Louisa nasceu na Inglaterra, mas passou a vida inteira no Ceilão, lugar este que aprendeu a amar e admirar. Casada a muitos anos com Elliot, sua vida parece feliz apesar dos problemas com a concepção. Louisa não consegue ter um filho, ela sofreu diversos abortos e até teve uma filha natimorta, o que a abala muito, e é uma situação difícil entre o casal. Outra rusga entre ambos, é a natureza complicada do marido – mimado, egoísta e imaturo -, que ainda por cima é viciado em jogos e tem problemas com a bebida. Como deu para notar, apesar da fachada perfeita, a vida de casada escondia vários problemas.

A verdade é que Elliot nunca foi um bom marido, ele raramente estava presente e Louisa sempre precisou lidar com as dificuldades das perdas praticamente sozinha. A única pessoa que aparentemente parecia conhecer a natureza duvidosa do rapaz, era seu pai, um grande comerciante de joias preciosas que sempre a apoiou em seus empreendimentos – ainda que pra época isso não soasse como adequado -, e que apesar de empregar o rapaz, sempre manteve um olhar mais aguçado para suas transgressões, ao contrário da filha que sempre esteve por perto para amparar o marido.

E é somente quando o marido morre em um trágico acidente de carro, que tudo a volta de Louisa desaba e as verdades ocultas começam a aparecer. Elliot escondia muitos segredos, acumulou inúmeras dívidas, vivia uma vida dupla, mentiu sobre si e sobre suas viagens. Transformou tudo que Louisa acreditava em frangalhos, estilhaçou seu coração, a fazendo pensar que seu casamento não passou de uma grande mentira. A cada dia uma nova revelação, um novo estranho em sua porta, mais um valor exorbitante para pagar. E quando ela sai em busca de uma solução… outra grande rasteira, essa sim roubando seu chão completamente.

Ao se deitar na cama, sentiu-se atormentada entre a dor da perda e o peso das mentiras dele. O pior era o receio de, em doze anos, nunca ter descoberto quem Elliot realmente era.

Louisa viveu por muito tempo segundo os moldes da sociedade para uma mulher de 1935, complacente, passiva, empenhada para a família, apoiando o marido, ainda que o mesmo não merecesse. Ela guardava sua dor, recolhia seus pedaços a cada perda e fazia de tudo para seguir sem fazer grandes alardes. Uma mulher inteligente, trabalhadora e muito esforçada, mas que se escondia em si mesma, o estopim para sua grande mudança foi a morte do marido, seguida de revelações tão dolorosas quanto, fazendo com ela se abrisse e enfim florescesse. E no meio deste turbilhão todo, quando precisa lidar com o fato de descobrir que o marido a quem pensava conhecer como a palma da sua mão é na verdade um estranho, quando pessoas estranhas e aleatórias passam a bater em sua porta exigindo pagamentos, e as verdade parecem borbulhar na superfície sem parar, ela ainda precisa lidar com sentimentos inapropriados por Leo. Um homem que apareceu no olho do furacão.

A Viúva de Safira pra mim, é muito mais sobre uma mulher se redescobrindo, se curando e tentando encontrar um caminho para seguir, do que propriamente sobre um romance. Louisa é uma personagem que cativa e encanta, toda sua jornada é permeada por muitas lutas e amadurecimento, precisando que ela se torne senhora da sua vida e encontre o caminho para sua tão merecida felicidade. O único problema, é que – mais uma vez, pra MIM -, no final da construção desta personagem, alguns pontos apenas não combinavam com toda sua trajetória. E foi então que Louisa pecou pelo excesso. Excesso de altruísmo, de bondade, de aceitação. Peço desculpas se tiver soando cética demais, mas duvido que qualquer mulher exposta as situações em que ela foi, da maneira como foi, diante de algo que era sim uma ferida aberta e incicatrizável como a dela, tomaria as decisões que ela tomou. Eu acredito no perdão, acredito que páginas podem ser viradas e novos começos escritos, mas não consigo visualizar nem de maneira fantasiosa um cenário onde uma mulher ferida assumiria sua postura e isso foi meio complicado pra mim.

Elliot é o típico filhinho da mamãe, que precisa ter todas as suas vontades atendidas, mimado, egoísta, ambicioso, imaturo, que no fundo é apenas medíocre demais e toma decisões idiotas sem se preocupar se está magoando ou ferindo alguém. Apenas… fujam deste tipo de homem. Leo… ainda não sei se tenho uma opinião formada sobre ele. Entendo sua importância na trama, visualizo o seu peso, mas por enquanto é apenas isso.

