Máquinas Como Eu, nova história pensada e escrita por Ian McEwan, poderia tratar-se apenas de um novo lançamento de um autor renomado, cuja obra encontra-se disposta entre as indicações e prateleiras das livrarias. Poderia ser aquele tipo de obra que leitores e críticos ignorariam por completo o gênero literário em que se encaixa, bem como a forma de escrita utilizada, porém, graças a polêmica mesquinha, possivelmente proposital, um tanto quanto elitista e, dificilmente proporcionada pela ignorância de um autor famoso, ganhou destaque no meio literário e chamou a atenção de diversas pessoas.

Embora o intuito deste texto não seja explorar as nuances ou refletir sobre os comentários infelizes do escritor – uma vez que publicamos um vídeo especial sobre o assunto – é importante destacar que, querendo Ian McEwan ou não, a obra trata-se de uma verdadeira ficção científica. Da mesma forma, os comentários polêmicos do autor e as reportagens e textos escritos a fim de delinear o assunto serviram como publicidade para uma obra que, por ser específica, séria, reflexiva e livre de explosões e lutas espaciais, possivelmente teria atingido um número menor de leitores.

O manual citava em negrito a definição feita por Isaac Asimov da incansavelmente reiterada Primeira Lei da Robótica: “Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.

Dito isto, antes de apresentar uma visão geral acerca do enredo e direcionamento da obra, considero relevante destacar que sim, observei e analisei todo o livro como uma ficção científica séria, a qual pretende refletir e criticar ações, costumes, escolhas e pensamentos de pessoas e sociedades atuais. Assim, ignorando a posição elitista do autor e voltando meus olhos para sua narrativa bem estruturada, embasada e delineada, afirmo que, como escritor de romances provenientes da “alta literatura” Ian McEwan compreende-se como ótimo escritor de ficção científica!

Máquinas como Eu fundamenta-se na construção de cenários, realidades e sociedades cujo ponto de partida localiza-se na conhecida e querida estratégia do “e se”. O que aconteceria se Alan Turing não tivesse falecido e fosse capaz de dar continuidade aos seus estudos, pesquisas e teorias? O que aconteceria se, na Londres de 1982, Margaret Tatcher sofresse com as consequências políticas e econômicas da derrota na Guerra das Malvinas? O que aconteceria se a robótica, computação, teorias lógicas e matemáticas fossem alguns dos principais campos de estudo da humanidade? O que aconteceria se todo o conhecimento adquirido possibilitasse a criação de máquinas humanas cuja “inteligência artificial” faz com que se assemelhem a nós na mesma medida em que se tornam absurdamente diferente de nós? E, por fim, como todo esse contexto interferiria na vida de uma única pessoa?

Tomando como base algumas das possíveis respostas para cada uma destas perguntas, acompanharemos a trajetória de Charlie, suas críticas e reflexões acerca do mundo em que vive, dos problemas enfrentados por sua sociedade, dos desafios que surgem graças aos direcionamentos desta realidade fortemente tecnológica. Contudo, também acompanharemos seu relacionamento amoroso com a vizinha e amiga Miranda, as estratégias que utiliza para adquirir a mínima estabilidade financeira e, para fazer brilhar os olhos de leitores apaixonados por robôs, inteligência artificial e as implicações da inserção de verdadeiros androides na vida cotidiana, observaremos também os eventos que sucederam a aquisição, por parte de Charlie, de um Adão, um robô humano de última geração.

Assim como fizeram diversos autores e autoras antes dele, Ian McEwan imagina uma realidade em que eventos históricos específicos produziram resultados divergentes daqueles observados em nosso plano de existência. Sua obra, inspirada em pesquisas históricas, conhecimentos e teorias atuais, delimita um contexto onde não somente personalidades recebem a chance de viver suas vidas e dar continuidade aos seus estudos ou carreira, mas também demonstra como a realidade em que vivemos pode modificar-se a ponto de se assemelhar aos cenários do livro, embora este volte o olhar para um passado alternativo. Como tantas obras antes desta, Máquinas como Eu não pretende demonstrar instigantes enfrentamentos e explosões espaciais, não demonstra viagens para outras dimensões ou como adolescentes rebeldes e confiantes são capazes de transformar a estrutura de uma sociedade. Aqui observamos a mesma estratégia de clássicos da ficção científica, ou da alta literatura.

Entre acontecimentos cotidianos, desafios superados por um personagem específico, em meio aos anseios do protagonista, de suas dúvidas e problemas com o androide adquirido, acompanharemos um maravilhoso romance contemporâneo, uma maravilhosa ficção científica que demonstra inusitadas implicações deste mundo tecnológico mescladas as mais comuns e essenciais perturbações humanas. Por outro lado, graças aos pensamentos de Charlie e as quebras de narrativa, teremos a chance de observar os detalhes desta sociedade, do contexto que permeia as vidas de indivíduos e comunidades, de como as escolhas de líderes políticos, de empresas multimilionárias, de “mentes brilhantes” podem redirecionar os rumos e regas de toda uma realidade.

A narrativa deste livro é razoavelmente simples no quesito compreensão de direcionamentos e estratégias, porém, é reflexiva, crítica e o que muitos leitores considerariam como “parada”. Como tanto ressaltei, aqui não encontramos corridas contra o tempo, viagens instigantes ou perseguições épicas. Este livro possui um objetivo específico e o atinge em cheio, mas alguns leitores, principalmente aqueles acostumados a pensar ficção científica como algo grandioso, explosivo e mirabolante, talvez se sintam traídos pela minha insistência em classifica-lo como tal, ainda que dentro deste mundo incrível e apaixonante conhecido como sci-fi, encontremos uma diversidade de fórmulas de escrita e direcionamento.

Para além dos comentários polêmicos e elitismo de Ian McEwan, da possibilidade de chacota ou reverência para com o querido Isaac Asimov – confesso que ainda não fui capaz de compreender se existe admiração ou desmerecimento do autor perante um dos principais nomes da ficção científica – Máquinas como Eu trata-se de uma obra interessante, curiosa e pertinente. Uma ficção científica séria é como gosto de enquadrá-la. Aqui teremos a chance de imaginar novas realidades, mas, e este sempre foi um dos meus aspectos preferidos da ficção científica e também da distopia, acompanharemos reflexões, críticas e pensamentos acerca de nossa própria realidade, de nossa própria sociedade, de nossos próprios costumes e atitudes perante a ciência e a tecnologia. E, essa capacidade conjecturar, denunciar e debater uma parte tão relevante de nosso mundo nunca poderá ser ignorada, nunca poderá ser retirada na ficção científica, pois trata-se de algo tão essencial ao gênero quanto dramas e desafios cotidianos podem ser para romances contemporâneos!


  • Machines Like Me and People Like You
  • Autor: Ian McEwan
  • Tradução: Jorio Dauster
  • Ano: 2019
  • Editora: Companhia das Letras
  • Páginas: 327
  • Amazon

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