Todos conhecem William Shakespeare, um dos maiores gênios da literatura e da dramaturgia que já existiu, um monstro em escrever peças e livros, que viveu no século XVII e serve de inspiração até os dias de hoje, quase 500 anos após o seu nascimento. E é baseado em uma de suas maiores obras que Jo Nesbo escreve seu novo livro, utilizando o mesmo nome do livro originalmente lançado em 1611, ainda como peça, encenada em Londres, no Globe Theatre.

Na história original, Macbeth é um general do reino do Rei Duncan, que ouve a profecia de três bruxas, dizendo que um dia ele será o rei daquele lugar, ele conta isso à sua esposa, a famosa, Lady Macbeth, que começa a arquitetar tudo para que a profecia se torne real e que o reino seja deles como as bruxas previram. A ideia de Nesbo era justamente recriar essa história secular, trazendo os personagens para os dias de hoje, com uma representação atual, em um cenário diferente, mas com o mesmíssimo enredo, sem alterar o começo, o meio e o final da história.
A obra de Shakespeare é uma tragédia, e não poderia fazer parte de outro gênero literário vista a quantidade de pessoas que morrem durante o livro/peça (isso não é spoiler). E quando unimos essa obra, indiscutivelmente maravilhosa, a um dos autores mais sanguinários da atualidade, a quantidade de ação, cenas fortes e gráficas se multiplicam. Um exemplo disso é a forma que o livro inicia, com uma cena bem pesada, uma perseguição de um grupo de policiais contra bandidos, traficantes chamados de Nurse Riders. Com uma ação frustrada, a gangue consegue fugir, deixando para trás um rastro de policiais mortos. A sequência em questão é eletrizante, e olha que ela é só o começo doe livro.
Porém, não só com este ponto positivo a obra de manteve. Na minha opinião, apesar de ser uma releitura, a trama não é nada original, e isso me desagradou bastante. Como disse antes, Jo Nesbo usou a mesma construção narrativa dos fatos, portanto, saber quais seriam as próximas cenas, mesmo que o autor tenha dado uma roupagem completamente diferente para o cenário, era como se a leitura tivesse spoilers de 500 anos atrás.

Em contrapartida, a ação do livro é ótima, com cenas fortes, impactantes, com muito sangue e estratégia, mas o que mais me agradou no livro realmente foi a força feminina retratada na nova Lady Macbeth. É sempre revigorante ver mulheres fortes retratadas na literatura, e saber que em 1600 houve um cara que escreveu sobre uma mulher ambiciosa e cruel, em uma época que a população jamais aceitaria que uma mulher tivesse essa posição, é realmente incrível. Talvez por isso que essa obra viva até hoje e Shakespeare seja o maior artista que já existiu.
Jo Nesbo é conhecido por seus thrillers nórdicos, com histórias duras e vertendo sangue pelas páginas, mas o que mais me atrai em seus livros é sua capacidade de descrever cenários e atmosfera do ambiente, isso é algo que valorizo demais nas obras. Em Macbeth, Nesbo segue o mesmo estilo de seus livros anteriores, ele tem a capacidade de mencionar a música que está tocando no bar ao mesmo tempo em que fala sobre a estratégia do grupo de policiais que está prestes a entrar no local, mesclando a perspectiva dos bandidos desta mesma situação que estão ao mesmo tempo que preocupados com alguma possível ação da polícia, como também apenas bebendo e jogando conversa fora.

Como grande fã do autor, este foi um dos livros que menos gostei, quem está acostumado, por exemplo, com a série do Detetive Harry Hole, que é maravilhosa, vai encontrar não só um livro fora da sequência, mas também uma obra construída de forma completamente diferente do habitual, mesmo que tenha toda sua característica impressa nas páginas. Macbeth deixa a desejar na originalidade, na construção dos personagens e no desenvolvimento, se atendo apenas aquilo que foi criado pelo escritor original da obra, mudando apenas o cenário onde a história se passa. Sinceramente, esperava mais dele, pois como já disse, sou fã do auto e ficou bem aquém do que eu estou acostumado.
O que não significa que o livro seja ruim, acho que quem conhece Macbeth, quem já leu a obra do século XVII, sem dúvida gostará de rever o livro, com outra roupagem, mas a mesma essência, bem como quem não conhece o livro de Shakespeare, pode conhecê-lo com um novo formato, moderno, realista e com toda força feminina que o original tem. Porém acho que poucas pessoas trocariam a obra original de apenas 128 páginas, pelo seu livro remasterizado, de mais de 500 páginas.