O único jeito era lidar com um dia após o outro, até se acostumar. Viver uma hora, depois outra, até o dia terminar. E no dia seguinte fazer tudo de novo.

O que me leva para o romance. Acho que como todo recomeço, principalmente se tratando de viúva com a bagagem de Louisa, todo cuidado e pequenos passos são necessários e acredito que a autora até tenha trabalhado isso bem, a construção do romance foi sutil, tão sutil que ficou superficial e em determinados momentos até solto no meio do enredo. Mas, como já mencionei, acredito que isso se dê porque a autora coloca o romance em segundo plano, para atrair mais atenção para a figura feminina. O que em minha humilde opinião poderia ter sido equilibrado e trabalhado com mais carinho, entregando uma história mais completa e feliz. Ela fez exatamente isso em O Perfume da Folha de Chá.

Eu gosto da maneira como Dinah constrói seus enredos e cenários, ela os explora com maestria e sempre nos leva a viajar através das páginas quase nos passando a impressão de que poderíamos estar presentes no ambiente descrito. Gosto também que ela trabalhe a figura feminina, dando voz as suas personagens e até as construindo a frente de seu tempo, sempre promovendo reflexões e discussão sobre a sociedade de modo geral. Sua narrativa é delicada, ao mesmo tempo em que se mostra forte e impactante, e esse é outro ponto positivo.

Apesar de A Viúva de Safira não ter me conquistado por completo, é uma boa leitura, que emociona, encanta, repleta de reviravoltas e que propõe reflexões. E justamente por acreditar no potencial da autora para ir além do que ela entregou, esmiuçando com sagacidade as partes mais importantes e relevantes da trama, tenha ficado um pouco decepcionada. Sigo na torcida para termos mais de seus romances publicados aqui no Brasil. Como sempre falo, a única forma de saber se você gostou ou não de um livro é lendo. Não se apegue apenas aos meus apontamentos, sua visão sobre ele pode ser completamente diferente da minha.

  • The Sapphire Widow
  • Autor: Dinah Jefferies
  • Tradução: André Fontenelle
  • Ano: 2019
  • Editora: Paralela
  • Páginas: 372
  • Amazon

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11 Comentários

  • Maria Alves
    11 janeiro, 2020

    Que pena que não venha agradado tanto, mas fiquei curiosa em saber sobre essa vida secreta do marido da protagonista que segredos ele guardava e parecia ser uma pessoa insuportável, qual não foi a surpresa dela em saber disso. Gosto muito de reviravoltas, então acho que daria uma chance ao livro.

  • Bruna Prata
    01 janeiro, 2020

    Ceilão? Que interessante.
    Nada me agrada mais em um livro ver um processo de redescobrimento e evolução dos personagens, principalmente quando são bem construídos e verídicos. O livro aparenta ser bem interessante, principalmente pela autora conseguir conectar o leitor até o ponto de faze-lo se sentir no enredo. Tenho como uma meta pessoal para 2020 ler mais livros de época, adorei a indicação, apesar de não ser excepcional.

  • Rayane S.
    30 dezembro, 2019

    Adorei a premissa do livro, sou apaixonada por romances de época. Já estou super curiosa para saber mais sobre os segredos de Elliot. Gosto muito quando a ambientação é muito caprichada e cheia de detalhes, isso faz com que eu realmente fique imersa na história. Fiquei bastante curiosa para saber o que acontece com a Louisa após a morte do marido, como ela vai enfrentar toda a situação.

  • Aline Teixeira
    29 dezembro, 2019

    Olá Biia!
    A trama é interessante pois conhecemos várias pessoas que se deparam com um Elliot por aí é acho q a época da história faz com que as atitudes de Louisa possam ser compreendidas (mas não justificadas). Acredito que colocar o romance em segundo plano pode ter sido uma atitude equivocada da autora pois o leitor está esperando que haja um pouco mais de romantismo na trama, mas o crescimento e evolução da personagem são boas lições e principalmente como ela vai lidar com as descobertas sobre os podres do marido. Ainda não li nada da autora mas espero conhecer sua escrita em breve.
    Beijos

  • rudynalvacorreiasoares
    28 dezembro, 2019

    Biia!
    Que pena o livro não a ter conquistado por completo, porque a meu ver, parece tão bom…
    Infelizmente ainda não tive oportunidade de ler nenhum dos livros da autora.
    Acho tão bom quando uma autora traz um romance diferente dos convencionais e cria toda uma trama com drama e descobertas impensáveis.
    Adoro quando os livros são descritivos em relação aos ambientes.
    cheirinhos
    Rudy

  • Alison Teixeira
    28 dezembro, 2019

    Olá Biia!
    Essa autora tem uma escrita muito prazerosa de acompanhar, e a cada capítulo, com as revelações que são entregues constantemente, o leitor fica com vontade de devorar o livro até o final.
    Realmente a postura complacente da protagonista dificulta o laço com quem está lendo, e chega até a ser irritante em algumas passagens, embora seja compreensível se formos levar em consideração o tipo de relacionamento que a mesma compartilhava com Elliot.
    No geral, o autora consegue entregar um livro rico que agrada os leitores menos exigentes em relação ao gênero, bem como aqueles que apreciam uma boa caracterização do ambiente.
    Beijos.

