Estamos no ano de 2089 e o ser humano fez merda o suficiente para que o planeta fosse dominado pelos oceanos, com uma água podre e corrosiva. A realidade agora é diferente, o consumo desenfreado ganhou e a humanidade agora é viciada em tecnologia. A situação é caótica, a grande maioria da população vive na pobreza, e para evitarem a realidade, muitos buscam se conectar com o mundo virtual para viverem aquilo que jamais viverão de fato, os viciados em tec, uma espécie de droga, são chamados de tecnoiádos. Mas o acesso ao tec não é gratuita, para tal feito é preciso contribuir com o monopólio de gangsters liderados por Flak.

Para efetuar cobranças e enquadrar os viciados, Flak recorre a delegados, como Debbie Decay e Led Dent, uma dupla de assassinos e protagonistas desta graphic novel. Mas nem todos nesta realidade são pobres viciados, Debbie por exemplo é uma zero-tec, ou seja, nunca se rendeu ao vício digital, ao contrário de Led, que já é completamente dependente das alterações corporais e psicológicas que só a droga proporciona.

Quando saem em missão para tomar o último país não-conectado do mundo, a dupla se vê diante um dilema. É para Tóquio que Debbie sempre sonhou em ir, um local livre da violência e que conta com uma sociedade que ainda consegue viver de recursos naturais. Tóquio é a única esperança que ela tem para livrar quem ela ama do vício.

Esta é uma história que inicia com uma baita crítica social, que reflete sobre a alienação humana que ruma para uma realidade em que deixaremos de viver de fato para vivermos num mundo controlado pela tecnologia. Tendo isso como um ótimo pano de fundo, a narrativa se apresenta dinâmica e não demora muito para o que um ritmo frenético domine as páginas, nos presenteando com sequências de ação, cheias de violência e muito sangue.

Há espaço também para acompanharmos a história de Debbie e Led, amigos de infância que cresceram e se apaixonaram, mas que aos poucos foram se afastando devido ao vício de uma tecnologia avassaladora, que acabou tomando tudo de Led. Acompanhar os conflitos entre o casal é fascinante, principalmente quando percebemos que Debbie acaba trazendo um equilíbrio para a vida de Led. Ao longo da narrativa, teremos pequenos fragmentos do passado, quando Debbie e Led ainda eram crianças. Aos poucos entenderemos de que forma, Led acabou se rendendo ao sistema.

Adorei a ironia na história em apresentar que o último país livre da tecnologia, é justamente aquele em que hoje, se enquadra dentre os mais tecnológicos do mundo. Tóquio, ou como é conhecido em Tokyo Ghost, Os Jardins Verdejantes de Tóquio, recebe este título por seu legado cultural, que se prova tão importante para o andamento da história, ao lado dos ensinamentos que envolvem os samurais. Achei essa sacada muito interessante e isso permeia grande parte dos dilemas no quadrinho.

Escrito por Rick Remender, Tokyo Ghost recebe ilustrações de Sean Murphy, conhecido por seus trabalhos em Hellblazer e Vampiro Americano. As cores ficam a cargo de Matt Hollingsworth, que já conhecia através de Wytches, outro quadrinho lançado pela Darkside. Porém, diferente deste primeiro trabalho, as cores de Tokyo Ghost são mais vibrantes, refletindo para o leitor os neons que contrastam muito durante a leitura.

Tokyo Ghost deve agradar todos os apaixonados por ficção científica distópica “ala cyberpunk”, é um enredo que falará sobre a ameaça a nossa liberdade e existência, um plot não tão original, mas que surpreende por trazer complexabilidade para o cenário. A graphic novel vai proporcionar uma história que entretém, mas que também levará o leitor para refletir sobre o rumo e costumes que a humanidade vem adotando. Se não pela arte, leia Tokyo Ghost pelo poder de reflexão atual que ela nos traz. Afinal, será que já estamos a meio caminho de uma realidade como esta?

  • Tokyo Ghost: Complete Edition
  • Autor: Remender, Hollingsworth & Murphy
  • Tradução: Érico Assis
  • Ano: 2019
  • Editora: Darkside Books
  • Páginas: 272
  • Amazon

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3 Comentários

  • ELIZETE SILVA
    28 fevereiro, 2020

    Olá! Eita que esse enredo conseguiu até mesmo me agradar, e olha que não sou muito fã desse gênero literário, mas lendo o início da resenha só conseguia ficar pensando que, infelizmente, já estamos muito próximo a essa realidade e essa dependência tecnológica, com certeza vou tentar conferir a história.

  • Angela Gabriel
    25 fevereiro, 2020

    E eu ainda me surpreendo com os trabalhos impecáveis da Editora. Seja em qualquer seguimento, a Dark arrasa sempre!
    Não é um enredo que me agrada muito, até por eu ser lerda demais em assuntos assim, mas vou admitir que os traços fortes e duros da Graphic me encheu os olhos!
    Somos seres em caminho avançado na tecnologia, fato, mas…até que ponto isso é tão bom assim??
    Se puder, com certeza, quero ter esse trabalho magnífico nas minhas mãos!!!
    Beijo

  • Nyttah M.
    24 fevereiro, 2020

    Gostei da premissa! Mas acho um pouco pesado pra mim, no momento. Acho que pelos traços fortes e realistas. Realista também, o mote da história. Enquanto ainda a maioria das pessoas se preocupam com ameaças externas e com a possível “facilidade” de poder ir para o espaço; creio que se houver um princípio do fim será por meio dos oceanos e tsunamis. O planeta com razão contra atacando, e os humanos persistindo… A obra mostrando provavelmente um futuro com possibilidade de existir. E o interessante, é como vc mencionou – Parte de Tokyo sendo porto seguro – realmente os japonêses fazem muito uso de tecnologia, porem eles também se preocupam muito com o descarte dos resíduos gerados pela mesma. Talvez pelo risco de viverem cercados de água…