Rachel Daly é uma mulher recém casada que acaba de abandonar tudo que tinha em Londres para viver entre as montanhas e minas da Cornualha, região à sudoeste da Inglaterra, que no livro é chamada por seu nome em inglês, Carnhallow. Mas abandonar sua antiga vida parece não ser um problema para ela, seu marido, David Kerthen é rico, tem uma casa maravilhosa numa região linda, com praia, paisagens incríveis e um passado maravilhoso, com isso, Rachel não precisa mais trabalhar, ela é a nova esposa de um viúvo bem quisto na região.

Sim, David já fora casado, sua mulher, Nina, faleceu a pouco tempo, durante o Natal, e deixou um filho fruto do relacionamento dos dois, Jaime, um garoto inteligente e fofo, mas ainda visivelmente perturbado pelo que aconteceu com sua mãe.

Não é difícil imaginar que a relação entre Rachel e o enteado em algum momento entrará em conflito e isso acontece rapidamente, com Jaime falando que sua mãe não está morta e voltará em breve, e que o Natal será o dia da morte de Rachel. O Natal inclusive tem uma importância central na trama, já que a maioria dos capítulos têm como título o tempo que falta em dias para a data.

A Criança de Fogo é escrito em primeira pessoa, Rachel conta sua história, seus problemas psicológicos e seus planos, o que eu achei muito interessante, o escritor consegue realmente passar a ideia de uma pessoa contando a história, sem mostrar informações dos outros personagens que ela não teria como saber ou mesmo a visão deles sobre certos assuntos, que só aparecem quando estão conversando diretamente com Rachel.

Aliás, a parte discricional do livro é perfeita, tanto no que diz respeito à Rachel, como na ambientação da região onde a história acontece. Os detalhes dados sobre as minas e a paisagem da Cornualha faz o leitor se sentir viajando pela Inglaterra e o medo que a personagem sente do novo ambiente e de toda sua história, carregada de trabalhos forçados e morte, é apenas o começo do terror que o escritor tenta passar na obra. Terror esse que, imagino eu, tenha sido muito mais forte em quem viveu na região, como é impactante para nós quando alguma história se passa em terras brasileiras. Porém, infelizmente eu não consegui “comprar” essa ideia de terror que o escritor tentou passar, talvez por estar acostumado com coisas muito mais pesadas ou realmente por o livro ser mais focado para o público da região, mas não senti medo das minas, nem o terror psicológico.

Por ser neste estilo, a forma como o escritor constrói o texto acaba deixando o desenvolvimento muito prejudicado, ele utiliza muitas páginas para essa ambientação grandiosa e esquece do tema central da trama. É como se deixasse pouco tempo para desenvolver o terror psicológico que deveria haver e sem ter praticamente nada de ação até as 50 páginas finais, onde ocorre realmente o clímax de toda história, o que poderia ser um gran finale, acaba sendo decepcionante, já que muitos fatos ocorridos não passam a credibilidade necessária para se tornarem realistas.

Eu, particularmente, achei a personagem de Rachel muito chata, com objetivos fúteis e extremamente interesseira, com um visível objetivo de engravidar de David para poder segurar seu novo casamento e parar de ter que “pisar em ovos” no tratamento com o enteado, já que uma briga entre os dois poderia muito bem provocar o fim do seu relacionamento. Isso é uma das incongruências da história, já que, sem dar spoiler, seu comportamento muda da água pro vinho, sem explicação, deixando de dar importância para coisas que eram vitais a ela durante todo o livro, o que dificilmente ocorreria da maneira como aconteceu.

S. K. Tremayne é um dos três codinomes do jornalista inglês Sean Thomas. Ele  possui mais de 10 livros lançados, porém apenas 3 sobre esse pseudônimo. Com este pseudônimo o autor já tem 3 livros lançados, sendo 2 deles já traduzidos para o português brasileiro, o primeiro de sua série é As Gêmeas do Gelo, o terceiro livro se chama A Menina do Bosque e já foi lançado ano passado em Portugal, mas ainda sem previsão de lançamento aqui no Brasil.

Tremayne é especialista em arqueologia, talvez por isso a qualidade imensa do trabalho dele na descrição do ambiente das minas, mas, visivelmente, falta qualidade no enredo cru da trama, na parte da objetividade e do que o leitor deseja ver no livro contra o que o escritor quer mostrar. Ele nitidamente queria mostrar o ambiente, o que pra mim ficou bem claro ser uma grande paixão dele (e isso ele faz muito bem), mas um brasileiro que compra essa obra, que promete um thriller psicológico horrendo envolvendo uma criança e uma estranha, espera o que? Uma paisagem muito bem descrita? Eu pelo menos não esperava isso, queria ação, queria mortes, queria sustos, pavor e não tive, mas inegavelmente, a maneira como ele apresenta a Cornualha deixa qualquer um com um imenso desejo de visitar a Inglaterra. E vocês, preferem paisagens ou terror?

  • The Fire Child
  • Autor: S. K. Tremayne
  • Tradução: Regiane Winarski
  • Ano: 2019
  • Editora: Bertrand Brasil
  • Páginas: 368
  • Amazon

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