  • ELIZETE SILVA
    27 dezembro, 2019

    Olá! Já havia ficado de olho nesse livro desde o lançamento, acredito que vai ser uma boa leitura, o fato de termos uma protagonista que precisará recomeçar toda uma vida, após tanta tragédia, certamente irá demostrar toda a sua força, e já posso dizer que detesto o Elliot, ainda não conheço a escrita da autora e esse é mais um motivo para querer ler esse livro.

  • Joicy B.
    27 dezembro, 2019

    Biia, creio que cabe começar apontando a parte artística das suas fotos, pois ficaram realmente muito bem feitas e claramente você teve um trabalho para combinar o livro, o título e o cenário. Parabéns!
    Quanto ao livro, não costumo gostar de romances de época com personagens complacentes, mas me consola um pouco o fato de se tratar mais de uma redescoberta da personagem como dona de si mesma, como você mesma ressaltou. Todavia, já me desapontei ao saber que a Louisa tomou atitudes irrealísticas, mesmo para uma ficção.
    Achei divertida a forma como você descreveu seu sentimento pelo Leo, só consigo imaginar quão pouco impacto ele deve ter exercido no enredo geral. Em contrapartida, eu ainda deveria simpatizar mais com ele do que com o Elliot, que personagem desagradável!
    Sendo sincera, esse é um livro que não senti vontade de ler, não me identifico com o gênero, não simpatizei com os personagens, achei a capa pouco atrativa, não vi impacto nas citações, e não vejo sentido em um livro de romance cujo romance é feito de maneira superficial. Se a autora pretendia falar sobre o crescimento da protagonista, perfeito, não havia necessidade de desenvolver um romance para isso, ainda mais se não fosse para conciliar de uma maneira harmônica, afinal, devemos nos completar primeiro, e não buscarmos sermos completos de uma forma dependente de outrem.

  • Nyttah M.
    27 dezembro, 2019

    Geralmente leio romances mais ligados à fantasia. Porém,em 2020, quero ver se me aventuro por estilos e temáticas diferentes das habituais. Não pela hype, mas pra sair do “mais do mesmo”… Gosto do romance mais açucarado, mesmo assim acho que darei uma chance para Viúva. Quando falou de safiras, achei que ia ser algo parecido com “O reverso da medalha” do Sidney Sheldon, que também tem fortes protagonistas femininas. Mesmo a personagem aqui se mostrando vulnerável, acho mais interessante, mostra-la no processo intermediário entre a vulnerabilidade e a foça. Acho mais verosímil, acho que ninguém é “x-power” o tempo todo. Estamos muito acostumados com a mulher Lara Croft! Como se a mulher ao se apaixonar estivesse abdicando de sua força ou direitos… Mesmo no femininismo se percebe ainda um certo preconceito ainda de modelos e rótulos… Gosto bastante da ideia da transição da personagem, a saída de uma zona de conforto… Que nem era tão boa confortável assim, visto a estrutura da contra parte masculina. Lerei a Viúva com certeza. Obrigado por mais essa dica de leitura!

  • Veronica Vieira
    27 dezembro, 2019

    Eu sempre quero ler romance de época, mas raramente um me desperta vontade de ler, acho tudo muito erótico, o que não é real para aquela época,mas essa historia me despertou vontade de ler… Vou colocar na minha lista.

  • Angela Gabriel
    27 dezembro, 2019

    Primeiro ponto deste livro que me chamou a atenção quando foi lançado é onde ele se passa. Não vemos nunca Ceilão sendo citada em algum livro e isso desperta uma certa curiosidade sim. Conhecer nem que seja “em palavras” lugares novos sempre é gostoso demais.
    Mas também há Louisa, uma mulher aparentemente submissa, sofrendo sozinha tantas perdas e tristezas, tendo que se reerguer sozinha e reaprender a viver!
    Isso é maravilhoso, afinal ela já não é mais uma menininha. Aprendeu a sofrer, criou cascas.
    E mesmo que o enredo não tenha se desenvolvido tão bem, é uma obra que desejo demais ler!!!
    Beijo