- Macbeth
- Autor: Jo Nesbo
- Tradução: Marcia Alves
- Ano: 2019
- Editora: Record
- Páginas: 518
- Amazon



17 Comentários
Oiii ❤ Geralmente gosto muito de releituras, de ver uma história antiga ganhando uma nova roupagem, mas ainda não sei se leria esse livro já que acho que uma releitura precisa ser original, ter aspectos novos, um ar novo, mas se mantendo fiel à história, claro.
Acho que pra quem já leu a versão original, se sente mesmo recebendo spoilers ao fazer a leitura, já que o autor não parece ter inovado tanto.
Achei muito legal Lady Macbeth ter essa representação, ser uma mulher forte, adorei saber disso.
Beijos ❤
Olá!
Uma releitura de Shakespeare é muito interessante, apesar de ser uma obra já conhecida. Gostei muito e tem uma ótima premissa, me interessou bastante. Já tinha ouvido fala bastante do autor e estou muito curiosa por conhecer sua escrita.
Meu blog:
Tempos Literários
Oi Bruno,
De longe W.S é um dos meus escritores favoritos de todos os tempos eu quanto mais releio suas peças, fico mais apaixonada. A ideia de trazer a tona a história modificada para os dias de hoje parece extremamente inteligente e instigante. Sobre a questão do livro não tê-lo agradado, acho que também surge uma dúvida entre os autores que se baseiam na obra: não agradar o público leitor com uma história muito diferente da obra original ou reinventar completamente o enredo.
Ótima resenha,
Beijinhos.
Engraçado, uma das minhas resoluções para 2020 foi ler os livros de Shakespeare, talvez seja por isso que não tive interesse em ler esse livro, prefiro me guardar e me surpreender com o enredo original, se eu apreciar Macbeth original, talvez eu dê uma chance para o Macbeth repaginado.
Conheço uma pessoa que idolatra a escrita do Nesbo, logo sempre tive expectativas altíssimas com o autor, creio que não seja uma boa ideia começar a lê-lo com essa premissa.
Ainda não tive contato com a escrita do autor, mas esse livro me deixou bastante curiosa justamente por ser uma releitura de Shakespeare. Adoro livros que retratam mulheres fortes, certeza que vou gostar de Lady Macbeth. Apesar de você ter citado que foi um dos livros que menos gostou do autor acho que vale a pena eu dar uma chance.
Olá! Parece ser um livro bem sombrio, o que não é lá muito a minha cara, mas acredito que a maneira que o autor conduziu a trama foi bastante satisfatória, justamente por ter seguido a mesma linha da original, os personagens aparentam ser um tanto cruéis, não sei se me jogaria numa leitura tão intensa e com tantas páginas, mas tenho curiosidade em conhecer a escrita de Nesbo.
Eu não li a obra original, mas pela sua resenha deu muita vontade de ler. Em contrapartida, também fico triste, por essa releitura não fazer jus ao que todos comentam sobre Shakespeare.
Eu gosto muito de ler os livros do Nesbo, mesmo não tendo lido tantos assim. Não li Macbeth de Shakespeare. Talvez essa seja uma oportunidade para ter uma base dessa obra maravilhosa. Acredito que essa nova roupagem tenha dado mais dinâmica e ação ao enredo mas, concordo que poderia ter alterado alguns pontos para fazer com que o leitor tivesse uma certa curiosidade e tudo não ficasse tão previsível. Mas, como eu não li a obra original, acho que isso não vai chegar a me incomodar. Vou ler, com certeza.
Embora bem elogiado ainda não conferi as obras de Jo Nesbo. Também não li a obra original, mas quero conferir um dia, é uma pena que essa não tenha agradado, também esperaria algo inovador, que despertasse mais interesse, pois sem isso acaba ficando uma leitura enfadonha, pelo menos pra mim. Gostei da força da mulher já nessa época, isso é de surpreender.
Olá Bruno!
