A série O Livro das Sombras teve sua continuação lançada no começo deste ano, A Comunidade Secreta é o segundo livro da nova trilogia de Philip Pullman. A sériea ainda é ambientada no universo criado pelo escritor na sua trilogia inicial, chamada de Fronteiras do Universo.
Sendo assim, muitos elementos de Fronteiras do Universo estão presentes na nova trilogia, inclusive a maneira como ela é colocada em meio a essas histórias, já que o primeiro livro, La Belle Sauvage, se passa antes do final de A Luneta Âmbar, última obra da primeira trilogia. Se em La Belle Sauvage, temos Lyra e Pan ainda crianças, o salto dado em A Comunidade Secreta é imenso. Agora Lyra já é experiente, recém tendo entrado na vida adulta, sabe de todos poderes que sua vida lhe permite, inclusive entrando em guerra com alguns sentimentos e pessoas próximas. É em uma dessas guerras que ela acaba se afastando de Pantalaimon e precisa ir em busca das respostas que ainda procura, e de um aletiômetro roubado, sem ter a quem pedir ajuda.
Eu não li a primeira trilogia de Philip, minha primeira experiência com o autor foi já no primeiro volume de O Livro das Sombras e fiquei encantado com a forma como ele descreve seu universo, algo que eu imagino que antigos leitores do escritor já devem saber. Agora, no novo livro, este universo se expande muito mais, de uma maneira encantadora, não só para quem ama fantasia, mas para todos os amantes de literatura, ver o que Pullman consegue fazer com as palavras é encantador.

O livro possui mistério, crimes, assassinatos, brigas, investigações, romance, sentimentos, reflexões, e uma viagem entre cidades do mundo que eu jamais vi em outro livro, um encantamento que começa na Inglaterra e quando você menos espera já está andando pelas ruas de Alepo, na Síria. Uma viagem descrita de maneira detalhada, muito bem ambientada, sem perder os detalhes centrais necessários para fazer o leitor compreender tudo de mágico que está acontecendo nas cenas, sem dúvida uma fantasia escrita de forma maravilhosa.
Mas nem tudo são flores, logo no começo do livro ocorre um assassinato, Lyra, fica curiosa e precisa descobrir o que houve e quem cometeu aquele crime, porém essa história se perde em meio a outras coisas que são colocadas no meio do enredo. Confesso que me senti representado pelo autor, a prolixidade dele na obra é bem comparável a da minha vida. Não consegui identificar se o intuito da história seria realmente girar em torno daquele mistério ou era só mais um elemento do universo extenso de O Livro das Sombras, mas a importância que ele recebe no começo da história e depois vai ficando em segundo plano, acabou me decepcionando um pouco. Este é o único defeito do livro, um defeito encontrado por um leitor chato demais, como vocês sabem que eu sou, rs.
Agora, seria impossível enumerar aqui cada um dos pontos positivos dessa obra, de tantos que existem, mas sem dúvida eles estão ligados a um universo muito bem criado pelo escritor, com vários personagens muito bem elaborados, o que permite que diversas visões da mesma história sejam contadas, a escolhida para ganhar protagonismo nesse volume foi a incrível Lyra, e ela consegue honrar o universo que habita, fazendo sua força absurda ser refletida em suas ações e no mundo ao seu redor.
Outro ponto muito interessante da maneira como Philip estrutura o desenvolvimento de suas obras é o fato de não se ater a acontecimentos pequenos ou a informações irrelevantes e chatas dos seus personagens, isto fica claro quando o primeiro e o segundo livro da nova trilogia são comparados. Na primeira obra Lyra é uma bebê e termina o livro com 7 anos, no segundo livro ela é uma mulher, começa a obra com 20 anos de idade. O que aconteceu nesse intervalo de 13 anos? Não importa… ou melhor, o que realmente importar será contado pela própria Lyra no desenvolvimento da obra, mesmo ela não sendo a narradora, seu comportamento e os diálogos dos quais participa dão as informações sobre sua vida pregressa como pinceladas necessárias para o decorrer da história.
Com essa construção de enredo, Pullman evita que seu livro intermediário da série se torne arrastado e chato, apenas passando informações de ligação entre o começo e o final da trilogia, como acontece na grande maioria dos casos.
Confesso que deveria ter lido a primeira trilogia antes de iniciar O Livro das Sombras, os elementos perdidos da história para quem não conhece a trilogia original são fundamentais, sem contar que só de imaginar como deve ser descobrir este universo desde o inicio já fico ainda mais animado, mas, como vocês já sabem, não tenho muitos problemas em pegar as histórias pela metade, porém, nesse caso em especifico, é claro que eu estou perdendo algo muito especial, então vou corrigir este erro em breve!
Se você ainda não leu nada de Philip Pullman e quer começar a trilogia O Livro das Sombras, mesmo não tendo lido a primeira trilogia pode iniciar sem problemas, apesar de perder algo mágico, não afetará sua leitura, porém se você deseja começar pelo segundo volume, lendo direto A Comunidade Secreta, vai ficar bem perdido na leitura, os elementos que compõem a primeira leitura são muito importantes para o segundo livro.
Ahhh… e como eu poderia me esquecer do assunto em torno ao título do livro? Pois é, aparentemente, como disse antes, os assuntos abordados são tantos e tão gostosos que a própria Comunidade Secreta só acaba aparecendo na segunda parte do livro e sua importância para o livro, mais um exemplo de como Philip Pullman é prolixo, mas isso não é um problema, o universo criado faz o leitor nem notar as várias voltas que o autor dá na história.
A Comunidade Secreta é um livro longo, de quase 600 páginas, mas possui um universo rico, uma protagonista maravilhosa que compartilha informações novas o tempo todo. É uma viagem pelo mundo e uma busca mágica, muito mais do que uma fantasia precisa para ser boa, Philip Pullman tem uma qualidade como escritor muito acima da média, suas ideias e as maneiras como ele as coloca em prática são praticamente inigualáveis, é daqueles escritores que serão lembrados na literatura por toda eternidade. Se você não o conhece ainda, não sabe o que está perdendo.

