O que você faria se não pudesse confiar em sua própria memória? E se o momento mais feliz da sua vida, aquele que definiu quem você é hoje, nunca tivesse existido? O que aconteceria se um mar de lembranças invadisse a sua mente? Rostos que você nunca conheceu, mas ao mesmo tempo tem toda a certeza que eram queridos, lugares que visitou sem jamais ter colocado o pé na estrada… E se lhe fosse dada a resposta para todas essas recordações cinzentas, mas tão reais? Você ouviria, mesmo que arrepiasse até o último fio do seu cabelo?

E se você pudesse salvar a pessoa que mais ama? Você ariscaria tudo e a todos para isso?

Blake Crouch, um dos autores de ficção científica mais proeminentes da atualidade, mesmo autor do célebre Matéria Escura, nos presenteia com Recursão que irá mudar o modo como você enxerga a realidade e aquilo que temos por memória. Pegue uma cadeira e aperte os cintos porque essa jornada irá mexer com a própria noção do tempo.

Lançado inicialmente no Clube Intrínsecos, Recursão – vencedor do prêmio Goodreads de Melhor Ficção Científica de 2019 – foi meu segundo contato com a escrita do autor feito em 2019 com Matéria Escura e seguido por este scifi filosófico e misterioso que é dividido em cinco partes, contando com uma narrativa intercalada dos personagens e temporal. Muitas vezes lemos um livro e imediatamente nos tornamos tão fãs de sua trama que, cedo ou tarde, precisamos revisitá-lo, como um amigo querido que acabamos nos afastando por causa do tempo; esse foi o ocorrido aqui porque, igualmente como devorei as mais de 300 páginas ano passado, repeti a dose neste mês de julho ao me ver trancafiada em casa no meio desta pandemia.

De forma breve e concisa, lhes digo o quão gratificante é fazer uma releitura! Nela podemos notar diferentes nuances nas personalidades dos indivíduos da história, bem como melhor apreender os conceitos científicos que foram apresentados e até separar o lado emocional durante a leitura e encará-la com maior senso crítico, vendo possíveis erros no que se refere à edição e a melhor compreensão da fórmula de escrita usada pelo autor.

Em Recursão, somos apresentados inicialmente a Barry Sutton, um investigador da Polícia de Nova York que é chamado ao local de um suicídio, o ano é 2018 e existe uma espécie de doença de origem ainda desconhecida chamada Síndrome da Falsa Memória (SFM) onde as pessoas afetadas alegam ter lembranças de vidas que elas nunca viveram, mas que parecem mais reais do que as que elas realmente vivenciam, sentimento este que acaba por desequilibrar alguns destes indivíduos levando-os ao suicídio.

Se não podemos confiar na memória, se o passado e o presente podem simplesmente mudar de uma hora para outra, nossas noções de ‘fato’ e de ‘verdade’ deixarão de existir. Como vamos viver assim?

Ao longo da trama, o leitor irá acompanhar Barry em sua missão detetivesca em paralelo com sua própria e alquebrada vida conforme busca um sentido, um novo propósito que o tire finalmente do passado turbulento onde a morte da filha e seu divórcio ainda o atormentam. Ele não poderia estar mais enganado de para onde os eventos o levariam.

Conhecemos também Helena Smith, uma neurocientista de Palo Alto que busca incansavelmente a cura para o Alzheimer, através do mapeamento e reinserção das memórias na mente daqueles afetados pela doença, que leva sua própria mãe cada vez mais para o passado; o ano é 2007 e ela recebe uma oferta irrecusável de Marcus Slade, um dos homens mais ricos do mundo, que deseja financiar sua pesquisa e que possui conhecimentos que ninguém, a não ser a própria Helena, deveria ter. Assim, ela se vê em um laboratório secreto de altíssima tecnologia em uma plataforma de petróleo no meio do oceano com mais um time de cientistas, engenheiros, técnicos e médicos para construir sua tão sonhada “cadeira imersiva” que viria a mudar completamente o mundo e o tecido da realidade.


Mesclando ótimas doses de mistério, ação, romance e ficção científica Blake Crouch traz para o mundo muito mais que um livro, mas sim um relato que irá impulsionar o leitor a questionar todos os conceitos que o cercam bem como sua própria compreensão do que é real, imaginário, presente ou passado ao mesmo passo que irá experimentar uma montanha-russa de emoções conforme os personagens, os ambientes e acontecimentos – muito bem construídos e descritos – vão culminando para o ápice de tensão e entorpecimento em uma corrida desenfreada que você, caro leitor, não perde por esperar! Confie em mim, você sentirá seus neurônios forçando conexões desesperadoras com a realidade de Barry e Helena que finalmente se encontram no mesmo ano e veem suas vidas serem entrelaçadas e sugadas para o caos iminente que ameaça o mundo.

Apesar da trama conter vários aspectos que se inserem na categoria “já vi isso antes”, o autor consegue tecer novos caminhos e reações até do leitor mais experiente do gênero ao impulsioná-lo no enredo com disputas de poder e sombras de guerra que uma descoberta científica pode acarretar mesmo, e principalmente, quando seu intuito é aprimorar e salvar vidas de pessoas inocentes. No meio de toda a beleza da escrita de Crouch e da cacofonia de eventos que fizeram meu cérebro ser liquidificado, a pergunta que pulsa em primeiro plano foi e permanecerá sendo: será que um dia a humanidade evoluirá o bastante para não tirar proveito e, por conseguinte, minar seu próprio futuro?

Porque memória… é tudo. Fisicamente, uma lembrança não passa de uma combinação específica de impulsos nervosos, uma sinfonia de atividade cerebral. Mas, na verdade, é o filtro que se coloca entre nós e a realidade. Você acha que está tomando vinho, ouvindo as palavras que eu digo, no presente, mas isso não existe. Os impulsos neurais das suas papilas gustativas e dos seus ouvidos são transmitidos para o seu cérebro, que processa tudo e joga na memória operacional. Então, quando você tem a percepção de estar vivendo alguma coisa, essa coisa já é passado. Já é uma lembrança.

Consumidora de ficção científica que sou, encontrei alguns elementos que referenciam sem dúvida as obras televisivas Fringe de J. J. Abrams e Travelers de Brad Wright e o cinemático No Limite do Amanhã dirigido por Doug Liman e estrelado por Tom Cruise e Emily Blunt, para dizer apenas algumas que me ocorreram no momento. Se você já assistiu, sem dúvida terá uma boa experiência com a leitura, mas caso não conheça algum ou nenhum desses títulos que citei, sugiro assistir todos de pronto.

Confira a crítica de No Limite do Amanhã

Por fim, preciso ressaltar a beleza purista desta edição do Intrínsecos bem como a sua igualmente imersiva capa que traz o loop do infinito pontuado por um labirinto na versão lançada pela Intrínseca neste 2020 para as livrarias. Blake Crouch é um nome para se manter em mente e já aguardo ansiosa por seu próximo trabalho. E vale pontuar que Recursão teve seus direitos comprados pela gigante do streaming Netflix e em breve será um filme e uma série dirigidos por Shonda Rhimes.

  • Recursion
  • Autor: Blake Crouch
  • Tradução: Sheila Louzada
  • Ano: 2019
  • Editora: Intrínseca
  • Páginas: 320
  • Amazon

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