Eu sou do time que não leu a obra original, então ter uma visão mais contemporânea da história será bem interessante. Nunca li nada do autor pois temas sangrentas não são muito o meu estilo, mas como se trata de um clássico acho válido abrir uma exceção. A atenção dada às artimanhas femininas foi um ponto que me deixou bem animada pra ler.
Beijos
Comecei a resenha, achando que ia adorar, já que gosto dos texto do Shakespeare, pensei que seria uma forma mais fácil, de conhecer melhor essa obra, mas ao final da resenha não fiquei muito animada.
Oi Bruno,
Já tive contato com a escrita de Jo Nesbo e as experiências foram de mediana a muito boa, então eu fico curiosa sobre as outras obras do autor. Não sabia que Macbeth era uma releitura e agora que o sei verei essa história com outros olhos (mesmo que eu não tenha lido a obra original). Em se tratando da cotidiano policial, o autor sabe o descrever muito bem, na medida certa, na verdade eu gosto de tudo na narrativa dele, só que as vezes a história pode não levar para o caminho desejado. Por isso consigo visualizar bem o cenário do bar descrito por você. Releituras sempre me interessam por trazer uma nova “cara” para a história, uma atualização digamos assim. E era isso que eu esperava dessa obra no momento em que fiquei sabendo da proposta. Mas, aparentemente, não foi isso que o autor entregou. O que é uma pena, pois talento Jo Nesbo tem de sobra e se fosse para escrever uma trama com 500 páginas inspirada em uma de menos de 150 eu esperaria algo muito mais impressionante.
Olá Bruno!
Eu conheço uma obra do autor e realmente sua escrita é incrível de tão vívida. Pena que nesta releitura Nesbo não tenha acrescentado algo a mais para movimentar a trama, embora quem não conhece o clássico de Shakespeare com certeza deve ter uma experiência mais agradável.
Mas pelo menos o autor acertou ao manter toda a essa força feminina que é característica da protagonista do clássico.
Beijos.
Obrigado pela resenha informativa, falando a real! Algumas vezes, me aventuro lendo algumas “histórias recontadas”. Porém, prefiro ter o conhecimento da versão original sempre. Nesbo um grande autor, mas se é para ter o mesmo enredo, nada melhor que o original. E Shakespeare… Jesus…Adoro. Também acho interessante, toda essa loucura de “empoderamento” e as pessoas dizerem que as mulheres são subestimadas sempre… Não conhecem Lady Macbeth, Anita, Morgana….
Nesbo é um dos grandes mestres na literatura e sou fã do cara, apesar de não ter lido tantos livros do autor!
Mas este trabalho dele deu e ainda dará o que falar. Muitos leitores não curtiram essa mistura de gêneros. Eu prefiro ainda, esperar para conferir.
Li a obra original já faz muito tempo e não é uma leitura fácil não. Por isso, ainda coloco fé numa releitura sim!
Acredito no potencial do autor e mesmo fugindo ao habitual dele, quero muito ler!!!
Beijo
Bruno!
Quando vi a primeira vez falar sobre esse livro do Nesbo, minha primeira preocupação foi justamente o fato de ser uma releitura e o que ele traria da obra original, já que apesar de todo drama Shakesperiano, misturar com estilo policial, nem sei o que poderia dar…
Sua análise traz uma noção do que encontraremos, pelo menos não farei a leitura com tanta expectativa.
cheirinhos
Rudy
Bruno!
Quando vi a primeira vez falar sobre esse livro do Nesbo, minha primeira preocupação foi justamente o fato de ser uma releitura e o que ele traria da obra original, já que apesar de todo drama Shakesperiano, misturar com estilo policial, nem sei o que poderia dar…
Sua análise traz uma noção do que encontraremos, pelo menos não farei a leitura com tanta expectativa.
cheirinhos
Rudy