos que podem agradar não apenas o público mais jovem, mas também espectadores mais velhos, o seriado é um exemplo perfeito de que se pode produzir uma história de amor proibido entre dois jovens, sem cair nos antigos deslizes, tão conhecidos por quem já conferiu uma ou outra série com temática adolescente. Para os que procuram algo que não ria na cara da construção da narrativa, ou mesmo da cara do próprio espectador, quem deve suportar os acontecimentos e escolhas de personagens mais incompreensíveis, temos aqui uma opção interessante.

E, caso nada do que destaquei foi capaz de lhe convencer, talvez todo o aspecto técnico e visual do seriado possa realizar o trabalho que iniciei, pois se existe um ponto em que Os Inocentes acerta em cheio é o visual que constrói ao longo de toda a primeira temporada!

  • The Innocents
  • Criado por: Hania Elkington e Simon Duric
  • Com: Sorcha Groundsell, Percelle Ascott, Guy Pearce, Jóhannes Haukur Jóhannesson
  • Gênero: Fantasia, Mistério, Drama
  • Duração: 8 episódios - 45 a 55 minutos

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