Cento e cinquenta anos aguardando. Cento e Cinquenta anos presa na história. Cento e cinquenta anos de enganos, injustiças, silêncios gritantes e seres que chegam e se vão. Cento e cinquenta anos sem que soubessem a verdade do que aconteceu, sem conseguir revelar o seu nome, sem conseguir contar sua versão dos fatos. Um fatídico dia que apagou todos seus sonhos, toda sua existência, a tornando uma prisioneira do tempo e da sua história.

O tempo passa de maneira diferente quando estou sozinha na casa; não tenho como contar os anos. Estou ciente de que o sol continua a nascer e a se pôr, e a lua a tomar seu lugar, mas não sinto mais sua passagem. Passado, presente e futuro não têm sentido; estou fora do tempo. Aqui e ali, ali e aqui, simultaneamente.

Elodie é uma jovem arquivista, que ama seu trabalho. Mais que estudar, manipular documentos e pergaminhos, ela viaja no tempo, conhece suas histórias, desvenda vidas e culturas que há muito foram esquecidas. Sua rotina é de longas horas de trabalho, mas existe uma tranquilidade reconfortante em tudo isso, que ela não trocaria por absolutamente nada, nem mesmo pelos preparativos do seu casamento. Porém, algo inquietante aconteceu, ela encontrou uma bolsa-carteiro espremida no fundo de uma caixa, uma caixa que não deveria estar onde se encontrava, mas que implorou para ser aberta e atraiu como mariposa para luz, mas o que realmente fascinou Elodie, foi o que estava dentro da bolsa, a fotografia de uma jovem e um caderno de desenho com esboços de uma casa… não uma casa qualquer, um lugar mágico, que toca algo em seu coração e a deixa com a sensação de que tem algo mais aí. E mais do que isso, por mais surreal que possa parecer, Elodie, consegue reconhecer a casa que foi capturada pelo pincel do artista e essa conexão é mais forte e poderosa do que ela imagina.

1862, um ano que poderia significar libertação, recomeço, uma nova página a ser colorida, um ano de transformação, e que de certa forma, foi… até certo ponto, antes de tudo desmoronar, antes de precisar encerrar o mês com tanta dor e um crime horrível que marcou pra sempre a vida de todos ali presente. Edward Radcliffe, teve uma experiência sobrenatural com o lugar que agora chama de seu, a casa Birchwood Manor é parte da sua história, mas somente uma pessoa sabe disto, e agora ela pertence a Edward, sua felicidade é sem tamanho, e qual a melhor forma de comemorar do que se não reunir todos os melhores amigos para um verão inesquecível, belas paisagens, cenários capazes de inspirar até um leigo, tempo e lugar de sobra para capturar as belas imagens, e viver o melhor que a vida pode oferecer, aquele sentimento poderoso e indomável… o amor. Tudo estava perfeito, a vida não poderia soar mais maravilhosa, as esperanças estavam todas renovadas, a criatividade a flor da pele, a inspiração transbordando e então… tudo ficou negro e vermelho, manchando para sempre a beleza do lugar, o carregando com uma aura de pesar e nostalgia.

Amor – era o que ela sentia, um amor estranho, forte e indefinido que parecia fluir de tudo que via e ouvia: as folhas iluminadas pelo sol, as sombras escuras sob as árvores, as pedras da casa, os pássaros que gritavam voando alto. (…) Era simples. Era luminoso, bonito e verdadeiro.

A Prisioneira do Tempo, é um romance cheio de mistérios e reviravoltas, com um toque de sobrenatural, que mescla passado e presente, em uma dança muito bem sincronizada, onde a personagem-título da história é parte fundamental da narração, e a chave do que de fato aconteceu. Uma figura intrigante, inspiradora e que foi capaz de encontrar luz em meio a tanta escuridão e dor. Sua história não é feliz, seu sofrimento é palpável, mas ainda assim, é cheia de inspiração e reflexões. E ainda temos Elodie, uma figura intrigante, que sai em uma jornada por respostas que ela nem sabia que precisava tanto descobrir. Além claro, de muitos outros personagens – Leonard, Lucy, Juliet, Jack, Joe, James, Pippa -, que chegam e deixam sua marca naquele lugar tão poderoso. Afinal de contas, são cento e cinquenta anos de história para se contar, muitas vidas, muitas épocas, muitos mistérios prontos para serem desvendados, ansiosos para saírem do buraco onde estão enterrados.

Eu amei viver essa jornada, acompanhar essa história que desafiou o tempo, que se tornou algo tão vivaz e intenso. É um romance que rouba o fôlego, que arrepia, que encanta, que doí, agridoce e palpável, que termina com aquela pontinha de dúvida… e se? E se tivesse sido diferente, e se pudéssemos voltar no tempo, e se o fim não fosse uma linha tão tênue? A vida realmente é uma caixinha, eu diria que muitas vezes, uma caixinha de pandora.

O verdadeiro medo é indelével; a sensação não diminui, mesmo quando a causa é esquecida. É uma nova maneira de ver o mundo: a abertura de uma porta que nunca poderá ser fechada.

Kate Morton possui uma característica muito particular em sua escrita, ela sempre nos deixa com a sensação de dolorosa satisfação, porque seus finais, por mais que se resolvam, sempre são agridoces, não existe uma felicidade plena em se obter as respostas. Outro fato que sempre me chama a atenção, é que mais que contar a história do seu personagem, ela conta a história do lugar, do cenário que embalou toda a narração, o que só agrega valor a todo o enredo. Sua escrita é gostosa, leve, embala o leitor e o fisga desde a primeira página, é difícil não se sentir arrebatado pela forma como ela descreve os cenários e o carinho para com cada personagem.

Mais uma vez estou rendida ao seu talento, e com muita vontade de ler mais e mais as suas obras. A Prisioneira do Tempo, ganhou um pedaço do meu coração e entrou para um cantinho muito precioso na minha estante; de obras que preciso reler, porque sei que irei encontrar muito mais, sentimentos, e fatos que por ventura deixei passar ao longo da primeira leitura, porque senti, que é o tipo de livro que tem muito a entregar ao leitor. Fica aqui essa forte recomendação. Não somente por seu enredo maravilhoso, mas também por uma edição carinhosa da Editora Arqueiro.

Até a próxima! Bye.

  • The Clockmaker's Daughter
  • Autor: Kate Morton
  • Tradução: Rachel Agavino
  • Ano: 2020
  • Editora: Arqueiro
  • Páginas: 448
  • Amazon

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