- The Secret Commonwealth
- Autor: Philip Pullman
- Tradução: José Rubens Siqueira
- Ano: 2020
- Editora: Suma
- Páginas: 544
- Amazon



13 Comentários
Oii,
Sou louca para ler os livros do Philip Pullman.
Adorei sua resenha e acho que vou começar direto por esse.
A Lyra parece ser uma personagem bem encantadora e muito bem desenvolvida.
A parte fantástica parece ser muito divertida e curiosa também.
Vou tentar já ler esse mês!
Bjs
Eu ainda não li essa duologia do autor. Só conheço a trilogia anterior da Bussola de Ouro. Eu me lembro de quando esses nova serie do autor foi lançada mas eu fico feliz por esse ser um livro de 600 paginas que se le praticamente sozinho
Eu li só o primeiro livro da primeira trilogia gostei muito, para ler esse preciso ler os outros dois primeiro pra ficar mais certinho, não gosto de perder nada rs. Fiquei imaginando a Lyra adulta como seria suas aventuras. Pena o assassinato não ter tido tanto foco, gosto desse mistério que gira em torno dele. Mas tem muitas coisas que gosto nesse enredo, pois adoro fantasia, e com tantos elogios, deve estar bem interessante.
não conhecia esse autor e essa é a primeira resenha que leio do livro dele e ao que parece o autor pé muito habilidoso ,um livro que tem 600 paginas sem tornar a leitura arrastada e chata não é para qualquer um .não sou muito de ler fantasia mas estou querendo me aventurar nesse genero .Otima resenha
Olá! Como ainda não li nada do autor Philip Pullman, é claro que fiquei bem empolgada com a resenha, afinal não só essa série, mas a anterior também, parecem ser maravilhosas, é muito bacana quando o livro é tão bom que nem percebemos o número de páginas, achei bem interessante essa ideia de conhecer, agora adulta, uma personagem que tínhamos visto criança.
Aimeudeus to ansiosa para ler esse segundo, li o primeiro e adorei demais! Gostei pois ajudou a responder questões formadas desse universo, um pouco lento no inicio mas depois é envolvente e dificil de fechar o livro kkkkkk
Não conhecia essa trilogia.
Realmente, Philip Pullman é um grande contador de história, o livro tem quase 600 páginas!
Parabéns!
Não sabia que essa série de livros tinha uma conexão com a outra do autor, mas que ótima informação, pois vou querer pegar a outra pra ler primeiro. Gostei bastante da premissa de A comunidade secreta, assim como do primeiro livro da trilogia. Adoro essa questão que o autor traz de um salto temporal e apresentar a personagem com idades tão diferentes nos livros. Uma pena que o autor deixa algumas questões mal resolvidas (ou pouco resolvidas). Mas continuo ansiando por conhecer esse mundo fantástico.
Bruno!
Só sua resenha já me convenceu de que a fantasia criada pelo autor é daquelas que cativam e conquistam o leitor.
Embora seja uma obra de mais de 600 págs, deve ser tão envolvente que nem dá para desgrudar, porque se ele é direto e não faz enrolação, é algo bem elaborado e já fiquei com vontade de ler.
Não li os livros anteriores dele, mas tenho muita vontade.
cheirinhos
Rudy
Caramba, fico preocupada quando vejo um livro com muitas páginas. Acho que o autor tem que ter uma escrita muito boa, muito desenvolvida, pra que o leitor fique preso à história sem querer largar o livro. Por todas as características que você falou, parece que encontramos isso nesse livro, que bom né?! Vi que é uma fantasia, que eu não leio tanto assim, mas que vem recheado de muito mais, e isso que me cativa.
Uau, quantas coisas diferentes para se abordar em um livro só! Não é de se espantar que pareça que o assassinato ficou em segundo plano. Achei legal que o autor não tenha arrastado a história mais ainda descrevendo detalhes irrelevantes da vida da personagem.
Beijos
Bruno, ontem eu estava lendo sobre esses novos trabalhos do autor. Eu só li o primeiro livro da trilogia de Fronteiras e mesmo tendo a dica de que essa nova série pode sim, até ser lida sem ter se lido os primeiros livros, acredito que até pela personagem, o ideal seria “começar do começo”.
Philip é fabuloso,um gênio em matéria de criar personagens inteiros e olha aí a prova disso.
Um livro de quase 600 páginas que passa rapidinho.
Espero ter a oportunidade de conferir a primeira trilogia completa e depois me jogar nessa também!
Beijo